Paz para los niños

Em 2012 eu fiz 3 murais enquanto estava de passagem por Ciudad Juárez, Chiuhuahua, México. O primeiro foi em uma “competição” com o tema da cidade, onde eu participei para dar visibilidade a um projeto social que um amigo, Oscar Israel, participava. Ali conheci várias outras pessoas, e consegui um terceiro lugar, que me animou muito, pois meu prêmio, em teoria seria uma viagem à Grécia para estudar graffiti. Infelizmente não pude receber o devido prêmio. Logo após, pintei mais dois murais com esse projeto, chamado Jóvenes en Acción, ambos em Centros Culturais na periferia da cidade.

Olha a cara de sol do sujeito, rs

Vale lembrar que Cd. Juárez possui uma história marcada pela violência militar, pela violência do narcotráfico, pelo feminicídio, pela violência de gênero, pela exploração do trabalho e vários outros problemas sociais e econômicos. Em 2012 houve um período relativamente pacífico para a cidade, com a reabertura de vários bares, a retomada da vida social, mas as pessoas ainda tinham medo de ir para as ruas, tinham muitas histórias de abusos e casos de violências, e muitos imigrantes chegavam para tentar passar para o outro lado da fronteira, onde se encontrava os Estados Unidos. Era uma cidade muito diferente de tudo que eu podia imaginar.

Oscar e eu descansando na sombra.

Os dois murais que pintei depois da competição foram em um local conhecido pela extrema pobreza, falta de recursos urbanos básicos, forte influência dos narcos. Conhecido como Kilómetro 27 (eu acho que era isso, a memória anda falhando), era um bairro periférico completamente afastado da cidade, ruas de areia por causa do deserto, construções beeem simples, seguindo o curso da autopista que passava pelo local. Existem poucas fotos destes dias, pois câmeras digitais não eram tão comuns na época, e nem nuvem virtual, muita coisa se perdeu nos arquivos da matrix.

Nesta foto de 2018 vê-se que o graffiti ainda está lá.

O que rola é que essas experiências em um local como esse não poderia ter uma temática diferente. Crescer em um ambiente de violência é ruim e cruel com todos os atores familiares. Crescer sem perspectiva, compreendendo que a única realidade é aquela, não deveria nem ser uma possibilidade. Hoje me lembrei desses dias de sol e areia, nesse deserto imenso e ambíguo que é Cd. Juárez. Mas não ache que aqui no Brasil seja diferente, pois não é.

Mural finalizado

Em Juárez era bem difícil pintar. O spray era tipo um X-Row (dazantigas), com uma consistência estranha, com a válvula muito dura e o vento do deserto impossibilitava muito fazer os esfumaçados. Era sempre um desafio. Mas vale a pena tentar, sempre. E o principal é a mensagem que fica: PAZ PARA AS CRIANÇAS. PAZ!

Sobre literatura

Se tem um lugar onde consigo fugir dessa bad que é o isolamento social em meio à pandemia, é a literatura. Ali consigo fugir dessa depressão que é “ser artista” e não conseguir manter a renda proveniente disso. Na literatura eu viajo longe, conhecendo e refletindo sobre assuntos cujo incômodo me fazem crescer.

Aqui irei falar um pouco sobre os 4 livros que já lemos e discutimos coletivamente no Clube do Livro, e de algumas leituras que fiz por interesse próprio durante esse período nebuloso.

Obras do Clube do Livro:

A Jangada – Júlio Verne: Essa é uma história estranha, escrita em fascículos para algum jornal francês, em que o autor se baseou em relatos de viajantes e pesquisadores sobre a Amazônia para criar um livro fantástico sobre uma viagem de jangada pelo Rio Amazonas. O livro possui uma narrativa meio bizarra, que parece ficar enchendo linguiça para seu desfecho e com motivações machistas, sexistas, patriarcais e de classe, ignorando conflitos sociais e ambientais e fazendo parecer que tudo é uma maravilha. Posso ser anacrônico ao afirmar essas coisas, mas é um livro que deixou muito a desejar.

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher – Svetlana Aleksiévitch: Um conjunto de entrevistas e relatos sobre a participação das mulheres soviéticas durante a segunda guerra mundial. Um livro incrível, onde compreende-se muito do que eram os bastidores da segunda grande guerra do século passado. Quais eram os papéis das mulheres, o que elas passaram, o que fizeram, narrativas que trazem os sentimentos e as emoções, para além do que a história consegue contar.

Léxico Familiar – Natália Ginzburg: Um livro interessante, por vezes massante, onde a autora narra a história de sua família na Itália, sempre em primeira pessoa, como se ela estivesse em uma mesa de bar contando das coisas para você. Apesar da história ser interessante, parece que falta mais detalhes sobre como o fascismo italiano passou por eles, pois acho que faltou uma narrativa das emoções e conflitos que têm a ver com a história, de como atinge a família, etc. Realmente parece um relato de bar, onde a pessoa não te permite interromper para comentar algo. É uma obra razoável, mas não leria de novo.

Kindred, laços de sangue – Octavia Butler: Uma ficção científica fenomenal, onde a sensação de angústia fica aparente, e você não consegue parar de ler porque quer saber o que irá suceder em cada parte do livro. Vale muito a pena a leitura, traz várias discussões importantíssimas sobre anacronismo, movimento negro, escravidão, privilégio branco, educação, relações familiares.

Obras que li por conta própria:

O Livro dos Abraços – Eduardo Galeano: Como sempre, uma obra interessantíssimas com relatos de situações curiosas, de esperanças, de relações, que trazem um pouco de bons sentimentos, sobretudo nessa época. São pequenos trechos de narrativas sobre situações históricas/cotidianas, que nos fazem refletir sobra nossas ações.

As Últimas Testemunhas – Svetlana Aleksiévitch: Seguindo a mesma linha do livro da autora citado acima, eu o li logo após acabar com o outro. Desta vez, são relatos de adultos, que na época da segunda guerra ainda eram crianças, e a forma como eles compreendiam as situações. O que eles lembram dos adultos falando, qual o significado da guerra, o que acontecia, qual compreensão eles tinham das coisas, o que se passava na cabeça deles. São relatos incríveis e que vale a pena cada linha de texto.

Os Despossuídos – Úrsula Le Guin: Talvez o melhor livro que li até agora. É uma narrativa de um cientista de Anarres que voa de volta para Urrás, e a todo tempo nos são apresentados as ideias de novos mundos, seja baseado no anarquismo, socialismo, capitalismo, como é/como pode ser a vida, coletividade/individualidade, e essa ambiguidade e antagonismo de ideias. Apesar de possuir uma leitura muuuuuito densa, por vezes cansativa, não consegui parar de ler. O livro me prendeu a ponto deu ficar viajando no que eu poderia fazer com essas ideias que o livro me deu. Vida longa a Anarres!

Capitães da Areia – Jorge Amado: Foi o primeiro livro que li nesse período de quarentena. Uma obra interessantíssima, que me questionou o porque da leitura tão tardia deste livro. Talvez a viagem que eu fiz pra Salvador no final do ano passado tenha me ajudado muito com o imaginário da narrativa, e eu fiquei muito empolgado a cada página. Compreender sobre vários tipos de relações pessoais, profissionais, bicos, locais de moradia, preconceitos, lutas/movimentos sociais, resistências… são muitos os tópicos que podem ser debatidos com essa leitura. Recomendo muito.

Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola – Maya Angelou: Um relato autobiográfico com uma intensidade absurda de detalhes. Tudo que Maya passou com sua família, suas relações pessoais, abusos, mudanças, modos de vida. Também um dos melhores livros que li nesta época.

A Noite dos Mortos Vivos/A Volta dos Mortos Vivos – John Russo: Livros com os roteiros originais dos filmes, adaptados para a literatura. A principal diferença para os filmes do George Romero, é que nos livros são narradas as sensações e sentimentos dos personagens, trazendo uma agonia, uma angústia, um desespero que não se consegue perceber nos filmes. É uma ótima leitura também.

