Ruim demais para ser mentira #11

Camping

Quando eu era pequeno me lembro de ter ido num camping com minha família. Tenho memórias bem difusas deste dia, mas a incredulidade com que as pessoas recebem esta história fazem com que ela tenha algo bastante especial.
Primeiro falaremos sobre o cenário: uma área verde com muitas árvores, que agora me parecem que estavam meio secas, gramado, sol, praia. Uma criança de sunga, vulgo eu, corria para cima e para baixo brincando de algo completamente aleatório. Provavelmente com a pele já muito lastimada pelo sol enquanto me perdia nas marés de água salgada.
Dormíamos em uma barraca bem estruturada, composta de dois quartos e uma varanda, e eu me lembro até de um churrasco ter sido feito na área externa. Quando eu digo dois quartos, pode parecer que é algo bobo e apertado, mas eram dois fucking quartos bastante espaçosos, impensáveis para pessoas que já nasceram na era das barracas que são montadas apenas com uma varinha no iglu feito de lona.
Fico imaginando esse tipo de barraca old school sendo carregada por neohippies brancos de dreads em seus mochilões por regiões indígenas, exigindo brunch de algo que não existe ali. Algo completamente impensável.
A lembrança que eu tenho do lugar traz algo mais especial ainda: o bar. Aquele espaço raiz interiorano, uma janelinha onde se pede bebidas e tira-gostos, um alpendre coberto, nas paredes haviam pinturas e propagandas do que se vendia ali, tudo muito bem ventilado no espaço, mesas de madeira acompanhada de bancos que lembram muito o refeitório de uma universidade. Me lembro de ter música ao vivo e de jogar baralho com minha família enquanto eles se deliciavam com uma cerveja gelada (eu espero) naquele calor praiano de algum lugar que eu não lembro onde era.
No bar todas as pessoas do camping se encontravam, e eu me lembro que iria muito lá. Mas minha memória quer muito me enganar, pregar peças na minha realidade infantil e plantou uma situação muito inusitada. Tenho uma memória muito nítida de uma noite no bar em que foi feita uma encenação da Escolinha do Professor Raimundo. Sim, estávamos sentados na mesa, e os personagens foram se sentando junto da gente nos bancos sem encostos, e todos riam a cada piada que era proferida. Eu não entendia bem o que estava acontecendo, mas me lembro de ter sentido muita raiva nesse momento. O personagem do Seu Boneco sentou-se à minha frente, deu as costas pra mim e eu não possuía nenhum campo de visão que não fosse as costas dele de regata surrada e da nuca vestida com uma meia-calça velha rasgada. Eu não conseguia acompanhar o que estava acontecendo e tratei apenas de esperar que o evento acabasse.
Na minha concepção de tempo aquilo tudo durou uma eternidade, e esses programas besteiróis que simulam escolinhas com atores velhos falando baboseiras é algo que eu não curto nem fudendo. Inacreditável como tudo isso pode ser facilmente inventado por uma mente viajandona como a minha né? Quando eu conto ninguém acredita. Nem eu acreditei em mim mesmo.
***
Recentemente interpelei minha mãe e minha irmã sobre essas lembranças. Eu realmente achava que eu tinha sonhado com isso tudo. Minha irmã sempre me contava histórias aleatórias de como ela enxergava as situações, e eu sempre acreditei em tudo independentemente se fosse verdade ou mentira. Minha mãe me respondeu de forma simples, direta e rápida: “Sim!! Foi na Praia do Siri.” e seguiu com outra mensagem curta: “A barraca tinha 2 quartos e uma varanda.”. Eu comecei a rir muito, porque eu realmente achava que tinha sonhado com isso tudo. Sobre a Escolinha, minha mãe confirmou a veracidade do ocorrido e completou: “Teve. Vc ficou puto e começou a chorar. Foi numa área de camping” enquanto minha irmã se limitou a confirmar com um intenso “Simmmm”. De acordo com elas, existem fotografias deste dia, de uma criança, no caso eu, dormindo na imensa barraca.


