Lapsos de Tempo #22

Pombeato

Carlos, apesar de fazer parte de um bando urbano muito expressivo, decidiu seguir uma carreira paralela. Ao invés de passar seus dias em fios de eletricidade despejando caca em automóveis, caçando alimentos em praças públicas e dormindo em qualquer buraco no topo de prédios como seus companheiros, Carlos decidiu se dedicar à música.
Tudo começou como um hobbie indo à clarabóia da catedral metropolitana para ver o rosto dos donos dos carros onde despejaria toda sua caca. Era divertido ter a certeza de que um criminoso da sociedade teria seu veículo alvejado por merda. Carlos e seus companheiros sabiam sobre seus assédios, suas violências, seus abusos e sobre todas as sacanagens que estas pessoas faziam com outras. Como podem os humanos serem tão cruéis consigo mesmo?
O problema foi que Carlos se apaixonou pela sonoridade oriunda do órgão da igreja, acompanhado por belas vozes em tom uníssono. Todo aquele comportamento de massa era tranquilizante, pacífico, muito diferente do caos que era fora daquele espaço.
Carlos se sentiu à vontade para tentar cantar, mas sua voz não era bonita o suficiente para formar coro. Depois de tanto insistir em participar, decidiu que agora apenas iria escrever músicas para serem cantadas nas missas. Ele entendia que ele seria um compositor, e os membros da Igreja seriam meros intérpretes.
Toda sexta-feira ele deixava na caixa de correios da catedral um envelope com suas últimas canções. Mal ele sabia o sucesso que faria, e sempre ficava feliz em escutar o coro a plenos pulmões.
Carlos tinha uma logística de escrita que dava certo. Ele compunha sobre a dura vida de ser uma pomba em uma cidade grande, querer assistir à missa e não ser bem vindo e, sobretudo, o fato de não ter voz para cantar junto.
Ele ficava na clarabóia, assistindo e acompanhando cada passo da missa. Foi daí que ele pensou na frase “glória à pomba nas alturas, pois na terra dos homens elas não são amadas!“. Mudou algumas palavras e criou o hino de louvor “Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens por ele amados“. Carlos fica feliz ao escutar que suas letras fazem sucesso.
Cagando nas alturas“, um hábito frequente das pombas, se tornou “Hosana nas alturas!“, balançando multidões nas missas por todo país. “Crianças com estilingue que atirai nas pombas voando, tenham piedade da gente!” se tornou “cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós“; “joguem migalhas pra nossa alimentação na praça” se transformou no hit “abençoai nossa oferenda, ó senhor!”.
A alegria de Carlos consiste em seguir tirando sarro dos humanos, só que agora de uma maneira mais indireta. No fim das contas, apenas Carlos sabe que as canções católicas de sucesso são inspiradas na rotina pombalesca.

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