Se Você Gostou da Escola, Vai Adorar Trabalhar – Irvine Welsh: Esta obra, que eu ainda não terminei de ler, traz alguns pequenos contos que beiram o bizarro, que narra situações e pequenas histórias com pessoas de personalidades nada comuns. Estou na última e mais longa narrativa, mas é um livro ok, se você curte bizarrices ao estilo Bukowski, Welsh e Palahniuk, cê vai curtir.

Eu aluno e eu professor.

Nesses tempos de estudo sobre o que é uma educação, o papel da escola e o papel do professor, fiquei tentando trazer um pouco sobre o tipo de aluno que eu fui, tanto no ensino básico como no ensino superior. Foram vários momentos estranhos e ser professor/educador/mediador nunca esteve nos meus planos. Onde foi essa reviravolta?

Durante a minha juventude, fui um aluno que foi do 8 ao 80 em 8 anos. Até a 5ª série eu fui um ótimo aluno. Estudava em casa, fazia os deveres, tirava notas boas e até me lembro de ter ganhado uma medalha de “Melhor Aluno em Geografia” na EM Arthur Versiani Veloso. Me lembro também de ter que ler minha redação para toda turma na 4ª série da EM Dom Jaime de Barros Câmara. Na 6ª e 7ª séries eu já não me interessava muito pelos estudos, comecei a “matar” muitas aulas e a jogar truco com meus colegas, e minhas notas caíram drasticamente. Na 8ª série eu nem consigo lembrar muito bem o que eu fazia na escola. No ensino médio, estudei o 1º e o 2º ano no Colégio Municipal Marconi, que era uma referência em bons colégios em Belo Horizonte. Na época eu já era punk e foi um local onde fiz poucos amigos. Me lembro que no turno noturno haviam apenas 3 horários, não havia educação física, nem artes, e era um colégio legal, em que os professores tinham suas próprias salas, equipadas com laboratórios, e os alunos é que mudavam de sala a cada sinal. Eu estudava no turno noturno, junto com pessoas um pouco mais velhas, e eu dividia o meu tempo diário pegando alguns bicos de trabalho, tempo na rua com alguns amigos e nada de estudos. Todo esse período de educação durou uns 10 anos, e eu só cheguei ao final do ensino médio porque no ensino municipal funcionava um sistema chamado Escola Plural, em que não havia repetência por nota, apenas por faltas. Portanto, bastava apenas frequentar as aulas (ou responder chamada e ir embora) que a situação estava completamente tranquila.

No 3º ano eu fui para rede privada, pois o vestibular se aproximava e assim eu teria mais chances de ingressar em uma universidade. Entrei em um local estranho, onde custei a me adaptar (e até hoje tenho minhas dúvidas sobre isso), não conseguia acompanhar meus colegas de sala, e eu lembro de ver minha redação exposta no projetor como “pior redação da sala/como não fazer”. Foi um local onde fiz pouquíssimos amigos e minha interação era com uma amiga que eu tinha feito nos rolés há mais tempo e que estudava no 2º ano, e com alguns amigos que faziam Cursinho no mesmo horário. A interação que eu tinha era basicamente isso. Consegui ficar de recuperação em todos os bimestres, em diversas matérias e até hoje eu não entendi o milagre deu conseguir me formar. Com certeza “fui passado” por professores que eu imagino que tenham entendido a minha situação, mas não tenho certeza.

Depois de me formar, logo consegui emprego de carteira assinada e passei, pelo menos, 2 anos nessa rotina de passar o dia trabalhando em “empregos de merda” e estudando cursinho a noite. Tentei vestibular para Comunicação Social, Educação Física (2x), Design Gráfico, Geografia (3x) e depois de 4 anos formado eu entrei no curso de Geografia em uma faculdade privada. Durou apenas um semestre. Não achei justo pagar para estudar e o curso me pareceu um pouco burocrático também. Nesse tempo eu comecei a pintar camisas com stencil, e algumas pessoas me incentivaram a fazer um curso de artes. Foi quando eu peguei algumas aulas de desenho com alguns amigos e, estudando por conta própria, consegui passar no vestibular da UEMG, em 2011. Fui estudar Artes Plásticas.

Nesse tempo, entre o final de 2005 e o início de 2011 muita coisa mudou na minha vida. Eu andava já bem desanimado com o punk e com as ideias, comecei a caminhar por um trajeto meio estranho, mas tive meu primeiro contato com as ideias zapatistas e com o EZLN, e acho que esse foi meu ponto chave. Passei a ler muita coisa e a buscar informações sobre o movimento. Descobri uma literatura toda voltada para isso, aprendi o prazer da leitura e isso me ajudou muito a chegar em algum lugar, a tomar decisões, e a começar a traçar algum rumo. Em 2008, quando comecei a namorar com a Natália, nossos interesses eram comuns, e juntos compartilhávamos ideias, livros, filmes, música, e nesse período tive um crescimento pessoal enorme. Finalmente conseguia participar de alguma discussão, ser coerente com as ideias, ou ser incoerente e tentar reconstruí-la. Em 2012, quando fomos de intercâmbio para o México, minha mente se expandiu muito mais. Viver 4 meses em uma cidade marcada pela violência e pela corrupção, e ter contato direto com pessoas que resistem diariamente nesse contexto produzindo arte, música, política, ideias, me exerceram muita influência e eu consegui voltar para o Brasil com as ideias renovadas. Chegamos em BH, produzimos muitas coisas contra a Copa do Mundo e os Despejos, tivemos contato com o COPAC, fizemos vídeos para mandar para o exterior, praticamos muitas técnicas e ideias. Foi um momento de alta produtividade.

Em 2013, de transferência para a UFMG, tive contato com a educação, e minhas primeiras experiências em gravura depois das que tive no México. Já possuía bastante noção, mas na Casa da Gravura foi onde consegui compreender a interdisciplinaridade que está contida em cada tarefa que praticamos. Aprendi muito sobre química, física, biologia, matemática, educação física somente produzindo gravuras. Nas artes, aprendi um pouco sobre filosofia, sociologia, estética, história, geografia… Foi na prática dos afazeres que comecei a me interessar por estudar diferentes áreas, pois conseguia relacionar várias áreas de conhecimento em apenas uma tarefa.

Pouco tempo depois comecei a treinar rugby. Não comecei a me exercitar do zero, pois já pedalava e fui para o rugby porque a Natália se interessou primeiro. No início eu ficava muito perdido, mas passei a estudar os documentos oficiais da World Rugby e os estudos sobre as funções dos atletas. Boom. Descobri um novo mundo. Estudando rugby eu aprendi sobre alimentação, anatomia, respiração, potência (vários tópicos da educação física) e sobre física. A física está muito presente no rugby. Desde a forma como você passa ou chuta a bola, a forma como corre e a forma como deve ser um contato entre adversários. Me interessei pelas regras do jogo e acabei me tornando árbitro pela Federação Mineira. É impressionante como todas as áreas de conhecimento se conectam em nossos afazeres diários. Passei a contrair o abdômen nas tarefas mais comuns, como lavar louça, e isso me ajudou a ter mais equilíbrio para pedalar, e mais força para estabilizar exercícios isométricos. Contrair o abdômen e compreender os movimentos musculares e de respiração me fizeram produzir litografias com muito menos cansaço e muito mais precisão ao trabalhar na prensa.

Foi com essas informações que passei 2 anos sendo monitor no Atelier de Gravura da Escola de Belas Artes e foi nesse tempo em que comecei a me interessar pela docência. Foi um feedback muito positivo por parte dos alunos que estudaram a disciplina nos meus tempos de monitor que me incentivaram a seguir por esta área. E eu gosto disso. Ser professor/educador na educação formal e não formal, ser professor/treinador de rugby. Essas funções me trazem um certo prazer, pois assim compartilho meu conhecimento com todos que se interessam por isso.