2024 – #28 – Lei

Juston, um governante muito querido, certa vez teve a brilhante ideia de criar uma assembleia popular unificada. Ele reuniu todas as pessoas que viviam em seu país, um enorme território de oito milhões de quilômetros quadrados, e escutou atentamente cada sujeito que se apresentava. Ele dividiu a escuta em duas partes: a primeira ele escutava todo o histórico de vida daquela pessoa. A segunda ele registrava todas as sugestões das pessoas de como melhorar a vida naquele país.
Depois de passar vários anos escutando todos os habitantes, Juston compilou um livro que continha sugestões e de como deveríamos viver, baseados em um senso comum de respostas que se repetiam. Ele tinha a certeza de que se a maioria concordava que o que estava no livro fossem coisas positivas, todos prosperariam. As populações passaram a seguir tudo o que estava escrito no livro de Juston.
Pouco tempo se passou e vários conflitos começaram em diferentes partes do território. As motivações eram várias, infinitas, difusas. Juston achou que o que potencialmente é bom para a maior parte das pessoas, seria o melhor para todas os habitantes. Queria ser um bom governante, fazer algo realmente eficaz para o país.
Juston finalmente entendeu que unificar o senso comum ignorava todas as particularidades da população, da geografia e da história de cada contexto regional.
Juston fracassou dentro dos limites em que ele podia atuar.

#literotubro #toranjanews

2024 – #27 – Ordem

Pela primeira vez na história do grande país Nugas, uma manifestação foi composta por todos os setores da sociedade civil. Muitas centenas de artistas se apresentaram nas mais diversas expressões artísticas, milhões de pessoas ocuparam as ruas de 8.967 cidades levantando as mais diversas bandeiras. Foi uma unificação nunca vista antes. A quantidade e multiplicidade de cartazes e frases de efeito deram o tom de insatisfação da maior parte da população contra o atual governo unificado. A manifestação durou várias semanas, aglomerou todos os tipos de pessoas, das mais diversas castas sociais e econômicas. Foi uma festança magnífica, digna de entrar para todos os livros de história. Várias fotos e vídeos registraram o momento único na história.
Os governantes de Nugas, por sua vez, seguiram seus jantares se deliciando com o banquete que era servido no Palácio do Governo.

#literotubro #toranjanews

2024 – #26 – Memória

Doren passava seus dias pesquisando toda e qualquer informação que pudesse. Percorria montanhas, anotava tudo o que via. Escutava as pessoas falando, escrevia tudo em seu grande caderno. Percorria as selvas, seus habitantes, as cidades, povoados, vilarejos, caminhava e pedalava por estreitos, vielas, becos, navegava em riachos, ribeiros, rios, lagos. Doren registrava tudo o que conseguisse. Desenvolveu habilidades de observar e escutar, memorizar tudo da melhor forma possível, desenhava, escrevia, refletia. Fazia conexões com vários outros fatos que ocorriam em diferentes lugares. Nada podia deixar de ser registrado. Pelo bem do futuro.
Viver era um eterno registro do vivido.

#literotubro #toranjanews

2024 – #25 – Ilusão

Através de um aparelho eu vejo números. Hoje tudo pode ser quantificado. As distâncias, as economias, as amizades. Seu trabalho, seus estudos, seu lazer, tudo que você faz ou pensa em fazer é quantificado de alguma forma. São dados que estamos seguindo cegamente, pensando em chegar a algum lugar. Nada disto é vida.
Vemos um plano difuso, mas dá muita preguiça percorrê-lo com nossos próprios pés. São muitos obstáculos. Ver números é mais confortante.

#literotubro #toranjanews

Aulas de xilo e linoleogravura presenciais em BH

AULAS DE XILOGRAVURA E LINOLEOGRAVURA
com La Idea

Xilogravura e linoleogravura são técnicas de gravação e de impressão em relevo utilizando matrizes com base de madeira e de borracha, respectivamente. São muito versáteis, oferecem uma ampla gama de possibilidades, de experimentações e de finalidades.

