Sobre a relação da educação com o punk rock – parte 1

Escutar músicas de bandas punk é algo que eu curto desde minha adolescência. Boa parte dessas bandas e suas respectivas letras formaram meu caráter. Felizmente, o caráter é algo que sofre metamorfoses todos os dias, e nem tudo que eu acreditava há 15 anos atrás eu acredito hoje. Muitas ideias e atitudes mudaram com o tempo e eu acho legal que isso aconteça. Acredito que é uma forma de reconhecer a maturidade das ideias, e também de entender que tudo é um acumulado de bagagem teórica e prática que larga mão de alguma coisa para poder acoplar outra que faça mais sentido.

Recentemente, apresentei meu TCC onde reflito um pouco sobre a influência do hardcore/punk/anarquismo na minha vida e nas metodologias de educação contemporâneas. Tentei fazer um estudo sobre educação e anarquismo, mas isso é muito denso para o tempo que eu tinha, portanto eu acabei me concentrando na comparação dos sistemas de educação formais e não-formais em que pude trabalhar, e algumas reflexões sobre os espaços e métodos. Utilizei como referência, principalmente, Ana Mae Barbosa, Paulo Freire e Silvio Gallo, e cruzei temas sobre educação para a liberdade, papel da arte-educação e educação libertária. Meu objetivo era criar uma discussão sobre como ser professor/instrutor/facilitador para formar sujeitos livres. Nesses tempos de quarentena eu irei reformular meus capítulos, e se tudo der certo eu lanço uma edição física e em pdf para poder compartilhar, pois muita gente se interessou pelo tema.

Para começar a discussão coloco uma epígrafe onde transcrevo, de forma literal, a letra “O Poder do Pensamento Negativo” da banda Colligere. Essa talvez seja a letra que mais me provoca no sentido de refletir sobre nossas ações que possuem como finalidade alcançar a “liberdade”. Claro que cada ser, a partir de seus preceitos e conhecimentos, possui um conceito diferente sobre ‘ser livre’, e eu não quero, de forma alguma, impor algo.

“As lições estão no quadro – a salvação no altar
Nós trocamos os desejos por aceitação
Pessoas têm o seu papel – você aprende o seu
Te ensinam o destino, mas não de onde provém
Talvez isso explique a existência de heróis
Pessoas como nunca vamos ser – livres e fortes
Você aprende o que comprar
Para esquecer sua falta de poder e de liberdade
Sua vida vai embora – você reza pro tempo passar
No final, é tudo uma questão de aceitar as regras
Abrir mão de algumas coisas para ter outras
Natureza é conflito. Sociedade é submissão
A conveniência se impõe sobre a liberdade
E o poder se impõe sobre a vontade
Quem constrói a verdade controla sua vida.
Cansados de perder, alguns tentam mudar por dentro.”

Colligere – O Poder do Pensamento Negativo

Essa música abre o álbum “Sobre determinação e desespero”, lançado no ano 2000. Faz 17 anos que essa letra me gera incômodo, pois cada vez que eu escuto, eu compreendo o quão ainda estou longe de ser um sujeito livre. E estando longe de ser um sujeito livre como eu poderia formar sujeitos livres? Ser um sujeito crítico significa ser livre?

Colligere não é bem uma banda punk. É uma banda de hardcore cujas letras me estimulam refletir, pensar, propor e discutir algum tema. É uma chama disparadora de questionamentos sobre diversas situações, e durante muito tempo foi fonte de referências para produzir e para sobreviver. Suas letras possuem fragmentos de diversas obras literárias, de ficções, de teorias, de poesia, de outras músicas, e muitas vezes, ao escutar, você cria as associações: “Esse trecho é de tal livro!”. Já encontrei Fernando Pessoa, Guy Debord, Milan Kundera, só para citar alguns, e tenho certeza de que você encontrará outras referências também.

Durante muitos anos venho analisando as letras de musicas de bandas punk e percebo que elas escancaram realidades cotidianas da sociedade e do sistema politico numa perspectiva muito direta. São letras que citam, reclamam, protestam e que passaram a me provocar um desejo de aprofundar e estudar sobre questões de liberdade, justiça social, política, etc. Na minha pesquisa para o TCC, andei escutando novamente algumas letras e percebi que elas servem como disparador de algo muito maior, que ha alguns anos atrás não compreendia. 

A música “Ódio³” da banda Ratos de Porão é algo que exemplifica bem esse sentimento. É um ataque direto às intituições de ensino e religiosas que, apesar de entender, eu discordo. Logo nas primeiras estrofes a letra diz que o sujeito odeia a escola, parou de estudar e que o ensino é uma ditadura cultural. Logo depois os professores são chamados de raça superior, senhores do saber, são odiados e que é um ritual medíocre. Eu realmente entendo esses ataques, e acho que as experiências de cada ser são bem distintas. A Escola é uma instituição que tende a homogeneizar seus alunos, e cada qual que foge da linha sofre punições e restrições, e nenhum tipo de escuta ou empatia.

“Eu odeio escola
Parei de estudar
É inútil prosseguir
A ditadura cultural

Odeio professores
Raça superior
Senhores do saber
Medíocre ritual

Detestar, odiar, desprezar
Detestar, odiar, desprezar

Tudo o que sei
A rua me ensinou
Tudo o que faço
É pra me divertir

Ninguém manda em mim
Falo alto, faço pouco
Não tenho educação

Odeio padres
E a falsa castidade
O voto da pobreza
Do banco Itaú

Odeio igrejas
Imagens irreais
Não atendem os pedidos
Do otário sonhador

Meu ódio é normal
Pode destruir
Ação radical
É o nosso poder”

Ratos de Porão – Ódio³

A música “Sistema de enseñanza” da banda espanhola Sin Dios segue na mesma linha, criticando o sistema educacional, que confina os alunos em disciplinas rígidas, sem lazer, formando pessoas para serem brutas e apenas úteis à sociedade. De fato, boa parte das escolas utilizam o lema “mercado de trabalho” como forma de angariar alunos, e isso transforma todo sistema em uma competição por aprovação. Quantos são os casos de “fracasso escolar” que encontramos na literatura da educação? São jovens que não se adaptam a esse sistema de pressão e disputas e que não entendem que esse sistema não funciona para todos. O sistema impõe e os pais acatam. São poucos métodos alternativos que são acessíveis e/ou públicos, e a maioria dos pais não costumam confiar em educações que prezam pelo crescimento do ser, das relações construídas no dia-a-dia, na prática, na compreensão.

Em diversas oportunidades, o ambiente escolar é comparado com o sistema prisional. Foucault já escreveu sobre essa comparação e ela é realmente muito válida. Foi num dos capítulos do meu TCC em que falo um pouco sobre as oficinas no Sistema Socioeducativo em que trabalhei, onde comparo as diferenças e similaridades da prisão com a escola. Há até um jogo online onde eles mostram um fragmento de foto e você responder se é escola ou se é prisão (depois procurem no Google esse jogo. É difícil diferenciar). Me lembro bem de uma aluna de uma escola do ensino regular/formal, onde já houve vários casos de suicídio e depressão dos alunos, solicitando psicólogo para os alunos e a escola dizendo não ter verba, enquanto que no sistema socioeducativo tinha psicólogo, terapeuta educacional, pedagogo e advogado trabalhando e atendendo os jovens que ali estavam presos. Acho que, apesar de serem abordagens e situações diferentes, ambas instituições deveriam ter profissionais qualificados para atender seu público, pois sabemos que há demanda para o serviço, mas não há boa vontade do poder público.

A música do Sin Dios termina clamando que queimem o sistema burguês de ensino. Antes eu concordava muito com isso, mas depois analisei outros fatores. Imaginando a situação brasileira e a história do ensino no país, devo lembrar que a educação deu início com os jesuítas e, somente com a expulsão deles do país, o estado se viu obrigado a prestar esse serviço. Hoje temos educação privada, religiosa, pública, informal, não formal. Infelizmente, a maioria dos bons projetos educacionais estão concentrados na iniciativa privada, por vezes religiosa, e não é culpa somente dos burgueses. É de todo o sistema. O estado, cada vez mais, sucateia os recursos educacionais, e sobretudo agora, sucateia os lugares de pesquisa e extensão, cortando verbas de bolsas de pesquisadores. As consequências dessas ações políticas são cada vez mais descredibilizar o ensino público e fortalecer o sistema privado. Esse processo ja aconteceu em alguns países, como o caso do Chile, e começamos a ver isso acontecendo atualmente no Brasil, quando governantes propõem sistemas de controle e qualidade da educação através de um processo puramente mercadológico, empresarial. Os projetos de educação não formal/informal também fazem parte desse jogo. O governo não apresenta condições de ofertar e subsidiar projetos e programas, fazendo com que estes dependam de ações de empresas privadas ou sobrevivam através de doações. Contudo, doações nunca são suficientes, o trabalho é bastante insalubre e os profissionais desvalorizados. Os projetos não sobrevivem de forma autônoma, e são poucos que tiveram sucesso nessa linha. A burguesia apenas manipula o sistema para que isso ocorra. 

“Desde pequeños ¡domesticación!
Premio y castigo es la educación
Juego en el patio, dura media hora
La disciplina, diez horas mas

Deberíamos quemar todos los colegios
Deberíamos quemarlos ¡ya!

El instituto es otra cárcel
Donde aprendes poco y mal.
Días de examen, selectividad
Algo que pronto olvidarás

Deberíamos quemar los institutos
Deberíamos quemarlos ¡ya!

