Mais planos

Chegando na reta final de apresentação do TCC, prestes a me formar em Licenciatura em Artes Visuais, o planejamento para os próximos meses começa a maquinar na minha cabeça. Eu já estava pensando em algumas mudanças na estrutura e mobiliário do meu atelier, com a finalidade de liberar espaço para adquirir novos equipamentos e aproveitar melhor o espaço ocioso em alguns lugares.

Começando pela cozinha, necessito urgentemente de um armário ou despensa para guardar utensílios domésticos e mantimentos. Já estamos olhando isso e é capaz da gente adquirir algo barato, para quebrar o galho até conseguirmos uma estrutura melhor. Também é necessário equipar o espaço para a produção de chocolates e bombons, comprar um aparador mais alto para a coluna agradecer no final do dia.

A sala de serigrafia também será alterada. Preciso contratar um serralheiro para criar uma estrutura de apoio para as telas de serigrafia ficarem guardadas suspensas. Também uma estrutura para apoiar as telas de maneira horizontal para secar emulsão no escuro. A ideia é, também, investir em uma mesa de luz a vácuo para gravar as telas, eliminando a utilização de livros como peso, e até para gerar uma gravação mais precisa também. Além disso, adquirir mais dois berços de impressão de estampas e uma mesa mais extensa, para colocar as telas descansando enquanto imprime outras cores. Talvez essas mudanças serão o investimento mais alto no atelier, mas que, no final, vai valer muito a pena.

Na sala principal, a ideia é adquirir mais módulos de estantes para guardar o restante dos livros e mais algumas outras miudezas que estão sem espaço. O móvel da sala também será eliminado, pois não aguentou o peso dos discos de vinil e da televisão e cedeu em diversas partes. Ainda precisamos estudar as possibilidades nesse local.

No quarto de produção, preciso de mais módulos para guardar materiais, ou alguma estrutura tipo mapoteca de gavetas que suporte papéis e matrizes. Atualmente eu uso uma cômoda, que está comigo há mais de 15 anos, e recentemente ela também não aguentou o peso dos papéis, cedendo em diversas partes. A ideia da mapoteca é justamente comprar uma que suporte o peso, e que suporte papéis de grandes formatos, tipo A2, pois eu não tenho onde guardá-los. Também é necessário colocar uma mesa de vidro ou tábua de corte em cima da mesa de trabalho, para esticar tinta de gravura e cortar stencil. Também há a possibilidade de cortar stencil em algum suporte portátil, mas este precisa ser grande, pois estou com projetos megalomaníacos para produzir. Também é necessário a compra de cadeiras e bancos, preferencialmente dobráveis, que possam ser guardados. Há a necessidade, também, de pendurar os quadros nas paredes que não possuem infiltrações (tomando todo cuidado para não mofar os quadros), e construir suportes para os rolinhos de borracha e, assim, liberar os cabideiros para roupas, bolsas e aventais.

Na parte externa, necessito pintar o muro, e já estou olhando isso com alguns amigs para fazer um mural coletivo. Também, colocar plantas para aproveitar a área externa, bem como bancos , caso alguém queira situar-se por lá. Na área externa, também colocarei um tanque para lavar telas, já estou vendo isso com um amigo, e quando instalado, poderei limpar o chão, que anda encardido de tinta, emulsão e químico de serigrafia.

Para finalizar essa parte de reformas, preciso terminar a pintura das portas e janelas, iniciadas ano passado, e que foram descontinuadas. Também, pintar com stencil a parte interna para decorar o espaço, alguns padrões de tom sobre tom, estou estudando ainda como farei, mas acho que vai rolar.

Tudo isso, porque estou com muitos planos de produção e de aulas e quanto mais eu puder investir no espaço, mais eu boto fé que trabalharei. Eu gosto de fazer o que faço, e acho que isso tudo vai ajudar a dar um gás nas minhas ideias.

A Loja Online anda um pouco parada, mas em breve eu volto a colocar novidades.