Hoje compreendo que isso só foi possível quando percebi que o conhecimento não é algo rígido, que serve apenas para uma coisa. Meus tempos na escola foram péssimos, e eu achava um local muito careta. E, de fato, falta muito para a escola ser um lugar agradável para os alunos e para o corpo docente. Viver uma cobrança por uma produtividade que não faz sentido. Fragmentar todas as etapas do saber e colocar em caixas separadas só faz crer que o tipo de ensino que temos hoje não vale a pena. O sistema de ensino parece se ligar em políticas de governo, e ignorar os atores que estão presentes no cotidiano das escolas. Hoje eu sou professor, mas tenho pavor de escola. Ontem eu fui um aluno, sem entender a função da escola.

Há um grande vão de experiências que me fizeram compreender a importância dos estudos e do compartilhamento de ideias e de práticas. Ás vezes eu acho que eu entendi isso tarde demais, que eu poderia ter aproveitado muito melhor se eu tivesse descoberto isso antes. Mas acho que cada um tem seu tempo, suas experiências. Em algum momento as coisas passam a fazer sentido, resta a nós seguir estudando nesta grande experiência chamada vida.

Diálogos com La Idea: CRIATIVIDADE!

Já deu uma olhada no que a Prisca faz para se manter criativa? Acesse o blog dela e veja com os próprios olhos!!!

Processo de criação de estampa geométrica

Eu e minha companheira, Natália, estávamos com a ideia de fazer umas peças de Jogo Americano aliando os estudos dela de costura com meus estudos de arte/serigrafia. Já tem alguns meses que começamos a planejar, e o projeto foi caminhando bem lentamente. Para começar o projeto, criamos modelos de corte e costura de jogo americano, pesquisamos um bom tecido para essa finalidade e compramos para deixar tudo pronto.

Nosso segundo passo foi trabalhar na arte da estampa. Como queríamos algo feito de forma bem artesanal, optamos por utilizar arte geométrica, desenhada com régua para criar o estilo. Busquei referências nas padronagens, principalmente de, Kayapó-Xikrin e Asurini para criar a estampa do Jogo americano. As referências que eu utilizei estão presente no livro “Grafismo Indígena”, organizado por Lux Vidal.

Depois de pesquisada as referências, chega o momento de criação. Queríamos um desenho geométrico, que ocupasse toda a borda do Jogo que se fosse uma faixa contínua. Optamos pelas linhas paralelas em diagonais, alterando a espessura da linha, e separadas por triângulos chapados. Uma alusão ao cesto Pacará, com as tramas bem demarcadas. Todo o desenho foi feito apenas utilizando lápis e régua, sem nenhum tipo de processo digital.

Depois de ter o esboço pronto foi o momento de criar o laser film para poder gravar a tela de serigrafia. Foram utilizados 2 papéis vegetais tamanho A3 colados juntos, para conseguir obter um desenho grande. Todas as linhas foram feitas com canetas POSCA (1M, 3M e 5M), pois é um dos poucos materiais onde você consegue um preto opaco em papel vegetal. Infelizmente o vegetal, por ser muito fino, costuma enrugar um pouco devido à carga de tinta da caneta POSCA.

Depois de gravada a tela é hora de decidir as cores que iremos utilizar. Os panos que compramos são vermelho e azul marinho, e a ideia era usar a mesma cor para estampar nos dois. Decidimos pelo dourado pois chamaria atenção em ambas cores, ficaria bem legal e ainda daria um ar mais elegante pro objeto. Utilizei tinta Gênesis Hydrocril e uma tela 44 fios, um rodo amarelo e o mesmo berço de camisas com cola permanente para fazer as estampas. Ainda não fechamos a costura para dar o acabamento, mas fiquei tão empolgado com o resultado desta etapa que decidi escrever esse post antes mesmo de finalizar.

Em breve coloco aqui o resultado da costura com o acabamento todo certinho e se tudo der certo, estará disponível para venda na Loja Virtual. Grande abraço e espero que tenham gostado.

Mais Participação, Menos Expectativa

Em 2002 a banda Discarga lançava a música “Contracultura”, e em seu refrão esse grito ecoava em minha cabeça. O movimento punk/anarquista/contracultural possui a coletividade em sua raíz. Toda ação é construída pelos próprios sujeitos, e a junção de teoria e prática se torna uma ferramenta possível. O diálogo construído de forma coletiva produz mudanças positivas para a sociedade. É necessário, então, descruzar os braços e parar de esperar que as coisas aconteçam de cima para baixo. Devemos nos organizar e planejar/praticar ações que servem de faísca para novas ideias. No punk/anarquismo eu sempre escutei o lema “Faça você mesmo/Do It Yourself”, e talvez isso seja uma crítica e uma auto crítica à nossa inércia.

Digo isso até sobre a minha atuação também. Tenho o desejo de fortalecer os coletivos e retomar esse espaço de estudo, agitação e propaganda, fortalecer as redes de apoio e de diálogo que construímos/construir novas.

Eu acredito na influência que as ideias punk/anarquistas exercem na sociedade, e essa estampa diz muito sobre isso.

Sobre as referências que utilizei nesta colagem, são basicamente ideias de tudo que me fez sair do lugar. Essas referências me dão ideias para produzir, para viver. Aí vai uma lista das imagens que utilizei nesta colagem:
– Emma Goldman;
– Piotr Kropotkin;
– Buenaventura Durruti;
– punks ingleses sentados em um banco;
– punk com cara tapada e moicano de pé;
– foto de faixa “No Pasarán” durante a Guerra Civil Espanhola;
– Combatente da FAI (Federação Anarquista Ibérica);
– Ian Mackaye da banda Minor Threat;
– Isabella da banda Dominatrix;
– Rebeca da banda Anti-Corpos;
– Manifestante do Maio 68 em paris;
– Reunião de greve;
– Stage Dive/Mosh, capa do disco do GBH;
– “Mais participação, menos expectativa”letra da banda Discarga.

“Essa é a nossa contra cultura
Mais participação, menos expectativa
Centenas de pessoas envolvidas
Meia dúzia de sempre que organiza
É mais fácil do que pensam
Faça você mesmo
Não seja um mero expectator
Faça você mesmo
Não seja um mero expectator
Atue e conteste”

Discarga – Contracultura

Referências para criar

Uma das coisas mais difíceis na hora de produzir é saber exatamente o que fazer. Vou tentar elencar algumas coisas que me ajudam a movimentar as ideias para tentar chegar a algum lugar. Nesse post tento dialogar, novamente, com Priscapaes que é uma artista que tem me dado alguma luz nesse túnel que é o processo de produção.

1 – Tenha um caderninho de rascunhos, sketchbook, ou o celular sempre disponível. Eu costumo ter ótimas ideias enquanto pedalo, e antes eu sempre perdia essas ideias por esperar o momento certo para anotar. Eu comecei a usar o recurso “Mensagens Salvas” do Telegram para me lembrar dessas ideias. O celular está sempre próximo enquanto pedalo, e acho que não custa nada anotar ou gravar essas ideias para não se perder. Quando preciso esboçar alguma coisa, sempre busco na nuvem do Telegram essas ideias que eu guardei.

2 – Prestenção nas músicas que você escuta e nos livros que você lê. A partir dessas duas dificílimas tarefas é de onde vem várias de minhas ideias. Sou muito influenciado pelas bandas que escuto. Punk, Hardcore, Rap, Cumbia, sempre tem alguma ideia nas letras que te faz querer produzir sobre. Com as leituras acontece o mesmo. Livros são ótimas referências de ideias. Uma boa literatura de ficção, sociedade, contos, registros, tudo isso eu trago para o que eu faço.

3 – E sua rotina, onde entra nisso? Em tudo. Muito do meu trabalho dialoga com os meus afazeres diários. Pedalar, ouvir música, ler, brincar com o cachorro, lavar vasilhas, assistir/jogar rugby. Tudo tem a ver, e por mais que você não perceba, isso aparece nos seus esboços de forma frequente.