El sistema de enseñanza
No estimula el aprender
Persigue embrutecerte
Ser útil a la sociedad
Se sumiso y no cuestiones
Acepta la autoridad
Inculto, sigue la norma
No pienses mas que los demás

La facultad, crítica muerta
Profesorado, mediocridad
Los contenidos manipulados
Juegas tu futuro en un tribunal

Deberíamos quemar la universidad
Deberíamos quemarla ¡ya!
Deberíamos quemar el sistema burgués de enseñanza
Deberíamos quemarlo ¡ya!”

Sin Dios – Sistema de Enseñanza

A letra também pontua a necessidade escolar de formar pessoas que sejam úteis à sociedade. E sobre isso eu entendo que “ser útil” significa servir de mão de obra sem questionar, pera seguir alimentando a lógica de produção capitalista, mercantil. Talvez, por essas razões, as áreas de humanas, de criação, artísticas são tão perseguidas e reprimidas, pois são os locais onde se formam sujeitos críticos, pensantes. A metáfora utilizada pela banda Ação Direta na música “A vida sem a arte” é bem certeira nesse sentido. A comparação de uma vida vazia, que apenas segue e obedece é o mesmo que acontece com uma vida sem as artes, fadado ao fracasso.

“Sem forças para arrebentar os elos desta corrente
Nem noções básicas de cultura e cidadania
Milhares de histórias giram em torno do sofrimento
Caminhos que levam ao mesmo destino

Um grito no vazio
Como a vida sem a arte
A mentalidade miserável
O fracasso humano

Representando um universo inexpressivo
Mentes condenadas à ignorância e ao analfabetismo
O exército se multiplica por todos os lados
Só a esperança mantém os oprimidos respirando.”

Ação Direta – A Vida sem a arte

A Escola deveria ser um ambiente de desenvolvimento dos sujeitos, formação de seres livres, críticos, pensantes. Mas como se compreender como anarquista (ou próximo disto) e sempre depender do estado ou de investimento privado para conseguir este objetivo? Parece contraditório e nós temos que conviver com nossos conflitos conceituais enquanto tentamos alternativas. A música Fator Crucial” da banda Ação Direta me abriu um pouco a percepção para discutir um pouco isso. O estado, como um ator politico, consegue alcançar lugares que nem imaginamos, e se não fosse por isso, o acesso à educação seria muito mais limitado. Por mais que eu discuta muito a função do estado, eu entendo que o sistema educacional estatal é muito necessário, pois é onde outros sujeitos têm contato com informações que não chegam de forma satisfatória na zona rural, por exemplo. Certo que hoje existe a internet, e que tudo anda muito mais conectado, a informação corre rápido, mas eu acredito no papel do professor como elemento disparador de ideias.

As licenciaturas possuem esse papel de transformar o professor como alguém que está ali para formar pessoas. Recentemente, trabalhando para uma ONG, eu visitei várias escolas em diversos interiores e zonas rurais, e eu vi muito mais coerção religiosa e moral do que libertação. São regiões muito mais conservadoras, e aqui eu caio em outra contradição. A educação que eu acredito é a mesma que essas pessoas também acreditam? Quando criticamos a educação, que tipo de situações criticamos? É nosso dever ir em todas as escolas apontar o dedo para os “erros”? Esse tipo de educação funciona para eles?

“Um país mais rico que alfabetizado
Uma nação tão desigual
Nenhum investimento, nenhum incentivo
Desperdício de potencial
Sem aprendizado, sem cidadania
Caótico quadro social

Exclusão do mundo letrado
Cidadão humilhado
Nas zonas urbana e rural
Alfabetização crucial

Distantes do sonho de primeiro mundo
Sem projetos para a educação
Falência do ensino, ausência do estado
Reflexos da degradação
A arma, o crime, novas referências
Agravando a situação
Futuro incerto, gerações condenadas
Carentes de proteção

Exclusão do mundo letrado
Cidadão acuado
Nas zonas urbana e rural
Alfabetização crucial

Figuramos entre as maiores economias do mundo,
Mas ainda possuímos um dos piores
Quadros sociais, ultrapassando a marca dos
15 milhões de analfabetos
Além de ser um direito
Assegurado pela constituição
A educação é um fator crucial responsável pela
Dignidade do povo e pelo
Desenvolvimento da nação

Exclusão do mundo letrado
Cidadão discriminado
Revolução educacional
Alfabetização crucial”

Ação Direta – Fator Crucial

Sempre fico em dúvidas se entro nessa questão e quero deixar bem claro que isso é o meu ponto de vista. Em várias destas letras que expus acima, a religião é criticada e esse é um ponto em que eu concordo veementemente. Religiões, não importa qual, são carregadas de morais e costumes, e associar a moral religiosa com a liberdade, que a meu ver são antíteses, se tornam um erro. Claro que isso é apenas um ponto de vista, e estou aberto a discussões, e sei que existem pessoas que buscam a liberdade através da religião. E meu questionamento está nesse processo: A religião se torna um meio de buscar a libertação, ou o sujeito entende que a liberdade é o que determina a religião?Acho que são pontos de vista bem distintos e não irei aprofundarme nessa questão agora.

O importante é compreender como traçar um caminho para uma libertação pessoal. Para desenvolver-se como sujeito pensante e crítico é interessante manter um processo de reflexão sobre vários temas, e associar com tudo que possa conectar com tal assunto. Ler, produzir arte, escrever, trabalhar o corpo, todas essas são formas de disparar perguntas sobre o que estamos fazendo. Pensa e atua dizem os anarquistas. Como você recepciona as informações? Você ignora, você pensa, você associa, você discute ou propõe ações para alguém?

A música “Leer para luchar” da banda Sin Dios parece ir nesse caminho. Pensar e atuar, produzir, discutir, ler e mudar conceitos. Aplicar seus conhecimentos para melhorar a vida comum, para tornar sujeitos livres.

“Si sólo repites consignas
Es que no sabes nada
Si sólo sabes de memoria
Una marioneta serás

¿Cómo entenderás
Un mundo tan complejo
Si escuchas solo
Lo que quieres oír?

Crece, aprende, instrúyete
Fórmate, estudia
No hay que perder
Historia, novela,
Poesía o ensayo
Fanzines, prensa,
O contra información

¿Cómo entenderás
Un mundo tan complejo,
Si escuchas sólo
Lo que quieres oír?

Leer para crecer
Leer para luchar

No te autocensures
La curiosidad te debe guiar
Un pueblo formado es
Lo que más detesta el poder

Leer para crecer
Leer para luchar
Leer para entender
Leer y ser libre

La complacencia es
Ignorancia
Gritar por gritar
Es mas bien rebuznar

¿Cómo entenderás
Un mundo tan complejo
Si escuchas sólo
Lo que quieres oír?
¡¡Lo que quieres oír!!”

Sin Dios – Leer para luchar

Concluindo essa pequena reflexão, penso que toda ação merece uma discussão mais profunda. Compreender o papel do educador/professor/facilitador e como lograr algum objetivo é uma tarefa importantíssima e depende muito de discutir propostas entre diversos atores. O que dá certo e o que não dá certo, tentativas, erros e acertos, o que existe de produção literária sobre o assunto, como difundir a informação? Fico pensando que o que chamamos de “movimento punk já está em uma curva decadente no gráfico. Muita gente envolvida não tinha noção do que estava fazendo ali, e muito material produzido é muito razo ou não condiz com o que o movimento propõe. No final das contas, quem faz o movimento? Quem acredita no movimento? Quanto mais bandas surgirem e discutirem o sistema educacional de uma forma mais profunda e coerente, sem apenas julgar o que já existe, acredito que conseguiremos chegar a uma certa liberdade. O que almejamos é um bem comum, cidadãos que se apoiem mutuamente e a educação é o primeiro passo para esta finalidade.

“Essa é a nossa contra cultura
Mais participação, menos expectativa
Centenas de pessoas envolvidas
Meia dúzia de sempre que organiza
É mais fácil do que pensam
Faça você mesmo
Não seja um mero expectator
Faça você mesmo
Não seja um mero expectator
Atue e conteste”

Discarga – Contra Cultura

Você que leu até aqui, teria alguma indicação de bandas ou músicas que tratem do tema? E de literatura? Me dá ideia. Estou com as ideias em aberto e gostaria de continuar pesquisando. Comente algo sobre o texto. É a melhor forma de propor algum diálogo e até, quem sabe, promover uma mudança de paradigmas.

Litografia, e as saudades de uma época de pesquisa intensa

Recentemente postei um vídeo no YouTube sobre a litografia. É um compilado de pequenos vídeos gravados entre 2014 e 2017, nos tempos em que eu estudei litografia na Casa da Gravura, da Escola de Belas Artes da UFMG. Entre 2014 e 2015, eu trabalhei no atelier por 3 semestres, e ainda prestei serviços de impressão em 2016.

