Há um ano atrás eu estava no Parque Lezama em Buenos Aires. Depois de passar uma manhã super agradável com um casal de amigos em uma feira de agroecologia na Universidad de Buenos Aires, tomando mate, comendo empanadas e contando causos curiosos que diferem os hábitos argentinos dos hábitos brasileiros, saí de lá alimentado e feliz, rumo à parada de ônibus que me levaria ao Parque.
Lá estava ocorrendo uma manifestação pró-Palestina, onde muitas pessoas se revezavam no microfone instalado no anfiteatro. Entre histórias, discursos políticos, apresentações musicais e poesias, me sentei na arquibancada enquanto observava tudo acontecendo.
Haviam artistas serígrafos estampando cartazes, camisetas e lenços ao vivo, pessoas vendendo zines e publicações diversas, banquinhas de artesanatos, punks expondo camisetas e patches, muitas bandeiras de diferentes movimentos organizados estendidos. Haviam pessoas de todos os tipos. Apesar de não estar lotado, o fluxo de manifestantes pareceu bem intenso durante o momento em que estive lá.
Uma moça de cabelos pintados e piercings no rosto, vestida com uma calça xadrez, alcança o microfone. Ela estava sozinha, apenas acompanhada de uma guitarra stratocaster, atrás de um pedestal com um microfone, olhando de frente todas as pessoas que estavam sentadas na arquibancada. Os primeiros acordes tocados já fizeram meu coração pulsar mais forte. Logo vem a voz doce, num sotaque porteño, suspirando a sequência de palavras que me fizeram levitar por um instante:
¿Qué es lo que está mal en este lugar?
Acá, yo no lo entiendo
¿y quién más que vos sabe lo que vos sos?
A mí no me hagas preguntas
“Lo único feo es no tener porque vivir” é uma música da banda punk Boom Boom Kid, lá da Argentina mesmo. Banda local que me ajuda em vários momentos e que eu faço questão de ir em show sempre que consigo (ou posso). Lá no parque, assistindo à apresentação, me emocionei, meus olhos encheram de água e eu me concentrei naquele momento. Peguei o celular e fiz um vídeo rápido de bolinha que enviei para minha namorada. Na legenda eu escrevi: “eu escutei essa música em looping quando meu pai faleceu”.
Segui assistindo àquele momento, estático e extasiado. Quando olhei novamente o celular, havia uma mensagem da minha namorada, retornando sobre o vídeo curto: “Que coincidência, hoje é dia dos pais!”.
Naquele momento eu não consegui mais me segurar. As lágrimas começaram a jorrar de meus olhos, minha vista embaçou de tanto líquido na frente das retinas, minha respiração ficou incontrolável e eu não pude mais formular palavras com a minha boca. Me emocionei a ponto de ficar em prantos em pleno ato político.
Um amigo, que viajava comigo, talvez não soubesse muito bem o que fazer, então me ofereceu vinho. Aceitei, mesmo tendo passado os últimos 6 anos da minha vida praticamente sem consumir álcool. Talvez ele não entendesse a dimensão do momento emocional que eu vivenciava. Outro amigo, que também viajava, se limitou a dizer para a garota da guitarra que ela havia me emocionado. Achei desnecessário, mas entendo as razões dele.
Eu ofereci um abraço à garota, disse que aquela música era muito especial para mim, escutei sem parar centenas de vezes quando meu pai tinha falecido, e que naquele dia se comemorava o dia dos pais no Brasil. Me emocionei muito com aquele momento, foi muito especial. Ela me disse que escutou aquela música muitas vezes quando um amigo (ou amiga, não me lembro bem) faleceu também. Era uma canção importante, que a fazia lembrar de pessoas queridas, que já se foram e/ou ainda estão entre nós. Ela também se emocionou naquele momento.
Acho que poucas pessoas compreendem os sentimentos e as emoções que cada um está passando. Cada indivíduo vivencia as coisas de maneira única. Eu tenho várias feridas abertas, e o falecimento do meu pai, mesmo depois de tantos anos, ainda é uma delas. Talvez as pessoas não entendam a dimensão de tudo que vivemos internamente. E às vezes eu acho que muitas pessoas não fazem questão de nos entender. Simplesmente supõem algo, e bola pra frente…
Esse ano eu mal me lembrei que hoje era dia dos pais, fico aqui pensando se essa data perdeu a importância para mim. Me dá uma certa tristeza pensar isso.
Penso que na maior parte da relação entre homens cis falar sobre sentimentos, elaborar o que estamos sentindo, é algo quase inexistente. Acho pouco o espaço para conseguirmos nos expor, nos abrir, falar sem ser julgado, escutar sem julgar. O caminho mais fácil é a piada, a ironia, é minimizar os sentimentos, é o gole de algo alcoólico. É mascarar as emoções com uma risada forçada, com o esquecimento, com a violência ou com a fuga do cérebro para outros planos.
Quem dera tivéssemos as oportunidades de conseguir falar, e ter a chance de soar contraditório, ou confuso, e ter aquele gostinho gostoso de se equivocar quando conseguimos escutar o que sai de nossas bocas. Coisas que talvez realmente não tenham tanta relevância, ou sejam tão grandes a ponto de podermos entender as emoções e os sentimentos a partir de outros caminhos.
Queria ter tido maturidade o suficiente para entender que meu pai era só mais um homem que não lidava bem com as palavras e com os sentimentos, e talvez ter sido eu a pessoa que tentaria elaborar com ele sobre os nossos conflitos.
Gostaria de conseguir ser mais humano e assumir minhas próprias incoerências, sem medo, sem receios. Sem julgamentos.