4 – Uma das ferramentas mais interessantes para começar a produzir é o diálogo. Diálogo com outros artistas, com sua mãe, seu pai, seu cachorro, com o vizinho, com alguém que você não conhece. Diálogo com o que você lê, com o que você escuta, com o que você vive e com o que sente. Quando você fala sobre seu trabalho, ou sobre o que pretende trabalhar, e escuta sobre o que outras pessoas fazem, produzem, trabalham, pensam, sua mente vai a milhão, fervilhando ideias que dialogam com essas interações. Nunca subestime o poder do diálogo.

5 – Recentemente, em uma oficina de Zines com a Papelícula, descobri sobre a escrita de fluxo. É algo que a gente faz para começar a movimentar as ideias. Consiste em escrever o que está pensando naquele exato momento, ainda que seja para narrar as tarefas do dia, descrever algo para o qual estamos olhando, qualquer coisa. Apenas escreva o que vier na cabeça, sem planejar muito, sem se importar com ortografia. Esse texto pode chegar a lugar algum, mas vai colocar a cabeça para trabalhar um pouco e isso pode ser a faísca que faltava para começar a criar.

6 – Busque referências sempre. Claro que nem tudo vai servir de boa referência, mas é importante entender as soluções estéticas e técnicas que outras pessoas utilizaram para produzir alguma coisa. Isso já dá uma ideia do resultado que você almeja e vai te incentivar a buscar esse conhecimento de produção. O Pinterest é uma fonte interessante, onde você pode guardar no seu banco de imagens as referências que te interessam, mas tem muita porcaria lá também, inclusive muita propaganda, tome cuidado com isso. Mas guardar imagens que sirvam de referências é uma ideia interessante, e você pode, muito bem, fazer isso fora do Pinterest ou da internet. Você encontra muitas referências visuais no ambiente urbano, nos livros, na imaginação, nos encartes de discos. Entenda como discernir as boas referências.

7 – Registre o processo de produção sempre. Quando você ver que as coisas começam a fluir, escreve sobre isso, anote, deixe registrado. Isso pode te ajudar a desembolar alguma outra ideia, é sério. O que você tentou fazer para uma determinada imagem não deu certo, mas pode dar muuito certo em outra imagem, em outra ideia. É sempre bom revisitar esses registros de processos e eu, pelo menos, considero uma parte importante da produção.

Eu escrevo aqui essas coisas até para me ajudar a me lembrar de todas essas táticas para conseguir sair do lugar. Produzir não é fácil, eu acho bem difícil, mas essas coisas ajudam a sair um pouco do lugar da inércia.

Mais estudos com cromia

Disponibilizei para venda mais um policromia que eu fiz. Desta vez, optei por pontos em formato elíptico que, em teoria, me daria uma riqueza maior de detalhes. Como a foto de referência foi diferente eu perdi a oportunidade de comparação entre as duas possibilidades. Mas o resultado me agradou muito. Para as próximas, talvez eu tente diminuir um pouco os pontos para ter ainda mais detalhes, vamos ver.

A policromia está disponível para venda clicando aqui.

Sobre ter uma péssima sensação

Não sei se isso é uma coisa comum de acontecer ou se já aconteceu com algum de vocês. Às vezes me dá um pouco de frustração quanto à minha produção artística. Eu sei que acabo agradando um nicho muito específico com o tipo de coisas que faço, e eu fico feliz quando rola um certo reconhecimento pelo meu trabalho. E eu realmente curto quando as pessoas valorizam todas as etapas do processo, não apenas o resultado. Mas me magoa um pouco quando eu começo a compreender que de nada vale o processo.

Falo de valores monetários mesmo, pois tem muita coisa que produzo e que possui uma ótima receptividade por parte do público que eu alcanço, mas não vende, fica empacado aqui no meu estoque e isso me impede, até, de ter verba para produzir materiais novos. Antes eu pensava que isso acontecia porque os produtos tinham um valor de venda alto e inacessível, mas essa teoria foi por água abaixo quando eu entendi que o preço do produto não importa muito tendo em vista o quanto as pessoas gastam com outras coisas similares e não essenciais.

Repare que não estou aqui reclamando o fato de que eu não consigo vender muitas coisas, mas do fato de que as pessoas não creditam o devido valor em um produto. Como assim? Outro dia estava percebendo que algumas pessoas que vendem produtos similares aos meus, e mais caros, conseguem rapidamente comercializar esse estoque, e esse tipo de coisa me faz pensar algumas razões para tal.

Um exemplo muito claro é um designer que cria uma estampa de camisas, por exemplo, e contrata uma empresa especializada para realizar essa produção. O designer pode fazer qualquer coisa que a empresa vai se virar com seu equipamento e seus funcionários para conseguir produzir. Para a empresa é de boa conseguir vender esse trabalho por um preço baixo, pois paga o mesmo valor para o funcionário fazer 50 ou 50.000 camisas em um período de um mês. Acho que isso se encaixa no conceito de mais valia. O designer não terá trabalho algum de produzir essas camisas. Ele cria a estampa virtualmente e depois se dá ao trabalho de anunciar. Ele sabe que terá um trabalho de qualidade, e garantia de que todas as unidades impressas seguirão um rigoroso padrão de produção.

Muito diferente, por exemplo, são os produtos que eu faço. Além da parte virtual e da venda/envio, eu também preciso imprimir as lâminas, gravar telas, comprar camisas, preparar as tintas e fazer a impressão de cada uma das camisas. Eu preciso lidar com a perda de material, com as camisas que dão errado e preciso adaptar tudo o que produzo à estrutura que eu tenho disponível. Eu sei que uma arte com detalhes muito finos e com mais de três cores eu não dou conta de fazer, além de entender que quanto mais cores, maior é a chance de alguma coisa não encaixar bem. Eu preciso dispor de alguns dias, quiçá uma semana completa para conseguir produzir os produtos que eu planejei.

Após tudo isso, preciso colocar um valor de venda que seja acessível, que cubra o custo de produção e ainda me dê algum lucro para além de pagar as contas básicas (água, luz, internet, telefone, MEI).

Acho que a sensação mais frustrante que existe, que é ruim, que é péssima, é saber de alguém que comparou o seu trabalho com o de um designer como descrito acima, criticando a qualidade da estampa, o fato dela não ser tão complexa e chamativa, o preço dela, e a pessoa preferir pagar mais caro em uma coisa de “melhor qualidade”. Isso é muito ruim, e acho que a minha ideia de colocar os vídeos dos processos de produção disponíveis online tem muito a ver com isso, de mostrar que tudo é complicado, dispendioso, difícil e que gasta muuuito tempo e material para poder fazer.

Eu não abro mão de participar de todas as etapas do processo de produção das coisas que eu faço. Eu produzo com a estrutura que eu tenho disponível, e que desde 2011 eu tento investir para melhorar. Eu não sou rico, minha produção não é lucrativa e eu sobrevivo, principalmente, prestando serviços para outros artistas e dando aulas e oficinas. Estou longe de conseguir um público que sustente a minha produção, e as coisas pioram quando acontecem situações deste tipo, de completa desvalorização pelo processo de produção.

Minha coluna reclama muito o custo que tem produzir tudo de forma manual e artesanal e, ainda assim, não ter uma recompensa monetária que valha a pena. E disso temos que ficar naquela questão que me dói muito: manter um preço justo e um produto empacado ou baratear o produto e não dar conta de arcar com os gastos de produção e de sobrevivência?

Aula de registro de impressão – parte 1

Já está disponível no meu canal do YouTube a terceira aula online e gratuita desta série que estou gravando durante o isolamento social.

Trata-se da primeira de três técnicas de registro de impressão que irei ensinar. Essa é a mais simples delas. O registro é fundamental para que sua tiragem seja regular, e também para facilitar o encaixe de outras camadas, se houver.