Para quem não sabe, litografia é uma técnica de impressão em pedra calcária. A pedra, muito sensível à gordura, é granitada para planificar a superfície e eliminar rastros de gordura. Logo após, faz-se um desenho com material gorduroso (tusche ou crayon são os mais comuns, mas pode-se usar lápis dermatográfico, carbono, suor, digitais, óleo de cozinha ou qualquer material gorduroso) e o mesmo é fixado na pedra com a utilização de ácido nítrico e/ou fosfórico diluída em goma arábica. A concentração da solução de ácido e o tempo de exposição determinam o quão escuro ou claro ficará os traços que você fez. Pode-se isolar alguns lugares com goma árabica pura, bem como fazer margens. Ainda no processo de gravação, antes de remover a goma acidulada, há de remover os resíduos de gordura com aguarrás e substituir por “tinta miolo”, que é um tipo de tinta gráfica. Repete-se o processo de limpeza e ácidos, remove-se a tinta miolo com solvente e a pedra já está pronta para início de impressão. Nesta parte é imprescindível que a pedra esteja sempre úmida para receber o rolo de tinta gráfica e a tinta fixar em sua quantidade correta apenas nas áreas de gordura do desenho. A impressão é feita colocando a pedra entintada e um papel sob o desenho, e passando por uma prnesa que chamamos “prensa de faca”, pois a pressão é feita por uma superfície plana que concentra a força em apenas um feixe da pedra. Pode parecer complicado e trabalhoso, e realmente é, mas essa parte é o que faz da litografia ser tão especial na minha vida.

Durante pelo menos 4 anos eu pesquisei intensamente a técnica, ajudei muitos alunos, prestei serviços para artistas experientes, até me formar e ainda não consegui montar aparatos no meu atelier para voltar a trabalhar com a técnica. Tenho saudades de trabalhar com isso, e me admira muito quem conseguiu fazer isso fora do ambiente universitário.

Desde 2017 que eu tenho um desejo real de estudar no Instituto Tamarindo, referência em litografia no mundo, mas minhas condições financeiras não permitem, pois estudar e morar nos Estados Unidos não é nada barato.

Claro que o processo que eu descrevi acima é muito simplório, e faz tanto tempo que eu não trabalho com isso que eu posso me enganar em alguma parte do processo. Sem prática isso acaba sendo normal. Enquanto meus planos não se concretizam, eu me divirto e fico saudosista com os vídeos da época de faculdade.

A trilha sonora é toda da banda H2O.

Bons tempos.

 

Sobre distanciamento social

Já fazem alguns dias que não saio de casa. Atualmente morrem 3.000 pessoas por dia no mundo e isso é sim uma estatística preocupante. O isolamento/distanciamento social é algo necessário para que esse número não seja tão grande, ou não aumente em uma proporção mais catastrófica.

Para além dos casos diários a tarefa de “ficar em casa”tem sido estranha. Treinar desenhos, letras (o que eu faço nessa área estão nos destaques do Instagram), uma técnica ou outra de pintura que eu trouxe do meu atelier e que é mais fácil transportar e guardar, ler algumas notícias, ver séries, ler alguns capítulos de livros, lavar vasilhas, comer/fazer comida. Essa tem sido uma rotina. Parece que eu vivo em um looping de tarefas. Estou sem entender se eu repito muito o dia anterior, ou se isso é normal e vai passar. É uma sensação estranha, não consigo não pensar nisso. Mas imagino que muitos que adotaram a política de isolamento/distanciamento também estão passando por algo similar.

É impressionante o quanto me dá vontade de fazer coisas que antes podia fazer, mas que preferia não fazer por N razões (falta de tempo, dinheiro, trabalho, desgaste), e acho que talvez esse seja o meu maior desejo agora: sair tranquilo, reforçar as interações sociais, minhas redes. Essa coisa de conversar por Skype com as pessoas me fizeram ver o quanto sinto falta delas e de muitas outras, que eu sei que me fazem bem. Se antes eu não saía, hoje me dá vontade de sair a qualquer custo. Mas eu sigo no meu looping diário, pelo menos até esses tempos sombrios terminarem.

Uma coisa que tenho feito muito também é olhar fotos de viagens. Lugares que visitamos e que hoje estão completamente desertos. Tempos muito felizes em lugares muito massas, talvez nunca mais sejam os mesmos. E eu vejo o passado e penso no futuro, o que será dele? Daqui um ano, como será que lembraremos desse 2020? Lembraremos dos momentos difíceis, das interações virtuais, de estatísticas de mortes, das políticas adotadas por políticos? Ou lembraremos do quanto sentíamos falta de nossa vida pública, daquelas amizades que fortalecemos nesse presente bizarro?

Se cuidem!

Sobre um caos silencioso

Esse período não tem sido nada agradável. Vários trabalhos sendo adiados, e eu mudando meus planos todo o tempo. Tenho certeza de que é a primeira vez na minha vida que eu estou passando por algo do tipo. Imagino que seja a primeira vez também para a maioria das pessoas que estão lendo isso. A princípio me preocupei muito com a minha questão financeira. Sem trabalho, sem dinheiro, e as contas continuam chegando, a fome também. Isso ainda é preocupante, mas sei que com o pouco que eu tenho guardado, e com o adiantamento de alguns trabalhos que ainda estão sem conclusão eu acho que conseguirei me virar por essas semanas. Há coisas mais importantes rolando nesse momento e a saúde geral da população está em risco. Vejo pessoas próximas a mim tendo um total de zero cuidados consigo e, consequentemente, com os outros, negligenciando uma questão que tende a se agravar, pelo menos, por mais 2 meses. As notícias que chegam da Itália são sim preocupantes. Ver um sistema de saúde, que dizem ser muito bom e eficiente, estar completamente sobrecarregado a ponto de terem que escolher quem vai ter um tratamento e quem vai ser deixado para morrer, porque já não dão mais conta da quantidade de infectados com o vírus. Eu prevejo essa situação em pouco tempo acontecendo no Brasil. Dizem que o comportamento do vírus é diferente nos trópicos, e que isso fará com que o impacto por aqui seja mais suave. Mas essa notícia não me conforta. Da mesma forma que eu não me conformo em saber que as pessoas só irão começar a se preocupar quando já for tarde demais para isso.

Por aqui, mantemos um padrão de higiene a todo vapor. Passo a maior parte do tempo no meu atelier, buscando afazeres, porque se eu pensar muito em tudo isso eu surto. Isolados socialmente, reclusos em nosso cantinho, vendo séries, filmes, lendo livro, tomando cafés, silkando, desenhando, arrumando a organização do atelier, vendo as notícias de forma online, aprendendo muito com tudo isso, conversando com todo mundo que está na mesma situação em que estamos. Estou convicto de que sairemos dessa situação mais fortes e preparados. Talvez mais unidos também (exceto os apoiadores do Bolsonaro, que são completamente estúpidos).

Me propus a treinar escrita de palavras, uma palavra por dia. Colocar a cabeça para trabalhar. Vou tentar criar umas estampas novas, continuar umas aguarelas que ficaram abandonadas, treinar desenho, pintar as paredes do atelier.

Quer dicas para assistir? Ultimamente eu assisti novamente The Office, as 9 temporadas. É uma série ótima. Boa para passar o tempo e distrair.

Comecei a assistir The Boys. Por enquanto tem apenas uma temporada, mas vale muito a pena assistir.

O Libreflix tem um tanto de filme, doc e série legais para ver: https://libreflix.org

Assista Explicando e Cooked, estão na NETFLIX. Assista High Maintenance, Sharp Objects e The Deuce, na HBO Go.

Quer dicas de leituras?

  • Ensaio sobre a cegueira – Saramago
  • Sobrevivente – Palahniuk
  • 1984 – Orwell
  • A Ilha – Huxley
  • Meio Sol Amarelo – Chimamanda
  • Americanah – Chimamanda
  • Assombro – Palahniuk
  • A cadeira da águia – Fuentes

Escutem Solstício, Colligere, Eduardo, Las Calles, La Invaxión, Vieja Guardia, Thell Barrio, Downset, Rage Against The Machine…

Leia esta carta do Valter Hugo Mãe, dirigida aos brasileiros 

As notícia sobre a pandemia eu vejo aqui

Fiquem tranquilos, cuidem-se o máximo possível. Tranquilizem, informem e ajudem as pessoas. Lave as mãos e evite tocar o rosto.

Faça sua lista de séries, filmes, discos e livros, escreva nos comentários!! O que você tem sentido nesse período? Angústia, ansiedade?

 

Vídeos sobre processos

Olar pessoal. Andei gravando e editando alguns vídeos mostrando o processo de impressão de estampas em serigrafia. São vídeos gravados, em sua maioria, em time-lapse, com edições bem cruas. A ideia é depois fazer uns vídeos mais explicativos, mas ainda preciso aprender a trabalhar com essas novas mídias.

O primeiro vídeo foi do processo de impressão em duas cores do poster “La Idea/Puro Borde”, com as cores preta e branca na camisa amarela. Minha companhia no trabalho foi da @nataliaumm e o vídeo pode ser conferido abaixo. A trilha sonora ficou por conta da banda Deez Nuts, tocando “Fight For Your Rights” da lendária Beastie Boys.

A camisa pode ser comprada através da Loja Virtual

 

O segundo vídeo é o processo de impressão na camisa preta, com tinta branca, na frente e nas costas da camisa. A tinta de cor clara em superfície escura precisa receber várias mãos de tinta para que o branco fique branco. Nesse caso, após a passada da camada de tinta, aproximamos o soprador térmico para secagem instantânea da tinta, e assim receber outra camada de branco. Nesse processo, eu e @_marcoscortez produzimos as camisas do Estúdio de Tatuagem Skins, de Conselheiro Lafaiete. A trilha sonora é do Freddy Madball, com as músicas “The New Black” e “Y que?”.

 

 

Tentarei sempre criar vídeos dos processos de produção. Se houver algo que você queira ver, me dá ideia pelos comentários.

