Ano passado assisti à série “Morrendo por sexo”. A tradução é péssima, acho que prefiro o nome em inglês “Dying for sex“, não por ser o original que o diretor quis, mas quando terminamos a série faz mais sentido a forma como os estadunidenses utilizam a combinação de palavras e seus diversos sentidos. No português acaba perdendo um pouco deste sentido, mas é apenas um achismo.
Provavelmente este escrito conterá spoilers, já fica aqui o aviso.
A premissa da série é ótima, a protagonista Molly é diagnosticada com um tumor, ela pode partir a qualquer momento, então decide acabar com seu relacionamento e viver algo que nunca viveu na vida. No caso dela, orgasmo (e outras experiências sexuais/sociais que possam trazer essa sensação). Entre vais e vens a série mostra um pouco desse cotidiano marcado por amizades, inimizades, empatias e um desejo enorme de viver, mesmo sabendo que isso talvez não será mais possível em algum tempo.
Ano passado também li o livro “O que você está enfrentando”, da Sigrid Nunez. Parece que o livro foi adaptado para o cinema pelo Pedro Almodóvar em “O quarto ao lado”, que está na minha lista para assistir, mas ainda não tive muita coragem. Eu digo coragem, porque câncer ainda é um assunto sensível para mim. No livro a narradora conta a história de uma amiga com câncer terminal, um pedido incomum, e vários excertos de sua relações com vários grupos de pessoas e histórias curtas.
Enquanto escrevo isso aqui, fico pensando no quanto a gente vai se adaptando com o tema morte, e o quanto isso nos sensibiliza ou dessensibiliza no decorrer do tempo. Ano passado foi um ano emocionalmente e financeiramente complicado, muitas coisas passando pela minha cabeça, e eu fico aqui pensando no quanto eu lembro destas duas histórias e como elas me marcaram.
Para além dos choros e das lembranças, acho que nos últimos anos eu ando muito mais sensível à várias questões, parece que tudo me afeta de uma maneira mais intensa. Tem dias que não quero levantar e nem fazer nada, tem dias que eu fico extremamente desanimado com tudo, acho que foram muitos anos não lidando com as diversas questões que me atravessam, ou lidando mal, ou não conseguindo lidar mesmo.
Escrevo hoje desta forma, porque eu havia me esquecido de que essas duas obras culturais haviam passado pela minha vida. Eu não fiz anotações, coisa que geralmente faço quando o tema morte/tumor surge em algum lugar.
No triste dia de hoje, em que rememoro o falecimento do meu pai, que partiu há 5 anos, eu me obrigo e escrever e refletir sobre a morte. Escrevo sobre as coisas que vi e vivi no decorrer do último ano, as coisas que me fizeram lembrar dele e o que isso pode me ajudar enquanto alguém que quer voltar a viver plenamente.
Entre várias neuroses, ainda me forço à isto, escrever. Acho que é uma forma de homenagear, sei lá. Mas 2026 começou bem difícil. Se existe vida após a morte, imagino que meu pai tenha se encontrado com seu irmão mais velho, que partiu no início do ano. Algo repentino e muito triste para nós que ficamos. Mas foi bom fazer um grande encontro dos primos e tios, familiares de um círculo muito próximo e muito querido. A ocasião não é boa, mas o encontros sempre são.
Fico aqui pensando que a morte é a única certeza de que temos, algo tão clichê que parece bobo, mas é real. Tem mortes que são rápidas e repentinas, como foi do meu tio, e tem mortes que eu acho que são naturais, como as da velhice em que o corpo pede pra descansar depois de uma vida inteira ativa.
E tem as mortes por doenças, essas eu considero muito cruéis. Elas são lentas, dolorosas, e eu realmente não desejo que ninguém passe por isso. Ao contrário das narrativas que eu citei no início do texto, meu pai não teve nem chance de tentar viver após o tumor. Foram poucos meses com uma rotina de internação, remédios, cirurgias preventivas, em busca de algo que chamavam “qualidade de vida”. Mas, na medida do possível, acho que meu pai conseguiu viver uma vida boa.
E agora tem uma voz na minha cabeça que fica latejando “cuide do seu corpo”, porque isso é um ponto determinante sobre como será nossas vidas daqui em diante. Em meio a lágrimas de uma manhã de segunda, fria, nublada, eu tenho um desejo enorme de conseguir viver plenamente. Acho que tive uma vida boa, e sei que posso ter uma melhor ainda, estou tentando caminhar para isso. Mas já perdi amigos para o câncer, e tenho outros amigos que estão em processo de luta. Isso me afeta muito, fica difícil escrever.
Mas acho super importante ter a oportunidade de lutar, de não desistir. Em meio à várias dificuldades que temos, desistir eu acho que é a pior. E eu já pensei nisso várias vezes, do quão custoso tem sido tentar viver e não conseguir isso muito bem sob algumas perspectivas. Será que vale mesmo a pena?
Vale.
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Neste dia que dedico a pensar e escrever sobre a morte, ou sobre a vida que é o que conhecemos, gostaria muito que minha memória estivesse melhor, que eu estivesse mais ativo com minhas criações, produções e minhas ideias de uma maneira geral. Pai, gostaria muito de te falar que seu time foi um fiasco ano passado, cheio de decepções, mas que ontem ganhou do maior rival, então acho que você estaria feliz neste momento. Abro uma brahma imaginária para brindar à você agora, aos 5 anos de sua partida. Ainda dói bastante.

