As aulas são gratuitas e estarão sempre disponíveis, mas se você quiser e puder há um sistema de doação voluntária e de qualquer valor para auxiliar na manutenção das oficinas.

Espero que gostem, e se houver qualquer dúvida não deixem de entrar em contato.

Saludos.

Sobre a população originária e o coronavírus

Já tem um tempo que estou fazendo um sketchbook para treinar técnicas de pintura com aquarela. Tenho pegado muitas dicas com amigos que produzem, e tenho treinado bastante também. Eu utilizo muitas referências visuais para observar detalhes, e fotos de indígenas são referências que eu gosto muito. Pelo tom de pele, pelo cenário, pela luta e pela história, marcada por opressões, glórias, oralismo, políticas, naturalismo e misticismo. Muito aprendemos com eles, mesmo que distantes.

Já tem um tempo que estava lendo sobre a situação das etnias indígenas nessa época de pandemia em uma matéria publicada no jornal El País, e uma das fotografias publicadas me chamou muita atenção. Não sei quem é o fotógrafo (se alguém souber, por favor, me avise para que possa dar os devidos créditos), mas enxerguei uma fotografia com muita disciplina e consciência sobre o processo pelo qual estamos todos passando.

Na fotografia estão dois indígenas em uma canoa, navegando em um rio. Uma foto um pouco escura, dá um aspecto meio sombrio. O rio com muito material orgânico. Ao fundo, mangues desfocados. A pessoa que está situada à frente da canoa está remando, guiando. A pessoa que está sentada ao fundo, parece estar descansando, mas ainda um pouco alerta. Ambos usam máscaras descartáveis, e o que está ao fundo também usa luvas. Vejo essa foto e me dá uma sensação de confiança que eles têm entre si, em relação ao caminho, em relação à pandemia e em relação à tarefa que eles irão executar (estão levando alimentos, coletando sangue, levando informações, são médicos, curandeiros?). Talvez eles saibam o que possa estar por vir. A fotografia deve ser de março ou de abril, não me lembro. A situação, para todo o país, piorou muito de lá para cá. E com as etnias indígenas o processo parece estar muito pior.

Esta fotografia me chamou tanta atenção que decidi me dar ao trabalho de usá-la como referência para treinar aquarela. Claro que, com as minhas limitações, consegui chegar um pouco onde queria, apesar de não ter conseguido reproduzir a mesma sensação que eu senti ao observá-la pela primeira vez enquanto lia sobre a situação da pandemia na Amazônia. Talvez pelo meu daltonismo, pelo meu amadorismo na técnica ou pelo meu desenho de observação de pessoas (que eu ainda acho insatisfatório), ficou um pouco aquém do que eu esperava. Mas treinos servem para melhorar essas questões, e por isso me sinto seguro de mostrar minha pintura aqui nessa mídia.

Hoje tive a sensação de que deveria escrever sobre isso. Assisti ao último episódio de Greg News, e entendi que a situação das aldeias não está nada boa. Muitos indígenas já faleceram. Muitas lideranças, professores, anciões estão indo embora. O genocídio dos povos indígenas chega por meio de coronavírus, grileiros, posseiros e diversos invasores, que tentam tomar as terras à força, com respaldo do Ministério do Meio Ambiente. Nós, como artistas e ativistas, não podemos deixar que isso fique assim. Ainda que em micro-escala, poder representar esse momento e falar sobre ele já é alguma coisa. No vídeo abaixo, Gregório Duvivier fala muito bem sobre o que está acontecendo, com fatos e fontes, e ainda solicita auxílio para etnias urbanas e semi-urbanas, que estão muito expostas ao coronavírus, e a ideia é evitar que povos inteiros sejam dizimados. A violência vem de várias frentes e se podemos fazer algo para ajudar, faremos.

Punk é Apoio, não competição

Parece uma coisa boba, mas falar sobre isso é algo que me parecia tão óbvio, que nem precisava ser dito. Mas não, hoje é algo necessário.

Já faz um tempo que eu percebi que o punk perdeu o sentido de existência, talvez porque aqui em BH a atuação tenha sido muito confusa, talvez desorganizada, e muita gente não compreendeu muito bem do que se tratava.

Digo punks de forma bem generalizada, porque a atuação coletiva sobreviveu durante pouco tempo por aqui. Ser punk é muito mais do que ter uma banda ou um visual a caráter, rebelde. Ser punk é aliar teoria e prática de ação direta buscando sempre o bem coletivo. Em BH houve vários grupos atuantes que dialogam com o anarquismo, promovem ação direta, grupos de discussão e reuniões de confraternização, mas não necessariamente essas pessoas são ou foram punks.

Em uma LIVE recente promovida por integrantes das bandas Mercado Negro (CE) e Las Calles (RJ), esse assunto veio em pauta, relacionando o atual hardcore e punk rock conservador e/ou politicamente isento, com essa questão da falta de organização e de crítica coletiva da galera que participa do rolé. E qual o papel da galera envolvida com o punk, com o anarquismo e com o hardcore nesses tempos de ascensão do ultra nacionalismo, do moralismo religioso e da extrema direita?

Muitas pessoas apenas esperam as coisas acontecerem, nunca correm atrás de organização, e me lembro até do pessoal do No Gods No Masters Distro falar sobre isso também, o quanto a galera rala muito para fazer as coisas acontecerem enquanto o público apenas tece críticas sem ajudar em nada.

O movimento hoje tem suas falhas, talvez, por essa falta de diálogos e de organização entre a própria galera no decorrer do desenvolvimento do punk, do anarquismo e do hardcore. Só de pensar que o Brasil foi um terreno fértil de bandas nos anos 90 e na primeira metade dos anos 2000, e que muitas dessas bandas hoje não existem, suas ideias se perderam, e a força geradora desse sonho em comum também enfraqueceu muito. Não me levem a mal, mas se hoje há pessoas que se dizem punks mas possuem comportamentos fascistas e intolerantes, alguma coisa foi compreendida de forma muito equivocada.

Vejo muita gente envolvida com o hardcore, mas pouca gente realmente ativa, que faz as coisas acontecerem. Isso é uma crítica à mim também, tive que lidar com as minhas questões e o coletivo ficou de lado, mas nunca parei o ativismo na forma de arte urbana, na forma de difusão de ideias, mesmo que em micro escalas.

Eu estou disposto a retomar essas conexões e voltar a formar uma rede, afinal, só conseguiremos chegar a algum lugar se o coletivo for forte o suficiente para tal.

Deixar de lado a ideia de ser o melhor em algo (afinal, não queremos nenhum tipo de competição) e focar no bem coletivo, em atitudes positivas, em agitação, em cultura, em ideias.

Essa estampa tem a ver com isso.

Isso não é uma competição.

Imprimindo linoleogravuras

Recentemente tenho feito alguns testes de impressão de linoleogravuras que eu já tinha gravado faz um tempo. Trata-se de uma gravura de bandana e outra de uma mãe zapatista amamentando o filho. Inicialmente as matrizes foram concebidas para serem impressões distintas, gravuras diferentes, mas entendi que elas funcionavam bem melhor quando juntas em uma pequena experimentação que fiz.

A matriz da bandana foi bem complexa de gravar e o processo foi bem longo. São muitos detalhes e eu usei a goiva micro V da Speedball para que a linha ficasse bem fina e os detalhes bem delicados.

A matriz da Madre Zapatista foi mais tranquila de gravar. É uma matriz com fundo removido, quase impossível de fazer registro se associada à outra matriz, e eu cheguei a fazer alguns testes de impressão utilizando papel amarelo Canson, tinta vermelha e uma prensa de tortillas mexicanas. O resultado me agrada, mas depois que eu fiz o teste de impressão com as duas matrizes juntas, o resultado é muito mais satisfatório.