Seção de Livros

Passando para avisar que está inaugurada a seção de Livros e publicações na loja online.

Será um espaço para comercializar algumas obras literárias de amigos e algumas publicações que pretendo fazer em breve. O “Catálogo de spray para daltônicos” e “Teste Ishihara” são duas publicações/livro de artista/provocação que eu fiz uma cópias há alguns anos e estou com vontade de produzir mais. Será uma ótima oportunidade para fazê-lo.

Na seção de Livros, o primeiro título disponível é o livro gerado a partir da Tese do xBarrãox, grande amigo meu, companheiro de décadas, nonsxe.

As informações técnicas seguem abaixo e o livro pode ser adquirido pela loja online.

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Título: No intuito de produzir influência educativa – Educação moral, polícia de costumes e prostituição feminina em Belo Horizonte (décadas de 1920 e 1930)

Autor: Lucas Carvalho De Aguiar Pereira

Editora: Letramento

Páginas: 208

Publicação: 2019

Descrição do produto:

A obra explora um período em que a importância dada ao problema da prostituição pela polícia e por grupos sociais distintos ganhou outras dimensões, concorrendo para a organização de uma polícia de costumes e para a criação da Delegacia de Fiscalização de Costumes e Jogos. Esta instância policial elaborou prescrições para a prostituição, que se transformaram em uma espécie de projeto pedagógico. Assim, o problema do livro foi desenvolvido em três capítulos, nos quais analisa-se: o processo de legitimação das propostas de intervenção da polícia na prática da prostituição feminina, sob o ponto de vista da educação moral; as práticas de policiamento, que estiveram ligadas diretamente a esse processo, como as prisões correcionais, as medidas de vigilância e a admoestação; e as estratégias de racionalização e especialização da polícia civil, criando projetos de formação intelectual dos policiais.

Sobre o autor:

Lucas Carvalho De Aguiar Pereira é licenciado em História pela UFMG, mestre em educação pela UFMG e doutor em História Social pela UFRJ. É professor do IFMG Campus Betim. Dedica-se a pesquisas relacionadas às questões de gênero, educação dos corpos e das sensibilidades, modernidade, prostituição, subjetividade, instituição policial e mundos do trabalho.

Sobre vídeos

Ultimamente ando me arriscando na produção de vídeos. São tutoriais, processos, fragmentos de rolés, algumas aulas… Tudo será disponibilizado no canal do Youtube e no IGTV.

É uma ótima forma de registro do processo de trabalho, pois ver o produto sem saber por tudo o que passou antes de se tornar aquilo se perde um pouco da experiência.

O primeiro vídeo é um processo de corte e pintura de um stencil de 4 camadas. Foi todo filmado em Time-Lapse.

 

O segundo vídeo postado são de fragmentos de rolés, com cenas tomadas entre 2012 e 2019, em diversas cidades. São pequenos trechos de colagem de cartazes lambe-lambe e de stickers.

 

No canal do Youtube seguirei postando vídeos, tem muito material guardado aqui, que eu filmei há muitos anos e não sabia o que fazer com isso. Também estou me arriscando na edição, não conheço muito, mas estou fazendo o que posso.

Mais planos

Chegando na reta final de apresentação do TCC, prestes a me formar em Licenciatura em Artes Visuais, o planejamento para os próximos meses começa a maquinar na minha cabeça. Eu já estava pensando em algumas mudanças na estrutura e mobiliário do meu atelier, com a finalidade de liberar espaço para adquirir novos equipamentos e aproveitar melhor o espaço ocioso em alguns lugares.

Começando pela cozinha, necessito urgentemente de um armário ou despensa para guardar utensílios domésticos e mantimentos. Já estamos olhando isso e é capaz da gente adquirir algo barato, para quebrar o galho até conseguirmos uma estrutura melhor. Também é necessário equipar o espaço para a produção de chocolates e bombons, comprar um aparador mais alto para a coluna agradecer no final do dia.

A sala de serigrafia também será alterada. Preciso contratar um serralheiro para criar uma estrutura de apoio para as telas de serigrafia ficarem guardadas suspensas. Também uma estrutura para apoiar as telas de maneira horizontal para secar emulsão no escuro. A ideia é, também, investir em uma mesa de luz a vácuo para gravar as telas, eliminando a utilização de livros como peso, e até para gerar uma gravação mais precisa também. Além disso, adquirir mais dois berços de impressão de estampas e uma mesa mais extensa, para colocar as telas descansando enquanto imprime outras cores. Talvez essas mudanças serão o investimento mais alto no atelier, mas que, no final, vai valer muito a pena.

Na sala principal, a ideia é adquirir mais módulos de estantes para guardar o restante dos livros e mais algumas outras miudezas que estão sem espaço. O móvel da sala também será eliminado, pois não aguentou o peso dos discos de vinil e da televisão e cedeu em diversas partes. Ainda precisamos estudar as possibilidades nesse local.

No quarto de produção, preciso de mais módulos para guardar materiais, ou alguma estrutura tipo mapoteca de gavetas que suporte papéis e matrizes. Atualmente eu uso uma cômoda, que está comigo há mais de 15 anos, e recentemente ela também não aguentou o peso dos papéis, cedendo em diversas partes. A ideia da mapoteca é justamente comprar uma que suporte o peso, e que suporte papéis de grandes formatos, tipo A2, pois eu não tenho onde guardá-los. Também é necessário colocar uma mesa de vidro ou tábua de corte em cima da mesa de trabalho, para esticar tinta de gravura e cortar stencil. Também há a possibilidade de cortar stencil em algum suporte portátil, mas este precisa ser grande, pois estou com projetos megalomaníacos para produzir. Também é necessário a compra de cadeiras e bancos, preferencialmente dobráveis, que possam ser guardados. Há a necessidade, também, de pendurar os quadros nas paredes que não possuem infiltrações (tomando todo cuidado para não mofar os quadros), e construir suportes para os rolinhos de borracha e, assim, liberar os cabideiros para roupas, bolsas e aventais.

Na parte externa, necessito pintar o muro, e já estou olhando isso com alguns amigs para fazer um mural coletivo. Também, colocar plantas para aproveitar a área externa, bem como bancos , caso alguém queira situar-se por lá. Na área externa, também colocarei um tanque para lavar telas, já estou vendo isso com um amigo, e quando instalado, poderei limpar o chão, que anda encardido de tinta, emulsão e químico de serigrafia.

Para finalizar essa parte de reformas, preciso terminar a pintura das portas e janelas, iniciadas ano passado, e que foram descontinuadas. Também, pintar com stencil a parte interna para decorar o espaço, alguns padrões de tom sobre tom, estou estudando ainda como farei, mas acho que vai rolar.

Tudo isso, porque estou com muitos planos de produção e de aulas e quanto mais eu puder investir no espaço, mais eu boto fé que trabalharei. Eu gosto de fazer o que faço, e acho que isso tudo vai ajudar a dar um gás nas minhas ideias.

A Loja Online anda um pouco parada, mas em breve eu volto a colocar novidades.

Sobre o futuro

Uma das coisas que mais tem me incomodado nesses últimos dias é o fato de tentar compreender a minha total falta de interesse em seguir a carreira de professor. Já são vários anos trabalhando com educação não-formal, e desde o ano passado que estou no processo de me formar em licenciatura em artes visuais. E neste exato momento, penso que irei concluir apenas pelo fato de que eu devo terminar o que comecei, pois não tenho mais vontade de ser professor. Calma, não que eu queira parar de compartilhar minhas experiências, assim como o faço em programas, projetos sociais e em meu próprio atelier, mas me dá um certo pânico pensar no ambiente escolar, e como minha saúde fica debilitada ao tentar lidar com isso. Recentemente, em um momento de tensão, minha voz falhou dentro da sala de aula, enquanto tentávamos reprogramar 8 horas de oficinas, em um período de apenas 2 horas, pois a diretora da escola havia se esquecido que iríamos trabalhar naquela semana. Suei muito, e o desespero em tentar fazer as coisas de forma corrida não me deixaram trabalhar. Minha voz falhou, e por mais água que eu tomasse, já era tarde demais. Foram quase 2 dias sem conseguir emitir um som, e você não tem ideia do quanto eu queria falar. Algumas amigas ficaram preocupadas com a minha situação, e hoje eu fico lembrando que a minha voz também deixou de sair durante quase 2 semanas, neste mesmo ano de 2019.

Alguns fatores como stress, o desequilíbrio emocional/psicológico, afetam diretamente as cordas vocais, e eu não consigo desvincular parte dessa culpa ao processo educacional que eu tenho refletido por causa do meu TCC. Me causa um certo desespero pensar que eu, como um futuro professor da educação básica, terei que lidar com várias frustrações decorrentes do cotidiano escolar. Falta de estrutura, falta de materiais, falta de interesse, ser questionado pela instituição, por pais, por alunos, e por colegas de trabalho, carga horária de trabalho muito intensa, e compreender muito mais fatores negativos que positivos em todo esse sistema. Eu não quero buscar pequenas vitórias para me sentir satisfeito com meu trabalho, nem me dedicar a algo que traga essa carga de stress, que me fará gastar muito mais com terapias e tratamentos psicológicos, que com minha saúde preventiva.

Escrevendo meu TCC, começo a entender que a educação não-formal, apesar de insegura em termos financeiros, pois nem sempre há demanda, é algo que me traz satisfação. Um profissional precisa ter autonomia de trabalho, precisa ter liberdade de atuação. Somente assim se consegue desenvolver a ideia de uma educação que faça sentido.

