Expresso Gospel
Era carnaval, ruas cheias de gente. Pessoas fantasiadas, semi nuas, vestidas de glitter e multicolores. Som alto de caixas de som tocando pagode, sertanejo, axé e funk competiam espaço com as baterias dos blocos, tudo sempre com muitas pessoas e ritmos. Fazia muito calor, sol a pino, temperatura máxima. Zero nuvens no céu. Ambulantes carregavam suas caixas isopores com guarda sol pra cima e para baixo acompanhando as multidões. Fumaças saíam dos pulmões e subiam se esmaecendo no ar. Muitas pessoas felizes e alegres, outras tristes e pensativas. Na rua havia de tudo. Estava em um bairro boêmio, antigo, reduto de bares e movimento cultural intenso. O carnaval era grande, mas não tão grande quanto era na região central. Aqui se via de tudo. Corpos suados se pegando, bocas se beijando e olhares flertantes acompanhavam os cortejos.
E eu apenas observava o movimento. Gosto de ver as pessoas felizes, mas não dou conta de multidões torrando embaixo do sol.
Nesse dia especificamente, quis sair de casa e ver um filme no cinema. Aproveitar o horário que a música no bairro é mais alta e estar em lugar com isolamento acústico. Saí de casa e cruzei um dos blocos para chegar no ponto de ônibus. No ponto havia apenas uma senhora bem idosa. Começamos a conversar, perguntei se ela tinha notícias do ônibus e ela disse que não sabia se ele já tinha passado, que ela apenas se sentou ali pra descansar um pouco no único lugar da rua em que havia sombras, fruto de uma política de corte irrestrito de árvores que existe na cidade. Ficamos ali um tempo batendo papo, até que chegou um cara com uma câmera na mão e um drink na outra perguntando se havia ônibus ali que parava no centro. Ele veio fotografar as pessoas num dos blocos que tinha desfilado pela manhã.
Ele e a senhora ficaram batendo papo enquanto eu vigiava o aplicativo do ônibus pra saber se iria passar ou não, e qual o trajeto do veículo, já que várias ruas da cidade estavam fechadas. A senhora, agora descansada, se levantou e seguiu sua caminhada pela rua. O fotógrafo e eu ficamos batendo papo sobre o trajeto do ônibus. Eu o avisei que o ônibus passaria em breve, e ficamos de pé para fazer sinal assim que aparecesse.
Entramos no veículo e a motorista, muito gentil, liberou a catraca, afinal, domingo é dia de catraca livre na cidade. Sentei logo após o espaço reservado para cadeirantes, e o fotógrafo sentou do outro lado do corredor. O ônibus estava com o ar condicionado ligado ao máximo, talvez, até em um nível de usar agasalhos, mas o que nos chamou atenção foi a antítese da bolha que estávamos vivenciando. A motorista tinha uma caixinha de som portátil, com o som ligado no volume máximo. No setlist um grande combinado internacional de canções gospel. Começamos a conversar sobre essa mudança brusca, estávamos em uma cápsula que difere de tudo que havia nas ruas. Lá fora havia calor, músicas dançantes e corpos semi nus. Lá dentro um frio congelante, música gospel, nós dois e mais um jovem sentado um pouco mais atrás.
Esse jovem, começou a puxar conversa com o fotógrafo, perguntou se ele tira fotos das pessoas ou dos blocos. O fotógrafo disse que registrava as pessoas. O jovem perguntou se as pessoas faziam pose ou se ele fotografava desprevenido. O fotógrafo respondeu que fotografava pessoas vivendo, se divertindo, em momentos naturais da vida, sem poses. Disse que às vezes alguém achava ruim, mas que ele nunca foi agredido por conta disso. O jovem perguntou se ele poderia ser fotografado e o fotógrafo disse que sim. Neste mesmo instante, a motorista avisa o jovem que ele deveria descer ali naquele lugar, pois ele queria ir para a região dos hospitais. O jovem disse que não iria mais pra lá, mas que agora iria para o centro resolver umas coisas. O jovem desceu no ponto seguinte. Um lugar ermo, todo fechado com tapumes para separar os foliões do fluxo de automóveis na avenida. Não havia nada naquele lugar. O fotógrafo posicionou sua câmera na janela e clicou algumas fotos do jovem fazendo pose na calçada. E por mais que o fotógrafo dissesse para ele caminhar naturalmente, o jovem seguiu com a pose até que o veículo arrancasse novamente. Acho que o isolamento acústico do ônibus estava efetivo demais para aquele momento.
Começamos a rir da situação, e o fotógrafo ironizava que o jovem desistiu de ir pro hospital só para ser fotografado. E eu completei questionando que tipo de coisa ele tinha pra resolver no centro da cidade todo fechado em pleno domingo de carnaval.
Seguimos conversando, ele me perguntou se eu sabia onde haviam paradas de ônibus e eu disse que estava tudo meio embolado. Até que a motorista gritou lá da frente que ela iria abrir a porta onde quiséssemos, que não haviam paradas muito bem definidas.
O fotógrafo disse que ainda tomaria outro ônibus para o bairro onde residia, coincidentemente o mesmo bairro onde passei minha infância. Conversamos sobre bares, comércios e o trânsito que só piora. Falei com ele de um bar que é o único caso que conheço que se expandiu e tomou lugar de uma igreja protestante. Uma vitória da resistência, ainda que por razões egoístas e privadas.
Ele avisou que iria descer, a motorista encostou o veículo e abriu as portas. Nos despedimos com um aperto de mão enquanto o fotógrafo me dizia: “obrigado por estar comigo no expresso gospel.”
E desceu.