Ao final, consegui isolar uma parte da impressão da bandana, e depois encaixar a matriz da Madre meio que no olhômetro. Fiz testes em três qualidade de papéis distintas: Hahnemühle, Arroz Japonês e Fibra Artesanal. Todas as impressões finais foram feitas com tinta de xilogravura a base de água e a impressão foi feita com baren, de forma bem artesanal. Todas as cópias disponíveis já estão à venda na loja online, com frete grátis para BH.

Diálogos com Prisca Paes

Para quem não sabe, Prisca Paes é uma grande amiga e artista, e também escreve em um blog sobre seus processos e suas ideias. Recentemente, ela escreveu um post falando um pouco sobre o que é a vida de um artista e como se preparar melhor para isso.

Essa publicação dela contém, de fato, muitas coisas que alguém que quer viver de arte deveria correr atrás ou, pelo menos, já dá uma ideia do que esperar quando você estiver nesse meio. Por mais que eu saiba o quão coerente são as afirmações dela, comigo o processo se deu de uma forma um pouco distinta, e a maioria das vezes essa culpa cabe única e exclusivamente a mim.

Não vou ficar repetindo aqui o que ela escreveu (entra no blog dela para ler, deixa de ser preguiçoso), mas vou falar das minhas experiências e frustrações com algumas das questões que ela colocou. Acredito que de vida acadêmica nós temos, mais ou menos, o mesmo tempo. Ingressamos na mesma faculdade de artes juntos, em 2011, mas em turnos diferentes. Fiquei sabendo da Prisca através de outra artista, Mariana Zani, que estudava nos dois turnos, e na época (2013 ou 2014) iriam utilizar minha estrutura de atelier para fazer serigrafias. Ainda assim, o projeto não foi para frente, e eu fui conhecer a Prisca Paes somente em uma feira de arte e publicações no Maletta, onde estava outra amiga em comum, Fabi Santana.

Apesar de sempre ter um pé nos quadrinhos e na arte urbana, seguir essa carreira nunca foi algo de meu interesse. Ingressei em uma faculdade de artes, porque alguém viu que eu pintava camisas à mão e disse que eu me daria bem na Escola Guignard. Eu acreditei nisso, afinal, depois de vários vestibulares de Comunicação Social, Design, Educação Física e um semestre em Geografia, me agradou a ideia de fugir um pouco dos meus planos.

Depois de 4 semestres estudando Artes Plásticas na Escola Guignard/UEMG me transferi para o curso de Artes Visuais da UFMG. As duas Escolas de Arte possuem características bem diferentes, e um perfil de idade dos alunos também. Se na época eu era um dos mais novos da minha sala na Guignard, na UFMG eu entrei como um dos mais velhos. E como estudante de arte, eu entendi que talvez eu não goste de ser artista, nesse molde contemporâneo, e viver o que as pessoas vivem. Ir em eventos e exposições é algo que me dá muita preguiça, e quando eu vou é para dar moral ou ver algum amigo. Ir nesses eventos é algo que me traz um certo repúdio, esbarrando em ego muito inflado de vários artistas, e sendo julgado o tempo todo por várias pessoas. Eu não gosto disso. E isso tem a ver com a questão de se inscrever em editais também. Durante a faculdade eu vi vários amigos que enviavam seu portfólio para ser julgado nesses editais, e muitos não conseguiam passar. Muitas vezes, o portfólio recebia uma avaliação ruim, e eu me perguntava se quem julgou utilizou de aspectos formais do trabalho ou de mero gosto pessoal, pois nunca há um retorno sobre onde você poderia melhorar. Inclusive eu vi professores que participaram de bancas e que disseram que o trabalho “ao vivo” eram bem melhor que as fotografias do portfólio, quando questionados os critérios de avaliação. O que me deu a entender que quem julga nem coragem possui para dizer sobre o trabalho na frente dos próprios artistas.

Nesse caso, me restam as redes que tecemos no nosso meio artístico para que possamos crescer juntos. É uma ideia interessantíssima, e ela funciona de verdade. Criando coletivos, grupos de discussão, diálogos positivos, isso tudo te faz ser um artista melhor, e também contribui para que a produção local seja melhor. Tenho inúmeros nomes que posso citar e ter a certeza de que são pessoas que me fizeram crescer de muitas formas enquanto artista, Prisca Paes é uma delas (sim, esse post é um diálogo com ela, ela é migs). Mas também é muito frustrante você achar que possui uma rede sólida e ainda assim “tomar na cara”, ver que sua rede funcionou apenas unilateralmente. Isso aconteceu comigo várias vezes, tive muitas decepções com isso, e talvez a minha mágoa em relação aos artistas belorizontinos (aqui eu generalizo, mas não são todos, rs).

Apesar dos pesares, foram as minhas redes que me fizeram conseguir caminhar por esses trajetos e muitos trabalhos que eu fiz foram por conta destas redes. Inclusive, conheci a Prisca através das redes que fomos tecendo. Estou longe de conseguir uma independência financeira através do que faço, geralmente termino o mês com a quantidade certa para pagar as contas e as dívidas, e muitas vezes preciso me ocupar em outras tarefas (pintar casas, fazer transcrição, etc) para minimamente me manter.

Dentro da faculdade de artes existem três questões, que para mim são muito relacionadas entre si, e que dialogam diretamente com os itens 1, 3 e 9 citados pela Prisca. Pelo menos na UFMG, a Escola de Belas Artes propõe um certo elitismo intelectual artístico, que compara a aptidão e competência dos alunos o tempo todo, transformando em uma disputa algo que era para ser um crescimento coletivo. Vi muitos amigos saírem da Escola de Belas Artes por conta disso. Sem contar o fato de que nem todo mundo tem grana para sustentar os gastos com os estudos e com a produção. De fato, se você não tem grana, seu trabalho é dobrado. Você vai custar a conseguir chegar em algum lugar se não tiver uma rede estável e apoiadora. Da mesma forma, tive muitos colegas de sala que possuíam um discurso muito conservador sobre as artes, levando todo tempo ao classicismo moralista de outrora e criticando aqueles que produzem arte para o comércio, para vender e poder se manter. Esses, geralmente, são os que possuem famílias muito ricas, e que não terão problema algum em ganhar dinheiro sendo intelectuais.

Quanto ao segundo item citado por Prisca, existe um grande paradoxo na minha opinião. Todo artista tem (ou deveria ter), pelo menos uma noção, de quanto vale o seu trabalho. Pelo menos aqueles que pretendem viver disso sabem o quanto gastam com material, o quanto tarda para produzir, a quantidade de esforço, e os gastos indiretos (espaço, equipamento, água, luz, internet, tempo de estudo) e acaba totalizando no valor final de cada peça. Esse não é um cálculo bobo, é bem complexo, e nós devemos, como afirmou Prisca, saber matemática sim. Porém, se você é um artista que não possui status, rede forte ou contatos ricos, fica muito complicado conseguir vender alguma peça.

Já passei por vários momentos de perder venda por causa do preço, e inclusive já vivenciei situações de pessoas que falaram que meu trabalho é “barato”, mas mesmo assim pediram desconto pra finalizar a compra. Ou aquela recorrente situação em que faço o orçamento para alguma prestação de serviço, impressão de serigrafia por exemplo, para uma pessoa que deseja um trabalho artesanal, mas compara o preço com um trabalho gráfico, de uma empresa que consegue baratear os custos devido ao equipamento que possuem. Nesses casos, nós artistas nos situamos em uma retórica que até dói um pouco, que é vender mais barato e conseguir pagar as contas ou não vender e passar perrengue por mais um tempo até conseguir outro trabalho. Tem muita gente que não valoriza a produção artística independente (e gasta muita grana com as graaandes empresas), mas foca seu olhar em quem já conquistou muita coisa e hoje, talvez, nem precise mais daquela venda. Fico me perguntando como ter um trabalho acessível financeiramente (que as pessoas da minha rede, que não são ricas e geralmente são amigos e família, possam comprar) e que não me traga prejuízos (afinal, cê já viu os preços dos materiais de arte?).