A carga de pressão causada pelo ambiente escolar é algo que me desagrada, e eu realmente penso que ninguém deveria trabalhar nessas condições, ninguém.

Livros Usados

Já viram que está rolando uma seção de livros usados na Loja Virtual? Clique no link abaixo e veja as opções. Em breve eu vou atualizar com novas opções!!

 

https://laidea.minestore.com.br/categorias/livros-usados

 

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Existe vida além do shopping

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A enfermeira Fulana trocou o cinema pelo Netflix e cortou shows e teatro da rotina. Beltrana deixou de passear com os filhos em shoppings para ir a praças e parques públicos levando o próprio lanche.

Este trecho foi retirado do jornal “O Tempo” de 01/09, de uma matéria de capa que fala sobre crise financeira, cortas gastos e fazer bicos. Aparentemente nada de anormal na matéria, mas esse trecho em específico me fez repensar duas questões.

A primeira delas é “trocar o cinema e o teatro por Netflix”, como se ambos fossem exatamente a mesma coisa. No cinema (e eu digo bons cinemas, não esses de shoppings) você assiste a bons filmes, tem uma qualidade de som e imagem, ajuda a financiar filmes interessantes, muitas vezes independentes, que te fazem refletir sobre algo. Ao sair do cinema, você estará na rua, podem sentar-se em uma praça, conversar/debater sobre o filme, estreitar laços de amizade, ocupar o espaço urbano de uma maneira sadia. Ao sair do cinema, há milhões de outras programações gratuitas esperando público. No teatro a mesma coisa. Você colabora com grupos e artistas, com ideias, discussões, compreende o trabalho das várias pessoas envolvidas no processo da peça. Netflix é algo muito impessoal. Você assiste (há um pagamento também, porém mensal), geralmente compra algo em um desses aplicativos de comida (Rappi, iFood, UberEats, Glovo…), e logo depois vai dormir (ou fazer sexo, ou qualquer outra coisa). O que importa nessa minha fala é que tudo se repete, é sempre dentro de casa, local fechado, fazendo as mesmas coisas. A cidade é dominada por carros, enquanto deveria ser dominada por pessoas e atividades. E eu tenho minhas dúvidas se isso é realmente uma “economia”.

A segunda delas é o fato de que somente com uma crise financeira as pessoas descobrem que há uma vida urbana que vai além de shoppings centers e suas praças de alimentação e lojas. Ainda não consigo compreender a ideia de que as pessoas vão a esses lugares para passear, pois shoppings são locais de compra, tudo ali é pensado e planejado para que você compre. Praças e parques são locais de passeio, de descanso, de atividades ao ar livre, de encontros, de desfrute, de lazer. Eles foram feito e pensados para isso. São locais que quebram o caos e o cinza da cidade caótica, é onde você respira melhor, pode sentar-se e observar a movimentação da vida urbana. Belo Horizonte não é o lugar mais adequado para isso, eu sei, pois fora da Avenida do Contorno, a quantidade de praças e parques significativos é muito baixa. No bairro Padre Eustáquio, por exemplo, são consideradas praças uma rotatória e o estacionamento da igreja. Esses locais não possuem espaços verdes em abundância, nem locais satisfatórios para sentar e descansar, além de estarem situados em locais caóticos. Praças e parques significativos devem ocupar o espaço de um quarteirão, onde os moradores locais podem passear e descansar, podem exercitar-se, ler, observar, relaxar. Fugir desse caos que é BH. Você já parou para pensar se no seu bairro há praças ou parques que são significativos? Grandes e ocupados pelos moradores? Com áreas verdes, locais para sentar, gramado e arborizados?

Eu não culpo @s pais por levar os filhos para passear no shopping, afinal, tenho quase certeza que o bairro em que el@ mora não deve haver praças e nem parques. Eu até imagino el@ descendo para a garagem de seu prédio, entrando na SUV com os filhos, e dirigindo por BH buscando algum lugar em que ela consiga estacionar próximo a uma praça ou parque, para que os filhos possam se divertir. É difícil achar, sobretudo na área central, onde se concentram essas estruturas. “Espaços urbanos são perigosos, há muita gente, de diversas classes sociais, não há segurança, não há limpeza” dizem @s pais na minha imaginação, por isso el@ busca os shoppings. El@ paga um estacionamento e não existem flanelinhas. El@ desce do carro, caminha pelo estacionamento entre os carros, pois os estacionamentos não possuem locais seguros para pedestres (e aparentemente ninguém se incomoda com isso), e lá dentro há várias opções de vitrines para ver, filmes campeões de bilheteria, praça de alimentação com comida merda, ar condicionado, seguranças, e el@ realmente entende que aquele passeio é a melhor forma de entretenimento e lazer.

É uma lógica que eu não entendo.

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La Plata, Argentina. Fotografia aérea

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Belo Horizonte, Google Earth

La Plata é uma cidade em que, em teoria, serviu de base para o mapa urbano de Belo Horizonte. Uma coisa que me impressiona muito são as quantidades de áreas verdes e de regularidade viária que La Plata possui. Tenho dois amigos que fizeram intercâmbio lá e posso perguntar sobre a cidade para falar melhor posteriormente. Olhando do alto, Belo Horizonte possui pouquíssimos parques e praças, pois são coisas que, se feitas de forma significante, se destacam em meio ao cinza da área construída. A diferença é gritante. A área que corresponde ao bairro Padre Eustáquio nem demonstra sinal de que há algum espaço ali considerado praça ou parque. Onde estão as áreas verdes de BH? Esse processo de não haver espaços públicos de boa qualidade, amplos e acessíveis, talvez tenham feito com que os shoppings sejam mesmo os locais adequados para para passear. Há banheiros, chão regular, temperatura constante, locais para sentar-se, locais para comer… E Belo Horizonte se torna cada vez mais esse caos. Ninguém aguenta mais não. Transformaram em regra o que era para ser exceção. Enquanto seguir essa política urbana de construir praças em rotatórias, e fingir que há praças em estacionamentos de igrejas, a cidade seguirá essa masmorra. Dediquem 2  quarteirões em cada bairro para áreas verdes. Isso sim é qualidade de vida.

 

 

Adendo: BH se mostra carente de espaços públicos significativos, basta ver as ciclovias da cidade. Elas se tornam pistas de corrida e de caminhada. Não há espaços para a prática esportiva nos bairros.

Reflexões sobre a oficina no Memorial

No dia 27/07 eu fui convidado para propor uma oficina voltada para crianças no Memorial Minas Vale. Enviei duas propostas e a equipe do educativo curtiu a proposta de uma oficina de impressão de estêncil. Colocamos as diretrizes: média de idade entre 7 e 12 anos, público passante, estêncil com referências ao acervo do local, máximo de 15 pessoas na oficina para não tumultuar, oficina com 2 horas de duração. Tudo certo. Eu e minha esposa fomos ao Memorial fotografar algumas peças para usar de referência e tivemos várias surpresas. Não sei se é o meu preconceito com Museus e Galerias, ou com o Circuito da Pça da Liberdade, ou com as grandes empresas que dominam tudo, mas o local me impressionou bastante. Muitas obras sobre Minas Gerais, praticamente contando a história da Estado, tem pintura rupestre, objetos, maquetes, referências contemporâneas, literárias, tem coisa do Sebastião Salgado, sala multimídia… te confesso que me deu um certo pesar de não conhecer este espaço antes.

A oficina foi em um sábado e eu passei toda a sexta feira cortando estêncil para a oficina. A maior parte das matrizes foram sobre pinturas rupestres. Fiz também o mapa regional de Minas Gerais em três matrizes, fiz um de uma decoração do Memorial e outro de um objeto bem específico, mas que representa bastante MG.

Chegamos em ponto e começamos a arrumar a mesa. Alguns membros da equipe do educativo me auxiliaram durante o processo, bem como minha esposa, parte essencial da fluidez do trabalho.

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Logo foram chegando o público do museu, e muitos já chegavam cedo para a oficina, para não perder lugar. A partir daí foram as duas horas mais curtas pelas quais eu já passei na minha vida. Chegavam e chegavam pessoas, traziam seus filhos, perguntavam coisas, pediam papel, eu e Natália, minha esposa, naquela correria de tentar atender todo mundo, explicar como funcionam as técnicas de impressão, como fazer com a tinta, etc. Nusga, quando vi já estava quase na hora de encerrar a oficina. Crianças e adultos de todas as idades acabaram fazendo a oficina. Isso mesmo, não se limitou à faixa entre 7 e 12 anos. Tinham crianças mais novas, adolescentes, jovens, adultos, muitos pais fazendo acompanhando filhos mais novos, sobrinhos e sobrinhas, muitas pessoas de outros estados passaram por ali, e eu pensando em quão rica pode ser uma experiência assim em uma manhã de sábado. Uma mãe presente me disse que gosta de ir fazer essas oficinas porque são os momentos em que ela consegue distrair do cansaço do dia a dia. Outro pai foi ajudar o filho, e o filho não gostou, então ele mesmo foi fazer a pintura/impressão dele. Vários familiares perguntando sobre os materiais, pois viram que são coisas simples de se fazer, e que, apesar da bagunça, entretém as crianças muito mais que um celular brilhando na cara delas. Algumas crianças se sujavam, pintavam com as mãos, outras eram mais sérias, queriam fazer algo esteticamente interessante, outras fizeram várias composições. Cabuloso. Muitas crianças vieram me agradecer ao final da oficina, e nisso eu me derreto. Adoro quando me agradecem por algo que eu compartilhei/ensinei/ajudei. Talvez seja o grau de satisfação que me eleva e me faz entender que estou na área certa, apesar dos pesares.