Nos encontros iremos desenvolver:

*manuseio de goivas e demais ferramentas
*noções básicas de desenho
*decalque
*como criar sua própria matriz
*escolha de papéis e tintas
*impressão monocromática
*impressão policromática
*matriz perdida
*desenvolvimento de projetos
*e mais!

Para quem são estas aulas?

*Curte a técnica e a estética
*Gosta de processos manuais e artesanais
*Nunca gravou nada, mas tem curiosidade
*Quer desenvolver projetos artísticos, conhecer novas formas de se expressar e experimentar na produção gráfica.

*Não precisa saber desenhar.

*Encontros de aproximadamente 1h30min
*Hora e dia fixos ou marcados com antecedência
*Atelier no bairro Santa Tereza/BH
*Goivas, tintas e demais materiais estão incluídos
*Não estão incluídos papéis de impressão e matrizes
*Goivas, tintas e demais materiais estão incluídos
*Valores:

1 aula avulsa individual: R$110
1 aula avulsa em dupla: R$200
pack 4 aulas individual: R$396 (10% de desconto)
pack 4 aulas em dupla: R$720 (10% de desconto)

Entre em contato via DM do insta @cyco.idea
ou pelo e-mail cyco.idea@gmail.com

Ruim demais para ser mentira #10

Água

Quando eu era criança eu achava que toda comida e toda bebida que entrava pela nossa boca era depositada em todo o espaço interno do corpo. Simplesmente, na minha cabeça, o corpo era um grande espaço vazio que era preenchido com comida e bebida. Eu sempre fui muito bom em comer, e essa era minha explicação plausível para nunca ficar devidamente saciado.
Inclusive, vontade de cagar era algo que acontecia somente quando o corpo já estava cheio de comidas e precisava liberar um espaço para a próxima alimentação. Eu não tinha limites quando o assunto era comida, e minha mãe precisou brigar muito comigo para que eu não tomasse Biotônico Fontoura, pois eu adorava o sabor sem saber que isso servia para abrir o apetite.
Claro que eu recusava algumas coisas que eu achava esteticamente feias, tipo couve-flor, ou com cheiro muito forte, tipo pequi. Até jiló ainda é difícil se acostumar com o sabor amargo, mesmo depois de tantos anos, mas o tempo me fez ampliar minhas opções de alimentação.
Com líquidos não era muito diferente, mas na minha cabeça o líquido saía logo depois que ele entrava, e eu tinha uma preguiça enorme de fazer xixi.
Sempre que me dava vontade de “tirar água do joelho” eu ia na cozinha e tomava tudo quanto é água que eu poderia consumir no dia. Virava copos e copos pois aproveitaria a ida ao banheiro para mijar toda essa água e eu não precisar retornar depois. O líquido competia espaço com a comida, e por isso deveria sair mais rápido.
Uma cena frequente que me lembro quando criança era o de beber muita água antes de dormir, pois aproveitaria a última ida ao banheiro para liberar todo o xixi que eu tinha no corpo e, claro que essas coisas não passam ilesas, e uma questão comum da minha infância era eu acordando todo mijado.
Nunca entendi muito bem o porque eu fazia xixi na cama, mas mesmo depois de adulto isso ocorreu algumas vezes. Mais recentemente eu entendi que eu ficava preso no meu próprio sonho. Sabe aquelas vezes que você está sonhando e precisa muito achar um banheiro para mijar? Pois é, em algumas destas vezes eu não conseguia acordar e mijava no meu sonho. Ou seja, mijava na cama.
Eu nunca fui muito bom em lembrar dos meus sonhos, mas esses em que eu mijava eu lembrava com certa frequência. Hoje tomo muito cuidado para não ingerir muitos líquidos depois das 21h, no intento de não ficar preso no meu sonho novamente.
O jovem eu poderia ter se livrado de muitos colchões ao sol e poças de urina no quarto se tivesse desconfiado antes que o corpo funciona de outra maneira.