Ah, e não vamos esquecer o tanto de vezes que eu escutei: “você precisa se valorizar mais”, “as pessoas não dão valor a trabalhos muito baratos, acham que não tem qualidade”. Mas aí voltamos ao paradoxo inicial, como me valorizar se as pessoas não o fazem e como precificar sem elitizar meu trabalho?

No mais, Prisca foi muito feliz em suas afirmações. Cuide das suas contas e finanças, seja organizado, saiba dar valor ao seu trabalho e ao seu tempo. Fortaleça suas redes e estude muito, o tempo todo. Trate tudo que você faz como se fossem estudos e não dê ouvidos à nada que não seja positivo para si, pois muita gente nos machuca com palavras nesses ambientes, mesmo sem o propósito para tal.

Espero não ter sido rude aqui, e estou sempre aberto a diálogos.

Abraços firmes distanciados.

Escrita de fluxo

Toda terça-feira de noite eu participo de um Laboratório de Fanzine online, ofertado pelo Estratégias Narrativas e ministrado pelas minhas amigas Bianca de Sá e Mariana Zande a.k.a Papelícula, e ontem foi um dia interessante onde começamos fazendo um exercício de escrita, para desembolar as ideias de maneira livre durante 10 minutos, e eu escrevi sobre o que eu fiz durante meu dia. Segue a transcrição na íntegra:

“Hoje eu passei o dia testando cores. Já tentou fazer mistura de cores com tintas não-primárias e sendo daltônico? É um sistema muito complexo. Para fazer o verde sabemos que se utiliza o amarelo com o azul. Mas temos amarelo-limão, amarelo-ouro e amarelo-ocre. Temos azul-marinho, azul-médio, azul-claro, azul-petróleo. Pode-se misturar todos que o verde que tenho em mente nunca sai. Adiciono branco opaco e branco transparente, adiciono preto, adiciono aditivo para a tinta ficar menos espessa, nada. Não chega. Vou para a tentativa de criar um azul-turquesa. É um azul que também é verde. Mas que não há definição precisa sobre o que seja. Alguns enxergam uma coisa, outros enxergam outra. Parece com o mar, mas parece com uma piscina. Eu nunca vi uma pedra de turquesa, e fico pensando se parece com turquesa. Não dá certo, chego perto, mas ainda muito diferente. Alguns dizem que falta mais verde para chegar na cor turquesa, outros dizem que falta mais azul. Enquanto isso eu enxergo tudo cinza. Um amigo me disse que os tons azulados vibram na mesma frequência que os tons cinzas. E eu paro para pensar porque se chama verde-turquesa, já que não vibra no mesmo tom dos verdes. Desisto, vou tentar fazer um marrom. Vermelho com preto, fica bonina. Adiciono amarelo, adiciono verde, não fica marrom. Eu vejo um bonina e vejo um marrom. Não sei diferenciar. Penso em um pote de açaí. É marrom? É bonina? É roxo? Toda loja que vende açaí tem as paredes pintadas de roxo.”

Meu texto terminou aí pois se acabaram os 10 minutos de escrita desembolada. Poderia escrever muito mais sobre o tema, mas por hoje é isso aí.

Sobre policromia e serigrafia

Neste mês de Junho estou retomando as atividades em meu atelier. Fiquei um tempo parado, tentando trabalhar em casa e, desde o início deste mês, iniciei uma série de reformas no meu espaço de trabalho. Ainda precisando aquecer as técnicas, andei treinando algumas coisas para retomar as atividades, reorganizar os espaços, ver os materiais que ainda tenho disponíveis, o que ainda dá para usar, formas de trabalho e locais de produção. Isso tudo é um processo de reorganização para me adequar à rotina de trabalho novamente.

Uma das técnicas que andei treinando na serigrafia é a de POLICROMIA. Policromia é uma técnica de impressão em 4 cores básicas (ciano, amarelo, magenta e preto – CMYK) em que o resultado fica bem próximo de uma imagem fotográfica. A combinação destas 4 cores, consegue fazer com que nossos olhos enxerguem uma gama gigantesca de tonalidades. Desde 2014 que eu não trabalhava com essa técnica, e acho que foi um bom momento para testar meu conhecimento.

Impressão separada das cores Ciano, Magenta, Amarelo e Preto

A policromia é um conjunto de pontos, de diferentes cores e tamanhos, e é justamente esse efeito que engana os nossos olhos. É a forma gráfica do que podemos chamar de realismo na serigrafia artesanal. Como veremos nas fotografias a seguir, os pontos possuem diâmetros diversos, e nas fotografias utilizando uma lente MACRO, podemos ver detalhes da sobreposição destes pontos.

O resultado final da impressão, imagem que está logo a seguir, pode ser adquirido em formato A3, papel Canson 140g através da Loja Online. Em breve farei um vídeo tutorial ensinando a fazer, desde o processo no computador até a impressão final.

Impressão final, com as 4 cores sobrepostas.

Espero que tenham curtido, porque eu curti demais voltar a trabalhar forte na serigrafia. Abraços.

Sketchbooks e a arte de desenhar sem compromisso

Desde que eu ingressei em uma faculdade de artes tenho o hábito de andar sempre com um caderninho, para desenhos rápidos, para anotações, para aulas. Foi um hábito interessante, pois quando retomo esses cadernos começo a me lembrar de vários momentos passados, de situações, de ideias. São ótimos registros de determinada época.

No início, meu cadernos eram bem desorganizados. Possuíam muitas anotações de aulas, resenhas de livros, fichamentos, pequenos desenhos, doodles, desenhos feitos em aulas entediantes, começava a desenhar de um lado, na outra página as informações já estavam de cabeça para baixo, comecei a compor a partir do fim algumas informações, e com isso já se passaram 10 anos de conteúdo confuso.

A caligrafia e o lettering são técnicas que eu sempre tive interesse, e em 2018 eu cheguei a pegar algumas aulas com o Leoni Paganotti, e pude aprender bastante sobre esse tipo de arte. Desde que as aulas terminaram, eu meio que tento treinar e aprender por conta própria, vendo vídeos no YouTube, vendo tutoriais, videoaulas e apostilas, e pegando muitas referências de escritores via internet.

Esse ano, e com o início do isolamento social, tive a ideia de criar meu primeiro caderninho (também conhecido como sketchbook) temático. Pescando essa ideia do lettering e da caligrafia, pensei que poderia fazer um sketchbook totalmente de palavras. Uma coisa recorrente na hora de treinar escrita, é justamente saber o que escrever. Portanto, eu tive a ideia de pedir sugestões das pessoas que me seguem no Instagram, e diariamente eu escrevi 2 sugestões, durante 25 dias corridos. Me coloquei essa tarefa pois queria me sentir um pouco produtivo nesse isolamento, já que vários trabalhos estavam suspensos e meu atelier estava fechado. Meu único compromisso foi escrever 2 palavras por dia. Eu fazia as páginas enquanto tomava café da manhã, escutando músicas. Algumas páginas foram feitas com mais tempo, outras com menos. Para algumas eu fiz esboço, para outras foi diretamente no marcador e no papel, sem preparação prévia.

Foi uma atividade bem interessante, e eu pretendo fazer outros sketchbooks temáticos.

O resultado pode ser visto nos destaques dos stories no meu Instagram, ou no vídeo abaixo, disponível no meu canal no YouTube.

Criando a estampa da bolsa para guardar e transportar livros

Já faz um tempo que eu, juntamente com migs, temos um Clube do Livro. Não é que a gente siga os moldes tradicionais de todes lerem os mesmos livros pra gente discutir em um encontro, mas é uma justificativa para trocarmos e indicarmos leituras uns aos outros, encontrar para comer e beber, trocar ideias e se rolar da galera ler o mesmo livro, aí fica um encontro mais daora ainda. Apenas conseguimos realizar essa façanha do todes lerem o mesmo livro agora no isolamento, pois fizemos votação de pdf’s, onde cada um indicou um livro que existe em pdf, ebook, etc, e todos votavam no que acharam a melhor opção, sendo que você não podia votar na sua própria opção. Deu certo!! O encontro virtual tem rolado sempre no segundo sábado de cada mês, e para comemorar, decidi escrever um pouco sobre o processo de produção da bolsa de guardar e transportar livros. Já tínhamos conhecimento da existência desse objeto, vimos vários modelos, treinamos a costura e decidimos criar o nosso próprio.