Enfim, só tenho a agradecer a todxs que participaram e ajudaram nesse rolé. Foi muito massa.

Reflexões sobre proposta de material didático

Sobre a minha proposta intitulada “Experimento Desapego Cubista Coletivo” que foi planejada no último semestre, surgiram-me algumas questões no decorrer da aplicação, e que irei tentar refletir um pouco sobre. A ideia inicial era criar uma roda de desenho de observação com a composição ao centro, em que o suporte, o material, o sensitivo e o ângulo de visão do observador/desenhista alterariam a todo tempo, fazendo com que o processo seja coletivo e completamente despreocupado com a questão estética, focando muito mais no processo de observação e de produção, que no resultado em si. Essa troca de materiais era feita sempre com um comando meu, que estava na posição de professor.

A proposta foi colocada em sala de aula no ambiente universitário e aplicada para meus colegas de curso que, e eu agora compreendo, são muito mais abertos à experimentações artísticas que pessoas de outros contextos. Eu utilizei restos de materiais e de papéis, e distribuí diferentes canetas, canetinhas, marcadores, giz, lápis, etc. para todos. A princípio correu tudo muito bem, apesar de ter ficado um pouco longo demais. Após o término da atividade, alguns colegas fizeram observações interessantes e que me fizeram mudar, um pouco, a forma de aplicação da proposta. Alguns me falaram para dar autonomia de comando para outras pessoas da roda, para encurtar o tempo da proposta, para compreender outras formas de aplicação, e para adaptar tudo isso a um ambiente escolar.

O resultado foi bem interessante, mas um pouco longe do que seria o resultado esperado na minha proposta inicial. Como eu tinha imaginado, depois de um tempo, os observadores deixaram de prestar atenção na composição para se concentrar no que já estava desenhado no papel, e como eles iriam intervir naquele suporte dali em diante. Isso não foi uma surpresa para mim. O que me intrigou foram os relatos em que muitos já não queriam mais desenhar naquele suporte porque, assim, estragaria/atrapalharia o que já estava desenhado. Essa parte me deixou um pouco confuso, mas também intrigado, pois o desapego ao resultado era uma parte importante da proposta. Concentrar-se no processo, no que poderia ser feito, em como intervir dali em diante, era uma prática que eu esperava como forma de imaginação, de criatividade e uma fuga da questão formal da arte, com todas suas técnicas e pragmatismos. E acho que isso aconteceu até certo ponto, mas perdeu-se em determinado momento. A estética formal venceu.

Na última quinta-feira, 27/06, fomos a uma escola da rede municipal para aplicar, em um contexto escolar, as nossas propostas. Algumas dificuldades surgiram bem de imediato, como a quantidade de alunos, o formato/tamanho da sala e as carteiras. Foi completamente diferente trabalhar com 16 alunos universitários, estudantes de licenciatura em artes, e com 30 jovens da 8ª série. Por mais que eles foram bem receptivos comigo, com a proposta que eu levei e com meus colegas que estavam lá para me dar um suporte, conseguir uma organização foi complicado, sobretudo depois do recreio. A sala possuía um formato retangular, era estreita e a organização circular dos alunos ficou um pouco estranha. As carteiras ficaram grandes demais para esse círculo e, em certo ponto, atrapalharam a dinâmica da proposta. Foram distribuídos papéis aleatórios, marcadores, canetinhas, giz de cera e foi feita uma composição improvisada no centro da sala. Os alunos compreenderam bem a proposta, e estavam observando a composição enquanto desenhavam. A cada comando de troca de suporte, haviam gozações sobre os desenhos de outros colegas, e eu a todo tempo tentava lembrá-los que beleza é subjetiva, que depende de cada um, e que a beleza estética não era uma preocupação que devíamos ter ali, naquele momento.

Alguns compreenderam e seguiram fazendo a proposta, mas grande parte estava mais preocupada em encontrar “defeitos” no desenho alheio que realizar a proposta em si. Não que tenha sido frustrante, mas eu realmente esperava outra coisa. A questão de desenhar “bem” ou “mal” nunca me importou, e isso não faz parte das propostas que eu coloco nas oficinas que eu dou. Cada um desenvolve o desenho à sua maneira, e é isso que cria o seu estilo. É isso que cria a diversidade de traços, a diversidade de olhares e, para mim, é o que torna a arte interessante. Não me importo com rigor técnico em aulas de artes.

Em determinado momento, eu pedia para os observadores trocarem de lugar, para mudar um pouco o ângulo de visão, o ponto de vista. Foi nesse quesito que eu acho que as carteiras atrapalharam um pouco, pois com elas em círculos atrapalhavam a entrada e saída. Pode ter sido bom o fato de esse ter sido o tempo de descanso e de relaxamento entre eles, pois afastavam um pouco da proposta naquele trânsito caótico entre corpos, e isso é uma questão que eu ainda preciso pensar mais. Quase chegando na metade, eu nomeei um dos alunos para dar os comandos, e eles foram revezando entre si para dar 3 ou 4 comandos sobre a mudança de suporte e de material. Essa parte foi de total autonomia. Eles decidiam qual o comando, o tempo de permanência em cada comando, e quem seria o próximo a comandar. Achei bem interessante o fato de que não houve brigas e discussões nesse momento, e eles aceitavam numa boa o que o colega propunha.

Ao final da atividade, conversamos brevemente sobre o resultado, alguns ficaram com os desenhos, outros me devolveram. Os que ficaram, pegaram o suporte que eles mesmos iniciaram o desenho. Naquele momento já haviam várias intervenções e quase não dá para distinguir quem desenhou o que. Para eles, o que eles começaram era propriedade deles. Independente se outros interviram ali. O resultado do processo foi importante para eles. Talvez muito mais que o processo, que o desenvolvimento. E eu ainda preciso repensar a minha proposta para chegar a esse desapego. Acho que não consegui com nenhuma das duas aplicações. Ainda estamos presos ao formalismo técnico, à uma hierarquia estética. Mas fico feliz que tenha sido bem recebida por todos.

As fotos dos universitários e dos alunos do fundamental estão misturadas.

Tipo, tipo, tipo Colômbia. 10 horas em Bogotá.

Bogotá, capital colombiana, é um lugar que me surpreendeu muito. Passei menos de 10 horas na cidade, e só pude observar o caminho do Transmilênio do Aeroporto até La Candelaria, e um rápido passeio caminhando por este bairro que é o Centro Histórico. Uma coisa me surpreendeu logo de cara em Bogotá: a quantidade de ciclistas. Tem muita bicicleta em Bogotá, tem um sistema de ciclovias bem extenso, e é um daqueles rolés que você se apaixona à primeira vista e solta aquela famosa expressão “Eu moraria aqui numa boa!”.

Chegando no La Candelaria, ficamos rodando meio que sem rumo. Um bairro bonito, com arquitetura bem classicona, muuuuita arte urbana, muita gente nas ruas, muitos ciclistas, um trânsito meio intenso. Este bairro é muito colorido, ele é vivo e me pareceu um local interessante para colocar alguns stickers, para marcar minha passagem por lá.

Nos deu vontade de circular mais, conhecer outros lugares, subir o Cerro de Montserrat, mas tínhamos pouco dinheiro, precisávamos voltar ao aeroporto, e caminhando pelas ruas todo o tempo confundíamos passeio com a rua, por isso quase fomos atropelados por um ônibus. Foi um passeio muito curto. Basicamente conhecemos a vista do trajeto do Transmilênio, um pouco do bairro La Candelaria, e alguns poucos lugares de comidas típicas. Acho que vale um retorno à Bogotá para entender como funciona a cidade e ver realmente o que a cidade tem para oferecer.

¡Hasta Luego Bogotá! Nos vemos pronto!

Feira do Núcleo paNe!!

Olá amigxs, bom dia.

Dia 27/04, das 13h as 20h, eu participarei de uma Feira de Impressos na Usina da Cultura, no Centro Cultural Nordeste (Rua Dom Cabral, 765, Ipiranga). Será um dia cheio de atividades, com uma programação bem massa. Parte dos organizadores, também eram produtores do Mercado Faísca, que eu expus durante muito tempo, então pode ter certeza que o evento será fino.

Clique aqui para visualizar a página do evento no Facebook.

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Aguardo vocês lá!!

Pedalar sempre, desistir jamais!

Terça-feira, 19 de Março de 2019. Saio de casa, monto na minha bicicleta e sigo para meu atelier. Trajeto simples, apenas 6 km, alguns morros bem singelos. Enquanto pedalava, um ônibus me ultrapassou guardando uma distância que não era maior que a palma da minha mão. Susto na minha lateral esquerda. O motorista joga o ônibus na minha frente antes mesmo de terminar de me ultrapassar. Sou obrigado a reduzir e a jogar a bike em direção ao meio-fio. 5 metros adiante o motorista para em um ponto de ônibus. Eu o ultrapasso pela esquerda, soltando alguns xingamentos. Ele arranca e me ultrapassa de novo, desta vez mudando de faixa e me ultrapassando da maneira correta, porém volta a me fechar, me obrigando a frear bruscamente para não bater. 10 metros adiante o semáforo fecha, e eu volto a ultrapassá-lo. Paro na sua frente e tiro uma foto do ônibus. O motorista ria da minha cara. Eram 14:04 quando tirei a foto.

