Lapsos de Tempo #23

Trabalho

Ooopa, tudo bão?
Falaê, tudo certo parcêro. Dá uma licencinha, só preu ver o que tem aqui?
Opa, claro, vou chegar pro lado aqui. O que você busca na caçamba? Material reciclável?
Não, não. Busco sujeira.
Sujeira? Como assim? Que tipo de sujeira?
Sujeira, ué. Coisa suja, para sujar.
Mas você vende sujeira? Tipo essas garrafas quebradas e plásticos?
Não. Eu uso a sujeira para sujar.
Mas porque na caçamba?
Caçamba tem sujeira de tudo quanto é tipo. É o equivalente aos ribeirões sem tratamento nas zonas periféricas.
Mas o que você faz com isso? Achei que você vendia pra reciclagem.
Eu uso para sujar.
Mas sujar o que?
Tapetes.
Tapetes?
Sim, tapetes.
E o que você faz com isso? Parece uma ideia meio estranha.
Eu também acho, mas dá muito dinheiro, então cada trabalhador faz o que pode pra conseguir o pão de cada dia.
E como que você ganha dinheiro sujando tapetes?
Tem um tapete estirado no chão. Eu abro a sacola com tudo que coletei de sujeira, e despejo em cima. Depois deixo secando e despejo mais coisas. Demora quase 1 mês pra finalizar o serviço, mas pagam super bem.
Me explica melhor esse processo, estou meio perdido. Não está fazendo sentido nenhum isso.
Rapaz, antes eu ralava com uma cooperativa de pessoas que limpavam os córregos e ribeirões das zonas periféricas. Era tipo um mutirão. A gente tirava um dia para limpar todo resíduo, lixo e sujeira que estavam na água e na mata ciliar. Ret´irávamos toneladas de lixo e a ideia era manter as águas preservadas, abrir prum sistema de tratamento chegar e conscientizar a população da importância de manter limpo. Mas não era algo que dava grana. Perdíamos nosso fim de semana todo fazendo a limpeza e transportando toneladas de descartes para outros lados, reciclagem, incineração, compostagem, etc. Todo processo era filmado, e fazia bastante sucesso nas redes sociais, só que nenhuma grande empresa se interessava no nosso trabalho, sempre fomos voluntários nisso. Ganhávamos muitos comentários de apoio, mas nenhum recurso financeiro e ninguém se voluntariava para ajudar.
E aí?
E aí que um dia chegou um cara lá que dizia estar procurando materiais para um novo nicho de mercado, e pediu pra gente separar tapetes pra ele. Ele pagava uma nota boa por cada tapete que encontrávamos. No início, nós limpávamos os tapetes e entregávamos ele da melhor maneira possível, até que ele nos disse que queria os tapetes exatamente do mesmo jeito que encontrávamos. Quanto mais sujo, fedido, encardido, em péssimas condições, mais dinheiro caía na conta. Daí nós decidimos que sujaríamos os tapetes mais ainda, com todo tipo de material que achássemos nas caçambas, aterros e depósitos clandestinos.
Mas como que isso funciona?
A gente suja tudo, deixa secar, suja mais, deixa secar. Terra, barro, sangue, cerveja, drogas, fuligem, craca, tudo que encontrávamos ia pro tapete…
Tá, mas porque ele pagava tão bem?
Esse cara fazia vídeos lavando tapetes. Ele se filmava fazendo limpeza completa de tapetes, jogando tudo quanto é tipo de sabão, desinfetante, químicos auxiliares, água, até o tapete voltar a ficar como novo. Esse tipo de vídeo caiu nas graças dos usuários, e agora eu ganho muito bem para criar a sujeira dos tapetes que aparecem no vídeo. Se eu ganho bem, imagina o cara que é dono do negócio…
Caramba, não sabia disto!
Pois é. As pessoas adoram ver as coisas materiais sendo limpas e conservadas. Doam dinheiro, contratam para limpar seus tapetes, compartilham os vídeos, assistem às propagandas… Realmente é um nicho de mercado. Retém atenção em 100% do vídeo, sem acelerar.
E os vídeos limpando os córregos e ribeirões?
Ah, esses ficaram em segundo plano. Não dá pra se dedicar em duas coisas ao mesmo tempo. Infelizmente a gente dá um gás no que dá dinheiro.

La Idea, 2025 – Olympus Pen-EE Fujifilm 200

[Serigrafia] Fui no mangue…

Chico Science e Nação Zumbi fizeram músicas que me marcaram muito. Me lembro daquele jovem pós adolescência, entrando na fase adulta e querendo descobrir o que o mundo tinha para oferecer. Me lembro que eu escutava música punk e rap enquanto voltava da escola caminhando, walkman no talo enquanto eu cantarolava as músicas. Um amigo, na época também punk, me disse que ia rolar um show de graça dum grupo de rock e maracatu no Parque Municipal. Eu, com todo meu preconceito musical, rejeitei o convite mas fiquei curioso em saber o que era maracatu, e o que isso tinha a ver com rock.
Com todas minhas habilidades de hacker naquela época, baixei algumas músicas no Soulseek (talvez Napster, Imesh, ou sei lá qual aplicativo eu usava) e me apaixonei profundamente. Cada canção que eu escutava eram aulas de musicalidade, ritmos, batidas, e eu me tornava um ser bastante curioso a cada letra que eu cantava.
Me tornei uma pessoa que se interessava mais ainda por música, fui buscar o que foi a Revolta Praiera, porque os computadores faziam arte, porque a cidade não gosta de seus construtores, fui buscar o que era um mangue, o que era Maracatu, quem foi Sandino, Zapata, Zumbi ou Antônio Conselheiro, Lampião e quem foram TODOS os Panteras Negras. Um mundo novo se abriu para mim. Outros grupos, movimentos, ritmos e estilos chegaram até mim, e me fizeram compreender que há algo além do punk
Conheci o grupo quando Chico Science já havia partido, e eu peguei só o que ele deixou de legado.

Escambo Gráfico

Para esta quarta edição do Escambo Gráfico, decidi prestar minha pequena homenagem a este grupo que me marcou tanto, me fez compreender várias coisas novas. Fiquei matutando ideias de como poderia homenagear alguma letra, e pensei logo em Manguetown. Não porque eu gosto que as coisas sejam assim, mas Manguetown me lembra um pouco de Homens e Caranguejos, obra de Josué de Castro, que eu li e me debrucei sobre cada detalhe, quando ainda achava que estudar Geografia seria meu futuro, rs.
Na obra, eu decidi ir pela literalidade da cena final da letra da música: “Fui no mangue catar lixo, pegar caranguejo e conversar com urubu…”. Talvez numa tentativa de trazer o quão importante foi, para mim, conhecer a banda e suas músicas.
O verde do fundo, mais pálido, coloca o mangue como um grande cenário. No primeiro plano um sujeito dentro do mangue (A lama chega até o meio da canela…) carrega um saco de lixo em uma mão, e um caranguejo em outra. Um urubu observa tudo (Urubuservando a situação…), esperando o sujeito verbalizar algo. Tudo isso em um vermelho mais forte. Esses dois trechos em destaque compõem outra música do disco chamada “Maracatu de tiro certeiro”. Foram referências para pensar em como seria o desenho e a composição desta gravura.
Trabalhar com cores complementares é mais seguro para quem é daltônico, e eu tive ajuda das amizades pra decidir a tonalidade do verde. Me sinto mais seguro quando consulto outras pessoas sobre quais cores utilizar.
Esse foi o resultado:

Tamanho aproximado: 21×14,8 cm – Papel Marcatto 80g – Edição de 36 cópias