2024 – #24 – Fator

Teoria e prática precisam sempre caminhar lado a lado. As vezes se distanciam, as vezes se juntam, mas elas não conseguem se separar. Elas constituem parte do leque, que também chamamos processo, de possibilidades para alcançar algo que se almeja. Eles possuem uma certa alternância a depender do tempo e da disponibilidade de recursos. Ora a teoria está mais forte, ora é a prática. Elas se contradizem todo o tempo, se refutam e concordam entre si. São elementos indissociáveis a qualquer modo de vida. Tudo que fazemos segue esta lógica, ainda que não nomeemos desta mesma maneira. Quando tentamos separar um do outro, tudo perde o significado. A questão não é saber o que vem primeiro ou que vem depois. É saber o que mais a gente precisa em determinado momento, em alguma situação. Alternância é movimento.

#literotubro #toranjanews

2024 – #23 – Vigilância

Na rua de cima há uma casa sem telhados e sem janelas, somente paredes. As portas fechadas possuem aberturas de vidro, sem vidros. Todo o espaço está tomado por mato. Aí complicaria muito a situação. Virando a esquina há outra casa tomada por matos, mas vários anúncios de vende-se e aluga-se me faz pensar se alguém realmente quer viver neste im´óvel. As paredes estão desgastadas, janelas e portas enferrujadas, difícil ver o que tem dentro. Caminhando mais um pouco há outra casa, velha, de arquitetura neocolonial. Suas janelas e portas estão tampadas por blocos de tijolo formando um grande paredão. As janelas do segundo andar seguem o mesmo estilo de tijolos que tampam o que poderia entrar de luz e ar. Vê-se mofo e umidade escapando por algumas frestas, além de uma vegetação parasitária que dá as caras por várias frestas e fissuras nas paredes. Fios de arame farpado decoram a fachada da casa. Descendo a rua em diagonal há uma casa também tomada por matos e entulhos, oriundos de vários processos de destruição. O teto desabou levando consigo a estrutura de sustentação do forro e do assoalho, revelando mais espaços vazios e abandonados. Aparentemente houve uma enchente, pois há marcas de água barrenta até uma certa altura da parede. Também há restos de móveis largados onde provavelmente seria um quarto de criança. Descendo mais um pouco há uma casinha pequena, o telhado está levemente danificado, com algumas telhas faltando e parte da sustentação está comprometida. Entro, verifico as paredes que estão de pé, com socos e empurrões verifico o estado das colunas de sustentação. Avalio as condições do telhado de maneira pormenorizada. Também observo a quantidade de matos, entulhos e o quanto de energia eu teria que gastar arrumando tudo isto.
Achei minha próxima casa.

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2024 – #22 – Manejo

Gire a alavanca para o lado direito segurando com a mão esquerda. Puxe o pino principal e afrouxe o pino auxiliar. Com o peso do ombro aperte o cabo e ajeite-o próximo da costela, mas não em cima. Gire o corpo 35° para que a peça principal seja encaixada na ponta. Puxe o elástico contra o corpo e ajeite dentro do espaço reservado para ele. Carregue com as bombinhas pelo compartimento superior, depois ajeite o objeto no tripé. Fique deitado, com um dos braços apoiado no chão e outro segurando a alavanca do elástico. Pelo orifício superior com lentes você consegue verificar se está tudo correto. A lente reflete ângulo de despejo, engrenagem firme, equilíbrio dos vetores horizontais e diagonais. Cuidado com cabelos e óculos, pois podem atrapalhar o bom funcionamento. Segure a respiração quando estiver pronto. O gatilho estará na lateral direita, preso ao suporte mecânico anterior. Uso único. Use com sabedoria e moderação.

