Trabalho
Ooopa, tudo bão?
Falaê, tudo certo parcêro. Dá uma licencinha, só preu ver o que tem aqui?
Opa, claro, vou chegar pro lado aqui. O que você busca na caçamba? Material reciclável?
Não, não. Busco sujeira.
Sujeira? Como assim? Que tipo de sujeira?
Sujeira, ué. Coisa suja, para sujar.
Mas você vende sujeira? Tipo essas garrafas quebradas e plásticos?
Não. Eu uso a sujeira para sujar.
Mas porque na caçamba?
Caçamba tem sujeira de tudo quanto é tipo. É o equivalente aos ribeirões sem tratamento nas zonas periféricas.
Mas o que você faz com isso? Achei que você vendia pra reciclagem.
Eu uso para sujar.
Mas sujar o que?
Tapetes.
Tapetes?
Sim, tapetes.
E o que você faz com isso? Parece uma ideia meio estranha.
Eu também acho, mas dá muito dinheiro, então cada trabalhador faz o que pode pra conseguir o pão de cada dia.
E como que você ganha dinheiro sujando tapetes?
Tem um tapete estirado no chão. Eu abro a sacola com tudo que coletei de sujeira, e despejo em cima. Depois deixo secando e despejo mais coisas. Demora quase 1 mês pra finalizar o serviço, mas pagam super bem.
Me explica melhor esse processo, estou meio perdido. Não está fazendo sentido nenhum isso.
Rapaz, antes eu ralava com uma cooperativa de pessoas que limpavam os córregos e ribeirões das zonas periféricas. Era tipo um mutirão. A gente tirava um dia para limpar todo resíduo, lixo e sujeira que estavam na água e na mata ciliar. Ret´irávamos toneladas de lixo e a ideia era manter as águas preservadas, abrir prum sistema de tratamento chegar e conscientizar a população da importância de manter limpo. Mas não era algo que dava grana. Perdíamos nosso fim de semana todo fazendo a limpeza e transportando toneladas de descartes para outros lados, reciclagem, incineração, compostagem, etc. Todo processo era filmado, e fazia bastante sucesso nas redes sociais, só que nenhuma grande empresa se interessava no nosso trabalho, sempre fomos voluntários nisso. Ganhávamos muitos comentários de apoio, mas nenhum recurso financeiro e ninguém se voluntariava para ajudar.
E aí?
E aí que um dia chegou um cara lá que dizia estar procurando materiais para um novo nicho de mercado, e pediu pra gente separar tapetes pra ele. Ele pagava uma nota boa por cada tapete que encontrávamos. No início, nós limpávamos os tapetes e entregávamos ele da melhor maneira possível, até que ele nos disse que queria os tapetes exatamente do mesmo jeito que encontrávamos. Quanto mais sujo, fedido, encardido, em péssimas condições, mais dinheiro caía na conta. Daí nós decidimos que sujaríamos os tapetes mais ainda, com todo tipo de material que achássemos nas caçambas, aterros e depósitos clandestinos.
Mas como que isso funciona?
A gente suja tudo, deixa secar, suja mais, deixa secar. Terra, barro, sangue, cerveja, drogas, fuligem, craca, tudo que encontrávamos ia pro tapete…
Tá, mas porque ele pagava tão bem?
Esse cara fazia vídeos lavando tapetes. Ele se filmava fazendo limpeza completa de tapetes, jogando tudo quanto é tipo de sabão, desinfetante, químicos auxiliares, água, até o tapete voltar a ficar como novo. Esse tipo de vídeo caiu nas graças dos usuários, e agora eu ganho muito bem para criar a sujeira dos tapetes que aparecem no vídeo. Se eu ganho bem, imagina o cara que é dono do negócio…
Caramba, não sabia disto!
Pois é. As pessoas adoram ver as coisas materiais sendo limpas e conservadas. Doam dinheiro, contratam para limpar seus tapetes, compartilham os vídeos, assistem às propagandas… Realmente é um nicho de mercado. Retém atenção em 100% do vídeo, sem acelerar.
E os vídeos limpando os córregos e ribeirões?
Ah, esses ficaram em segundo plano. Não dá pra se dedicar em duas coisas ao mesmo tempo. Infelizmente a gente dá um gás no que dá dinheiro.