No meu primeiro esboço, pensei em colocar elementos que fazem parte dos nossos encontros. Livros, vinho e pão, pois representam parte da essência do encontro pois, como disse no primeiro parágrafo, é um local de trocar e indicar livros, conversar sobre, comer e beber. Também adicionei uma faixa descrevendo o nome do encontro, e acima de tudo a indicação de propriedade “Ex Libris”, fazendo a associação com o motivo do encontro.

Depois de medir os tamanhos, de forma que coubesse um livro pequeno, um kindle ou até um livro maior e mais grosso, conseguimos chegar a um tamanho satisfatório. Minha esposa fez os moldes e cortou o pano Americano Cru para que fizéssemos as bolsas.

Arte final pronta para gravação

Depois de discutir com todo o grupo alguns elementos que iriam para a imagem, adicionamos as folhagens da parte inferior, o vaso de cactus e a parreira, deixando a imagem com um ar mais fluido, clássico, chique e refinado. Finalizei a imagem com caneta Posca, marcando as linhas, as hachuras e os contrastes, deixando a arte final pronta para gravar a tela de serigrafia.

Tela gravada e tudo pronto para a impressão. O Americano Cru enruga um pouco após cada impressão, e eu ainda fiquei meio bolado se a impressão, ao secar, ficaria meio torta. Acabou que não ficou, e depois eu também descobri que é sempre bom lavar o Americano Cru antes de silkar, para as tramas se ajustarem. Depois vou fazer um teste assim pra saber se fica melhor ou não.

Trabalho de silk finalizado, hora de fechar a costura e dar o acabamento que falta. Deixamos um túnel na borda para passar um cordão e poder fechar a bolsa. Resultado bem satisfatório. Livros protegidos para transporte, com direito a personalização do nosso Clube.

Fazendo estampas de camisas

Olá, subi mais um vídeo pro meu canal do YouTube. Desta vez ensino a fazer estampas em camisas utilizando a técnica do stencil. É uma técnica simples, que você consegue reproduzir em várias camisas, misturar cores e estilos.

O vídeo é gratuito, mas se você quiser colaborar com qualquer volar, segue o link para a doação: https://laidea.minestore.com.br/produtos/doacao-para-cursos-online

No mais, espero que gostem. Qualquer dúvida, sugestão ou comentário, entre em contato pela caixa de comentários do WordPress ou do YouTube.

Abraços

 

 

Experimento simples sobre a relação entre observar e desenhar

Se existe algo que eu defendo enfaticamente no mundo da arte, é que não existe uma fórmula secreta para ensinar arte. Não estou falando de teoria, estou falando de prática. Por mais que existam fundamentos técnicos que ajudam, e muito, na hora de desenhar (como perspectiva, luz e sombra, proporção, textura, etc), nada vai te fazer evoluir tanto quanto o poder da observação e da experiência.

Por favor, não quero que com esse post passemos a hierarquizar os estilos de desenhos, ou a dizer se são infantis ou profissionais, não vem ao caso. Eu sou a favor de que todos sabem desenhar, mas falta experiência e observação para que possamos mudar nosso modo de desenhar. Já escutei muitos adultos dizendo que não sabem desenhar, e quando tentam colocar alguma coisa no papel, apenas conseguem rabiscar aqueles desenhos bem infantilizados, de coisas que fizemos na pré-escola e que, sinceramente, não lembro de termos visto com nossos próprios olhos: uma casa com uma chaminé, uma macieira, um barco a vela…

Nosso primeiro instinto é desenhar essas coisas, porque é o que ficou registrado em nossa memória, e quando falamos em desenhar, resgatamos essas memórias de desenhos que fazíamos quando éramos crianças. Com o passar do tempo, essas experiências de desenho são, cada vez mais, colocadas de lado para a maioria dos jovens, pois na escola e na vida, outras áreas de conhecimento são colocadas como prioridades.

Destaco aqui o fator memória, pois é aqui que aprendemos realmente a desenhar. Todo desenho que fazemos depende da memória, do quanto registramos a imagem do objeto em nosso cérebro. Eu olho para uma árvore, por exemplo, e vejo características bem diferentes em relação ao desenho de uma macieira que eu aprendi a fazer quando criança. O formato da árvore é diferente, o tronco é diferente, os galhos e as folhas também são diferentes. Eu nunca vi uma macieira, mas meu desenho de memória é uma macieira. Hoje, quando observo, eu observo outra árvore, uma jaboticabeira (é o exemplo mais próximo que eu tenho). A jaboticabeira tem o tronco estreito, alongado, com manchas. As frutas nascem por todo os galhos. As folhas não são tão abundantes, e não tem nada a ver com uma macieira, nem com o desenho que eu aprendi de uma macieira.

Se eu observo os detalhes de uma árvore qualquer, vejo que cada árvore possui suas próprias características, e essas observações ficam registradas na minha memória para que eu possa desenhar essas árvores em outro momento.

Assim funciona qualquer desenho. Quando eu faço um desenho de observação eu não desenho o que estou vendo, eu desenho o que ficou registrado na minha memória sobre o que eu vi. Eu olho para o objeto, registro na memória e tento reproduzir no papel. Todo desenho é um desenho a partir da memória.

Recentemente, fiz um experimento simples para poder exemplificar o que estou dizendo. Minha esposa diz não consegue desenhar e nunca usou uma mesa digitalizadora (dessas pra desenhar no computador), mas começou a fazer alguns desenhos no Photoshop. Ela fez um prato com bolinhos de falafels, e eu não consegui deduzir o que era (Imagem 1). Logo após, ela fez um sanduíche de falafel, supondo que eu acertaria o desenho, mas eu achei que fosse um rolinho primavera (Imagem 2).

falafel1
Imagem 1

falafel2
Imagem 2

Constantemente ela me dizia que não conseguia desenhar, que não possuía coordenação motora para a tarefa, e eu propus um exercício bem simples.

Busquei no Google uma imagem de um sanduíche de falafel, abri a imagem no Photoshop e pedi para ela desenhar por cima da fotografia (Imagens 3 e 4).

Ultimate-Baked-Falafel-Wraps-with-Citrus-Tahini-Dressing
Imagem 3

falafel4
Imagem 4

Logo depois, abri um arquivo em branco e pedi para ela desenhar um sanduíche de falafel só com as informações que ela possui na memória (Imagem 5).

Imagem 5
Imagem 5

Nota-se que o último desenho do sanduíche de falafel possui uma riqueza de detalhes muito maior em relação ao primeiro sanduíche de falafel. Isto é explicado com o fato de que o último desenho foi feito com a memória do desenho feito por cima da fotografia, onde observou-se os detalhes do alimento, onde tem falafel, onde tem molho, onde tem folhas, onde está a massa enrolada. Quanto mais o objeto é observado e quanto mais uma pessoa tenta desenhar com as informações registradas na memória, mais parecido com a realidade o desenho ficará.

O ato de observar e contemplar um objeto ou uma cena está diretamente relacionado com o ato de desenhar. É na observação que registramos os detalhes em nossa memória, e é na contemplação que esse registro ganha significados. O poder da experiência consiste nessas práticas. Quanto mais você observar um objeto/imagem/cena, mais registros você terá em sua memória para depois poder reproduzir ou criar sem referências visuais dos objetos. Eu garanto que o sanduíche de falafel nunca mais será o mesmo depois desse experimento, e os próximos passos são compreender a parte técnica (textura, cores, luz e sombra, proporção, perspectiva, etc), mas aí já é outra história.