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2024 – #21 – Progresso

Anmol governava um pequeno povoado na região dos mares de morros da Península de Wayooth. O povoado possuía uma limitação que estava na ordem da arrecadação de impostos, pois não conseguia desenvolver-se por falta de recursos financeiros. Anmol pegou empréstimos bilionários e começou a transformar todos os morros em terras planas, zoneando em regiões de residências de 3 e 4 pavimentos. Estas residências eram destinadas a receber, principalmente, famílias imigrantes que se refugiavam no local e que se qualificavam para receberem um aporte financeiro do Estado pra se instalarem no local. O sucesso foi tamanho, que a cidade cresceu e se desenvolveu a ponto de saturar a Península de pessoas, veículos, resíduos industriais e domésticos, poluição e áreas impermeáveis. A situação ficou insustentável, gerando um êxodo de pessoas para outros locais, uma escassez de serviços e mão de obra, fazendo com que parte da agora cidade de Wayooth se tornasse completamente abandonada e em ruínas.
O Estado não deu conta de seguir com os aportes financeiros, nem com a manutenção de uma cidade que se desenvolvia e crescia desordenadamente.
Todo o bioma local foi destruído.
Wayooth se tornou um símbolo do progresso e do abandono de forma muito veloz.
Anmol não vive mais em Wayooth.

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2024 – #20 – Terreno

Freihsh é um povoado semi-nômade situado na planície costeira de Rash. Suas casas são construídas de forma que um dia, seguramente, serão destruídas pelo tempo. Os habitantes do povoado são relativamente desapegados de bens materiais, pois possuem uma noção de que os objetos não precisam durar para sempre. Isso movimenta a criatividade e a produção e pesquisa no/do bioma local. As famílias possuem terrenos, previamente demarcados, e sempre estão construindo novos lugares para residência enquanto entendem a deterioração natural da atual. Os lotes são revezados entre residências a serem construídas, residências em deterioração, horticultura e plantações diversas, recuperação da mata natural e áreas coletivas, que podem serem utilizadas de forma coletiva para lazer e vida comum. Esta maneira forneceu uma maneira prática de nunca esgotar o solo, além de incentivar a pesquisa de novos materiais e formas de construir que não seja tão agressiva.

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2024 – #19 – Artifício

Dihn passava os dias nas ruas da cidade de Roskom aplicando pequenos golpes na elite local. Como muita astúcia desenvolveu habilidades mágicas e ilusionistas, o que ajudaram a ter mãos e movimentos sutis o suficiente para que seus furtos passassem despercebidos. Era muito difícil compreender como fazia, ou mesmo prever seus movimentos. Rápido, ágil e com muita destreza desviava de pessoas, obstáculos e câmeras, e se especializou em furtos de objetos de valor. Furtava de ricos e vendia para eles mesmos através de um mercado paralelo de itens precioso, que circulavam apenas em uma única classe social. Dihn tinha a certeza de que cada uma destas pessoas eram lobos famintos por status e ansiavam fazer de tudo para derrubar outros lobos. Dihn aproveitava a fragilidade da noção de poder que tinham para que com o tempo destruíssem a si mesmos.

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2024 – #18 – Luz

Um sistema de comunicação foi desenvolvido entre as comunidades de Sartin e de Tlaxup, na cadeia montanhosa de Concatenipo. Sartin está situada no topo plano do pico de Granem e Tlaxup foi desenvolvida no planalto de Gripome, a 150km aproximadamente de distância entre as comunidades. Entre elas alguns vales e mares do morros, com vegetação densa em algumas partes, matas ciliares e cursos de rios. Para as cidades se entenderem sem a necessidade da mobilidade dificultada, códigos luminosos e coloridos foram combinados para que o diálogo pudesse ser feito. Um sistema de coloração por minério e água é utilizado em canais similares a fibras óticas construídos com canaletas de bambu e cipó. A intensidade da luz, a coloração e o tempo em que fica acesa funciona para representar letras, sílabas e palavras. A recepção do sinal luminoso é feita através de rochas esculpidas em formato de concha, polidas para iluminarem bem e voltadas para a saída de luz da canaleta da outra comunidade. Assim, as duas comunidades se ajudam sempre que necessitam de algo em que a outra possa auxiliar.