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Ônibus que tentou me atropelar

Eu pedalo no meio urbano desde 2008 e quase todos os dias eu passo por alguma situação semelhante. Esse caso de ontem eu sei que vai ficar marcado por ver a expressão sádica do motorista enquanto eu tirava foto do ônibus. Ele não se importava com a minha vida, e acho que nem se importaria se eu morresse. Seria um ciclista a menos ocupando as ruas. Ele queria me amedrontar. Assim como muitos outros motoristas querem me amedrontar, querem amedrontar outrxs ciclistas, e eu fico imaginando a razão disso tudo.

Trânsito não é guerra ou disputa, é locomoção. Você não precisa ser o mais rápido, nem o que é mais hábil ao mudar de faixas, nem aquele que consegue passar em espaços minúsculos sem encostar em algum outro objeto. Esse último sujeito, inclusive, é o pior para quem pedala, pois constantemente passam tirando tinta de nossas bikes, tirando pêlos dos nossos corpos, para parar em algum semáforo ou engarrafamento logo em seguida.

Os motoristas ditos profissionais são os piores. Estatisticamente, na minha cabeça, eu diria que 79% das tensões que eu passo no trânsito são causados ou têm o envolvimento de ônibus, transportes escolares, táxis, caminhonetes de pequeno porte e esses fuckin Uber. Essa galera dirige muito mal. Passam raspando próximos de ciclistas, nos fecham o tempo todo para buscar passageiros, aceleram na nossa traseira e buzinam o tempo todo, achando que nós vamos simplesmente desaparecer da rua ao escutar a buzina.

Escutem bem: EU NÃO ENTENDO O QUE A SUA BUZINA ATRÁS DE MIM SIGNIFICA!

Eu coleciono acidentes enquanto pedalo. Em duas oportunidades eu caí por entrar com a roda dianteira em bueiros que estavam abertos e eu não enxerguei a tempo de desviar; já caí escorregando em óleo de carro que estava na pista enquanto descia um morro; um carro uma vez saiu do acostamento sem dar seta, me pegou de lado e ainda passou por cima do meu tornozelo com a roda dianteira; e eu já fui atropelado por um ônibus, que simplesmente ignorou minha presença ali e me pegou por trás, em cheio. São muitas as situações que eu já presenciei, e felizmente estou vivo, firme e forte.

O discurso da bicicleta como meio de transporte não é para todxs. Essa frase pode soar estranha, e por muito tempo para mim a bicicleta foi a solução para o mundo. Não é mais. Em Belo Horizonte, utilizar a bicicleta como meio de transporte requer muito mais que vontade de ajudar o meio ambiente e ser saudável. Requer paciência, disposição, preparo físico e um psicológico muito estável para lidar com todas essas situações diárias. Os carros não querem nem saber se você vai seguir direto em uma Via ou se você vai fazer uma conversão à direita, eles simplesmente te esmagam contra o meio fio, te fecham a fazem a conversão à direita na sua frente. São 3 ou 4 segundos que o condutor do automóvel poderia esperar até que um ciclista passasse. Mas, pelo jeito, esses segundos são muito especiais e não podem ser perdidos.

Passei por tanta coisa, e a maioria das pessoas que eu conheço me dizem sempre o mesmo: “Mas BH não tem ciclovia, aí fica difícil pedalar!”. Discordo. BH é difícil de pedalar por que o asfalto é ruim, tem bueiro aberto, tem capa de costela e remendo o tempo todo, e não há respeito. E é nesse ponto que eu firmo o pé no chão contra as ciclovias ou ciclofaixas. Para mim, elas têm utilidade apenas em vias muito engarrafadas, que facilita para o ciclista ao invés de pedalar nos corredores dominados pelas motos. As ciclovias não possuem utilidade nenhuma, na minha opinião. Elas começam em lugares aleatórios, e terminam em lugares aleatórios. Elas possuem muitos obstáculos, muitas são em cima das calçadas, e os carros te fecham em toda entrada de garagem ou esquina, ignorando o fato de que a preferência é do ciclista.

Muitos carros fazem a ciclovia de acostamento. Muita gente coloca os sacos de lixo para a coleta na ciclovia. Todo o lixo jogado na rua vai para as ciclovias. O asfalto da ciclovia está sempre mal cuidado. Há uma quantidade enorme de pessoas caminhando e correndo nas ciclovias. Esse último fator está altamente relacionado com o fato de que as calçadas são horríveis e possuem muitos obstáculos, por isso os pedestres preferem transitar pela ciclovias, e não há pista de corrida para a galera que corre. Pedalar na ciclovia virou sinônimo de interrupção todo o tempo, são muitos obstáculos, nenhuma continuidade, e os mesmos perigos do trânsito comum. Além disso, quando termina o trajeto de uma ciclovia, o ciclista tem que ir para a rua do mesmo jeito.

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Van na ciclofaixa da Rua São Paulo

Só para você ter uma ideia, no meu trajeto de casa para um dos meus trabalhos, não há sequer uma ciclovia. São 12 km de ida no meio dos carros. Na maioria dos meus trajetos diários, há ciclovias em apenas algumas partes. Uma destas ciclovias está situada acima da calçada, e ela muda de lado da Avenida em 4 situações, obrigando o ciclista que transita nele a se portar como pedestre, atravessando na Faixa Zebrada para seguir viagem do outro lado. É bizarro!

Sou contra as ciclovias, mas sou a favor de um trânsito mais humano e respeitoso.

11 anos ocupando meu espaço nas ruas de bicicleta, e não vou parar.

A vida é desafio, já dizia Racionais…

Desde 2009 que eu trabalho com oficinas de arte, mas o trabalho com crianças, jovens e adolescentes é mais recente. Esse tipo de trabalho tem me dado um pouco de ansiedade em seu formato, pois são muitas dúvidas que eu tenho sobre minha atuação, e sobre os jovens que estudam comigo em alguns projetos.

Eu me considero uma pessoa paciente com a maioria das coisas. Acho que muitos processos possuem tempo certo para acontecer, e que tentar acelerar só o transformará em algo ruim, ou não prazeroso. Ter que fazer algo por obrigação torna o processo difícil, e saber que tudo o que você faz será julgado por terceiros também dificulta o processo. Na maioria das coisas que eu faço, tento fazer com tempo e paciência, para conseguir um resultado satisfatório.

Se eu colocar na minha cabeça que eu quero pedalar durante 6 horas seguidas, ou conquistar algum desafio do Strava, por exemplo, eu me preparo para isso, e dedico algum tempo para lograr com meus objetivos. Nem sempre consigo. Há fatores que às vezes me impedem de conseguir pedalar o quanto almejo. Problemas mecânicos, clima, preparo físico, acidentes… Mas não é por falta de paciência, e se não consigo eu entendo que eu me esforcei.

Na arte a mesma coisa. Posso passar horas, dias, semanas e meses trabalhando em uma única coisa, praticando, treinando, buscando alternativas para fazer um único trabalho, tudo feito de forma paciente, pensada, buscando um resultado que seja satisfatório para mim. Às vezes me dá uma agonia precisar criar uma estampa, por exemplo, e saber que ela ficará pronta só depois de algum tempo.

Eu me dedico. Eu pratico, eu treino, e busco aprender o que eu ainda não domino (se é que as técnicas podem ser dominadas). Acho que aí se encontra minha maior dificuldade como professor, educador, oficineiro. Para a maioria dos meus alunos, em apenas uma tarde de aulas eles já deveriam aprender tudo que é possível dentro de um técnica, já sair desenhando e pintando super bem, caprichado. Não se importam com o processo, com o treino, com a prática, com os estudos. Tudo deveria ser imediato. Eu tento pedir paciência, conto histórias sobre o meu processo, começando quando eu era bem novo, copiando com papel carbono os personagens de Cavaleiros do Zodíaco que estavam impressos em revistinhas. Demorou muito tempo até que eu conseguisse desenhar sem copiar. Demorou mais tempo ainda até que eu entendesse que isso é uma coisa que gosto, e que eu gostaria de aprender e compartilhar o conhecimento adquirido. Eu já devia ter meus 23 anos quando decidi cursar artes, mesmo sem saber desenhar. Na Universidade me sentia meio reprimido por estar ao lado de pessoas super talentosas, e eu nem chegava perto de ter habilidades como as de meus colegas.

Eu gostava do processo de produzir, mas não gostava de planejar, nem de criar. Sempre achava que eu estava aquém de todo mundo. Mas o fato de começar a ensinar me deu outra visão sobre tudo isso. Aprendi na marra que o processo é lento, e que devemos ser pacientes. Nunca tive a oportunidade de fazer um curso de desenho antes, meu olho não era treinado para isso, e só depois dos 27 que eu passei a compreender isso melhor.