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Imaginokupa #3

Carcaça

Carcaça é o nome pela qual ficou conhecida a antiga ocupação de uma guarita vazia ao lado da linha férrea metropolitana. Nos anos 90 um grupo de jovens artistas e muralistas começou a utilizar o imóvel abandonado para guardar materiais como tintas, rolos, extensores, misturadores e equipamentos de escalada que seriam utilizados nas ações de intervenção que rolavam na cidade. O grupo foi conformado por 20 pessoas que esperavam pacientemente pelo momento perfeito de acessar os trilhos e produzirem grandes murais com motivos políticos nas estações de trens, vagões, construções próximas e nos muros que dividem as ruas dos trilhos. As ações eram coordenadas para que ninguém fosse detido e todo o processo fosse feito em poucos segundos ou minutos.
A guarita, já sem uso pelos oficiais de vigilância devido à modernização e robotização do sistema, era um ponto de observação e planejamento logístico para as intervenções. Ela possuía dois andares, sendo que o de cima, com acesso pela escada externa, era utilizado apenas para observação. Já o de baixo possuía uma porta grossa embaixo da escada, onde eram guardados materiais de pintura, vestimentas, e demais equipamentos necessários para a intervenção. O segredo da ocupação consistia em um piso falso, que dava acesso a um tipo de subsolo, ligado por um túnel até uma caixa de entulhos e materiais de manutenção dos trilhos. Todos os materiais e equipamentos ficavam devidamente escondidos e protegidos até o momento que a ação pudesse ocorrer sem problemas.
A ocupação ficou ativa por alguns anos, e promoveu neste tempo cerca de 275 ações de intervenção que envolviam propaganda política radical e autônoma, gerando guerra contra as empresas publicitárias que colocavam seus outdoors nos mesmos espaços e plotavam os vagões com publicidade de empresas privadas. Iniciou-se uma verdadeira batalha por espaços e durante muito tempo não houve informações de quem estava pintando os murais durante a madrugada.
Uma das táticas utilizadas pelo grupo rebelde foi a de hackear o sistema de segurança automatizado através da frequência de rádio e de um sistema de cabeamento do subsolo grampeado. Foi através das técnicas de contra-informação que as ações puderam ser coordenadas entre os membros, e teve seu relativo sucesso por muito tempo.
Com a virada do milênio, os sistemas de segurança ficaram mais rígidos com o medo do bug internacional que poderia atrapalhar todo o sistema de fluxo de dados, e todo o sistema de hackeio e grampo foi descoberto. Felizmente, a guarita foi desocupada antes que alguém pudesse ser detido. Ainda não se sabe bem quem foram estes ocupantes e jovens, mas suas ações ficaram marcadas, e o resquício do imóvel segue de pé, sendo tomado pela vegetação local.
A Okupa Carcaça foi um marco na subcultura do grafite e da intervenção artística de cunho político, radical e autônomo, e a influência dos murais ficou marcada na memória de muitos habitantes locais e grupos organizados.

2024 – #17 – Harmonia

Blates é uma comunidade construída a partir da noção da pesquisa e autossuficiência nos trópicos. Ela é conformada por um conjunto de casas baixas, intercaladas por jardins, hortas, pomares e vegetações ciliares. As casas, residenciais em sua maior parte, possuem grandes aberturas para entrada de luz, telhados com vegetação para proteção do calor e sistema de coleta e reaproveitamento de água através de canos, filtragem, decantação e reutilização para irrigação em tempos de clima seco e frio. As famílias semeiam e colhem coisas distintas para promover trocas sem a utilização de moedas. Todo o trabalho de construção e desenvolvimento é feito a partir de regras preexistentes e acordadas pela comunidade. O conhecimento é compartilhado entre todos para que seu desenvolvimento não seja comprometido a longo prazo.

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2024 – #16 – Distração

Dobro a esquina durante o início da noite, passo pelo portão principal, sigo próximo à cerca agachado, buscando pontos de escuridão. Olho ao redor e memorizo tudo o que se passa. Aguardo toda e qualquer movimentação espontânea. Apuro meus ouvidos, aguço meu olhar. Caminho por entre arbustos e árvores, subo pequenos morros, caminho ziguezagueando, ninguém pode prever meus movimentos. Consigo um local para me deitar, com uma boa visão do evento. Árvores e arbustos me protegem. Fico em silêncio observando. Espero o momento certo.
***
Hoje é um grande dia, eu serei condecorado por bravura de guerra devido às minhas destrezas na batalha campal. Comandei um pelotão de 70 homens, que defenderam com a vida a minha integridade física e demonstraram seu amor ao rei. Hoje eu desfilarei pelo vilarejo com todos os símbolos desta grande vitória do Reino. Ninguém pode me deter.
***
“Fhhhlslslshhww” foi o som da flecha atravessando a cabeça do Comandante Geral dos Guardas do Reino de Angostu.

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Gira Sudaka

É com muita satisfação que eu anuncio que entre os dias 28/07 e 30/08 farei parte da tour sulamericana do livro “Casa Encantada“, do meu amigo Baruq. Será uma jornada corrida, intensa e a expectativa é de que será igualmente maravilhosa.
Durante a tour, além de realizarmos o lançamento do livro, apresentaremos sobre a okupa Kasa Invisível e conversaremos com as pessoas de diferentes centros sociais e ocupações o que andam fazendo em suas regiões, como fazem, como se organizam, seus históricos de luta e de resistência.
O lançamento irá passar por espaços autônomos em cidades do Chile, da Argentina, do Uruguai e por mais cinco estados brasileiros (RS, SC, PR, SP e RJ).
Será uma forma de ampliar a rede de solidariedade entre espaços autônomos e coletivos em processos de luta, sobretudo àqueles que praticam formas de ação direta.

Como muitos sabem a organização autônoma e a criação e gestão de espaços de resistência é o tema de minha pesquisa na pós-graduação em educação (leia a dissertação clicando aqui). Acredito que esta viagem também poderá agregar aos meus estudos mais informações e ideias em como prosseguir com esta pesquisa em outros âmbitos também.
Porém, para uma pessoa autônoma como eu (sem férias, sem 13º, sem descanso), os custos da viagem precisarão ser arcados de outras maneiras. Dito isto, lançamos uma campanha de arrecadação de fundos para que pessoas situadas no continente europeu possam colaborar (conhece alguém que tá lá?, mande este link) e também fizemos alguns eventos para arrecadar dinheiro com a venda de bebidas.
Outra forma de nos ajudar é adquirindo por R$60 o pôster em serigrafia que produzimos fazendo alusão ao tour (imagens logo abaixo) e também a partir da contribuição voluntária de qualquer valor pela chave pix cyco.idea@gmail.com (qrcode aqui).

A ideia é levar esses posters para serem vendidos durante a viagem também e assim arrecadar fundos, sobretudo, para alimentação durante a viagem.
Enfim, a expectativa está alta, a ansiedade também. Se tudo der certo, postarei atualizações da viagem aqui no blog e no Instagram também.

2024 – #15 – Medo

Sekram é uma comunidade instalada e desenvolvida em um terreno insular ao sul do continente. Um lugar frio, com densa corrente de ar e pouco explorado por humanos devido à seu terreno muito acidentado e de difícil acesso. Apesar das suas particularidades geológicas, morfológicas e climáticas Sekram e seu entorno possui uma ampla biodiversidade de fauna e flora.
Sekram se desenvolveu inicialmente como base de pesquisas científicas, e alguns cientistas passaram a dedicar-se às pesquisas no local de forma integral ali se instalando. Inicialmente ficavam apenas na base e arredores próximos, pois o restante da área era de difícil acesso. Mas com o tempo e com o aumento do número de habitantes, explorar outras regiões se tornou uma tarefa um pouco mais fácil.
Aprender a conviver com as diferentes espécies da fauna e também domesticar a flora local era essencial para se manterem ali. Tudo era desconhecido e foi durante a convivência e experiência que a vida local passou a prosperar de alguma forma.
De início sentiram um grande temor, receio do ecossistema devorar a todos. Com o tempo se acostumaram.