A prática, o treino, o estudo e, principalmente, a paciência faz com que a gente consiga chegar onde queremos. Isso eu entendo perfeitamente bem. Mas eu ainda questiono como fazer com que xs jovens entendam isso? Tudo tem que ser imediato, tem que ser preciso. Eu realmente não sei como trabalhar isso com elxs. Recentemente eu proibi xs jovens de uma oficina minha de usar borracha, pois eles desmanchavam tudo o tempo todo. Ensinei a fazer esboços, planejar o desenho, ir tratando, fazendo acabamento e arrumando aos poucos, até conseguir chegar no resultado final. Foi uma oficina interessante. Elxs estavam aflitos por não poderem usar borracha, estavam ansiosos por causa da imagem toda embolada e rabiscada. Mas ficaram surpresos com o resultado final, acabado, limpo. Quando fui perguntar à elxs se eles gostaram, se foi interessante ter paciência e construir o desenho aos poucos, elxs me disseram que se tivessem borracha eles teriam feito igual, e de forma mais rápida. Eu sei que elxs não fariam igual, mas elxs não sabem disso. Independente do resultado, o processo delxs é rápido, curto, e talvez essa velocidade em fazer e desmanchar seja mais importante que o resultado final.

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Desenhando rostos

Pensei em fazer alguns trabalhos de desenho de forma mais livre e desapegada, mas eu ainda preciso encontrar uma maneira de fazê-los desapegar dessa coisa realista, desenho e borracha o tempo todo. Fico pensando em várias práticas que fizemos no ambiente Universitário de uma Escola de Artes, e fico pensando se daria certo. Afinal, em uma Escola de Artes, a maioria ali está disposto à esse tipo de experimentação, de reflexão e de discussão. Não sei se os jovens com quem eu trabalho teriam essa disposição de experimentar, de desapegar do desenho tradicional/clássico para surfar em outras ondas. Não sei se o espaço onde trabalhamos seria receptível à isso, pois na Universidade de Artes a maioria dos espaços são de experimentação e provocação. Dentro de uma comunidade, por exemplo, a moral e os costumes estão ligados à outros processos que não se abrem tanto para experimentações.

Ainda que a letra da música tenha pouco a ver com esse dilema onde me encontro, o título é bem propício: A Vida é desafio.

Subindo as camisas

Finalmente as camisas estão subindo para a Loja Online. Desde Abril de 2017 que eu estou nesse lenga-lenga, mas agora a parada é real. Já comprei envelopes plásticos para enviar via Correios, e finalmente estou usando as fotos de um ensaio que as minhas queridas amigas Raquel e Virgínia fotografaram para mim nessa época. Várixs migxs me ajudaram cedendo sua imagem e seu tempo para posar utilizando as camisas, e eu não poderia ser mais grato por tudo, Barrão, Iara, Biruta, Ludimila, Ludmila, Marcela, Iza, Nathan e Nat. Infelizmente o estoque está baixo, mas em breve eu compro mais camisas e faço novas levas de estampas. Na época eu fazia algumas estampas pintadas à mão, coisa que não faço mais…

 

Olha algumas fotos do ensaio, algumas estampas eu nem trabalho mais!!

 

 

Ainda falta fazer a medição das camisas e disponibilizar a tabela dos tamanhos e medidas para ficar mais claro os tamanhos no site. Essa semana eu farei isso, e já deixo tudo preparado!!

Oficina de Baren

Ontem rolou a primeira oficina de produção de baren tipo japonês. Apesar das 130 pessoas que acessaram o site de compra e inscrição, apenas duas realizaram o pagamento, e apenas uma compareceu.

Foi basicamente uma aula particular, e bem interessante no ponto em que eu fiquei muito mais próximo da aluna, que eu já conhecia, mas ainda com uma certa distância até então.

O programa foi bem simples. Apresentar os diversos tipos de barens e formas de impressão manual, iniciar a produção fazendo um bilhão de nós na linha; medir e cortar a fôrma da base; colar a linha nodulada; medir e cortar o pano do acabamento do baren.

Nesse ponto, paramos a produção para assistir a um vídeo em que um Mestre ensina a trabalhar com a folha de bambu para fazer o acabamento, e a forma como ele dá o nó final na folha para que ela fique firme. Houve uma breve conversa sobre as diferenças de materiais entre os barens, e logo retomamos com o processo de acabar e concluir o baren.

 

 

Como sempre acontece, houve uma pausa para o lanche, e logo colocamos a mão na massa para entintar matrizes e imprimir utilizando o Baren. Como a pressão da ferramenta e do braço atuam de forma diferente, é interessante compensar colocando uma quantidade maior de tinta na matriz, para que se consiga uma cor mais chapada/escura, sem fazer tanto esforço. Os orientais utilizam tinta a base de água no processo, e isso facilita o processo de impressão com baren. No caso da tinta gráfica, tudo deve ser adaptado.

Esse ano ainda acontecerão outras oficinas similares, espero que ainda em fevereiro eu consiga fechar as datas.

Tentando encontrar um rumo

2019 promete ser um ano interessante. Muita coisa já está se organizando, e todos os dias acabam me empolgando um pouco mais. Ano passado eu fui desligado das oficinas das Medidas Socio-educativas. Foi um tempo interessante, mas muito limitador no sentido artístico. É difícil trabalhar a expressão limitando o que pode ser expresso. Enfim, bola pra frente, porque isso me deu várias outras ideias.

Cursos e Oficinas Livres

Quando falo sobre cursos e oficinas livres quero dizer às atividades que pretendo colocar em prática no meu atelier, meu espaço de trabalho. Aos poucos estou conseguindo equipar o local, e muitas são as opções de cursos que posso oferecer por lá. A ideia é ofertar atividades em todos os meses do ano. Ensinar e compartilhar experiências é a melhor forma de aprender, de evoluir, de desenvolver mais as habilidades e de descobrir coisas novas, e são oportunidades que não posso deixar escapar. Eu sei que nem sempre haverá pessoas interessadas, por falta de tempo, dinheiro, ou por não querer mesmo participar de algo, mas movimentar essas coisas me deixam mais animado com todo esse processo.

Docências e a Educação

Esse semestre eu decidi que não iria fazer Estágio Obrigatório, disciplina obrigatória nos cursos de Licenciatura da UFMG. Ao invés de acompanhar algum professor em seu dia a dia na escola, vou participar do processo de Designação para dar aulas em Escolas Estaduais. Acho que a experiência vai ser muito mais rica e desafiadora. Também porque eu faço parte do PIBID, e lá eu já acompanho aulas de artes com outra professora, além de termos discussões sobre nossos processos e vivências no ambiente escolar. Vão ser experiências complementares e, se tudo der certo, até o fim do ano eu sigo nesse processo.

Oficinas Externas

Nesse caso me refiro à prestação de serviços de oficinas e cursos fora do meu ambiente habitual de trabalho. Em 2019 eu comecei a trabalhar no Programa Fica Vivo! de Prevenção à Homicídio. São oficinas realizadas dentro de um Aglomerado de BH, que são de artes visuais e intervenções urbanas. A ideia é compartilhar com xs jovens técnicas que vão desde o primórdio dos desenhos, da gravura, exercendo a livre expressão, a crítica, as noções básicas sobre a imagem, até a intervenção no espaço urbano com grafite, estêncil, murais, cartazes, lettering, etc. Poder trabalhar várias formas de produção, e não se limitar a apenas uma.

Estampas

Para esse ano estou com ideias de lançar uma coleção nova de estampas para as camisas. Já estou buscando novos fornecedores de camisas para conseguir um material melhor, com uma modelagem melhor, e fazer um produto de alta qualidade. Além de trabalhar com as minhas próprias estampas, já estou conversando com alguns artistas de BH para algumas colaborações e, assim, termos camisas com estampas variadas, para agradar a vários gostos, e ajudar a divulgar nossos trabalhos de forma coletiva.

Gravuras

Estou retomando minha produção de gravuras também. Inicialmente vou focar um pouco na xilogravura, na linoleogravura e na serigrafia, pois são as técnicas que mais tenho acesso, e que eu poderei manipular meu tempo com maior facilidade. Faz tempo que busco criar algo novo na minha produção, e faz tempo que esse “novo” não vem. Então eu decidi continuar trabalhando o que eu já trabalhava, para maquinar as coisas a partir daí, e não ficar estático como eu estava. Apesar do tempo corrido, ficar parado não ajuda em nada.

Gastos

Infelizmente tudo nessa jornada tem seu preço, e toda vez que consigo investir em algo, surge outra coisa para investir também. Meu atelier ainda faltam alguns móveis e algo de infra estrutura, talvez alguns equipamentos. Mas isso vamos deixando mais para frente, já que sempre que eu posso compro algo que preciso para lá. O processo é lento, e estou tentando me ater à essa regra para não me endividar. Aos poucos, com esses cursos, vou juntando dinheiro para investir no atelier e deixar um lugar melhor e mais agradável, em todos os sentidos.

Site

Em 2019 pretendo colocar no ar a Loja Online, essa que fica no Menu aqui ao lado e que nunca está disponível. O que acontece é que eu ainda não organizei os produtos que irão ser vendidos. E já passou da hora d’eu criar vergonha na cara e fazer isso. Até para vender os Cursos e Oficinas através da Loja e não do Sympla (que cobra 10% do valor do curso), pois assim as pessoas podem querer adquirir vários produtos juntos, utilizando métodos de compra como PayPal ou PagSeguro, e poder pagar em até 3x sem juros (coisa que o Sympla não faz). Eu comecei a trabalhar um pouco lá na loja online e, se tudo der certo, esse mês ainda ele entra no ar.

 

Acho que é isso por enquanto. Não sei como vou conciliar isso tudo com duas matérias na Licenciatura da UFMG, início do TCC, e deslocamentos de bicicleta, mas 2019 promete muita coisa, e vou aproveitar minha empolgação para ir junto.