#literotubro #toranjanews

Lapsos de Tempo #15

Passeio

Vejo o que ele tem na mão, me animo. Me vem uma felicidade extrema que não consigo me conter. Vou até ele e sinalizo que concordo com sua atitude. Ele coloca algo no meu pescoço enquanto olho para o Breno ao meu lado querendo que seja feito o mesmo com ele. Nós, afobados, saímos correndo até a porta de vidro. Ele abre e, por mais que façamos força, não conseguimos correr livremente. Vamos tentando caminhar, mas Breno não consegue andar em linha reta e toda hora me fecha. Breno também faz com que nossas guias se enrosquem, e isso dificulta o andar. De vez em quando eu perco a paciência com Breno, mesmo ele sendo muito maior que eu. Eu cheiro alguns lugares, ele vem atrás de mim fazendo o mesmo. Fico me perguntando se ele tem a própria personalidade e interesses. Deixo um pouco de urina por onde passo. Gosto de marcar alguns lugares e deixar registrada a minha presença ali. Breno me imita em tudo. A cidade é viva, e nós que fazemos ela viver.
Vejo algumas coisas no trajeto, cheiro e não me agrada muito. Já Breno morde tudo antes de saber o que é. Ele morde, baba e cospe fora, não possui muitos critérios. Seguimos pela avenida vendo todo o movimento de automóveis barulhentos, ao mesmo tempo que acompanho o voar silencioso de uma borboleta. Isso me detém um pouco no processo de contemplação. Breno não enxerga nada disso. Passa por cima de qualquer coisa que está no seu caminho.
Na esquina um cheiro chama a minha atenção. Percebo que Breno sentiu a mesma coisa. Nos entreolhamos e fomos correndo, forçando o chão para chegar lá o mais rápido possível. Era um gramado a meia altura, recém cortado, cheirinho de mato molhado, algumas flores solitárias enfeitavam. Eu olhei para Breno, ele me olhou. Fomos até lá, subimos, cheiramos o melhor ponto possível, demos duas voltas em torno de nós mesmos e soltamos o som mais gostoso do mundo: “-ahhhhwwwwff!”.
Sim, o único em que concordamos é que cagar na grama é o melhor momento do dia.

Olympus Pen-EE – Shangai GP3 100 PB – La Idea, 2023


Horizonte

Quando estou caminhando, correndo, pedalando, me locomovendo de uma maneira geral, olho para o horizonte. Acho interessante como que as coisas no primeiro plano passam de maneira muito mais rápida que o fundo da cena.
Fico pensando no que são nossos sonhos, desejos, o que queremos e o quanto nos propomos a buscar o que almejamos.
Fiquei pensando nessa analogia com os planos da paisagem. O que está muito próximo, chega rápido, mas é isso, não tem nada demais além do que está na na cara. Logo é substituído por algo tão efêmero quanto.
O que está a médio prazo, passa a uma velocidade menor, podemos ver com calma, analisar, escolher, temos tempo para observar. O primeiro plano, veloz, às vezes atrapalha um pouco observar o que está a média distância, mas não impede.
Já o que está no fundo, no horizonte, passa tão devagar que nem parece que estamos nos movendo. Ali temos um amplo leque de possibilidades até conseguir chegar lá. E pode ser que nem seja lá onde queremos chegar. Tudo depende do caminho. Mas é um ponto de fuga, algo onde miramos.
Talvez seja por isso que a utopia seja tão metaforizada como a ideia do horizonte.
Ele está longe, mas está ali. Só saber ir com calma.

Olympus Pen-EE – Shangai GP3 100 PB – La Idea, 2023