Sobre o futuro

Uma das coisas que mais tem me incomodado nesses últimos dias é o fato de tentar compreender a minha total falta de interesse em seguir a carreira de professor. Já são vários anos trabalhando com educação não-formal, e desde o ano passado que estou no processo de me formar em licenciatura em artes visuais. E neste exato momento, penso que irei concluir apenas pelo fato de que eu devo terminar o que comecei, pois não tenho mais vontade de ser professor. Calma, não que eu queira parar de compartilhar minhas experiências, assim como o faço em programas, projetos sociais e em meu próprio atelier, mas me dá um certo pânico pensar no ambiente escolar, e como minha saúde fica debilitada ao tentar lidar com isso. Recentemente, em um momento de tensão, minha voz falhou dentro da sala de aula, enquanto tentávamos reprogramar 8 horas de oficinas, em um período de apenas 2 horas, pois a diretora da escola havia se esquecido que iríamos trabalhar naquela semana. Suei muito, e o desespero em tentar fazer as coisas de forma corrida não me deixaram trabalhar. Minha voz falhou, e por mais água que eu tomasse, já era tarde demais. Foram quase 2 dias sem conseguir emitir um som, e você não tem ideia do quanto eu queria falar. Algumas amigas ficaram preocupadas com a minha situação, e hoje eu fico lembrando que a minha voz também deixou de sair durante quase 2 semanas, neste mesmo ano de 2019.

Alguns fatores como stress, o desequilíbrio emocional/psicológico, afetam diretamente as cordas vocais, e eu não consigo desvincular parte dessa culpa ao processo educacional que eu tenho refletido por causa do meu TCC. Me causa um certo desespero pensar que eu, como um futuro professor da educação básica, terei que lidar com várias frustrações decorrentes do cotidiano escolar. Falta de estrutura, falta de materiais, falta de interesse, ser questionado pela instituição, por pais, por alunos, e por colegas de trabalho, carga horária de trabalho muito intensa, e compreender muito mais fatores negativos que positivos em todo esse sistema. Eu não quero buscar pequenas vitórias para me sentir satisfeito com meu trabalho, nem me dedicar a algo que traga essa carga de stress, que me fará gastar muito mais com terapias e tratamentos psicológicos, que com minha saúde preventiva.

Escrevendo meu TCC, começo a entender que a educação não-formal, apesar de insegura em termos financeiros, pois nem sempre há demanda, é algo que me traz satisfação. Um profissional precisa ter autonomia de trabalho, precisa ter liberdade de atuação. Somente assim se consegue desenvolver a ideia de uma educação que faça sentido.

A carga de pressão causada pelo ambiente escolar é algo que me desagrada, e eu realmente penso que ninguém deveria trabalhar nessas condições, ninguém.

Existe vida além do shopping

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A enfermeira Fulana trocou o cinema pelo Netflix e cortou shows e teatro da rotina. Beltrana deixou de passear com os filhos em shoppings para ir a praças e parques públicos levando o próprio lanche.

Este trecho foi retirado do jornal “O Tempo” de 01/09, de uma matéria de capa que fala sobre crise financeira, cortas gastos e fazer bicos. Aparentemente nada de anormal na matéria, mas esse trecho em específico me fez repensar duas questões.

A primeira delas é “trocar o cinema e o teatro por Netflix”, como se ambos fossem exatamente a mesma coisa. No cinema (e eu digo bons cinemas, não esses de shoppings) você assiste a bons filmes, tem uma qualidade de som e imagem, ajuda a financiar filmes interessantes, muitas vezes independentes, que te fazem refletir sobre algo. Ao sair do cinema, você estará na rua, podem sentar-se em uma praça, conversar/debater sobre o filme, estreitar laços de amizade, ocupar o espaço urbano de uma maneira sadia. Ao sair do cinema, há milhões de outras programações gratuitas esperando público. No teatro a mesma coisa. Você colabora com grupos e artistas, com ideias, discussões, compreende o trabalho das várias pessoas envolvidas no processo da peça. Netflix é algo muito impessoal. Você assiste (há um pagamento também, porém mensal), geralmente compra algo em um desses aplicativos de comida (Rappi, iFood, UberEats, Glovo…), e logo depois vai dormir (ou fazer sexo, ou qualquer outra coisa). O que importa nessa minha fala é que tudo se repete, é sempre dentro de casa, local fechado, fazendo as mesmas coisas. A cidade é dominada por carros, enquanto deveria ser dominada por pessoas e atividades. E eu tenho minhas dúvidas se isso é realmente uma “economia”.

A segunda delas é o fato de que somente com uma crise financeira as pessoas descobrem que há uma vida urbana que vai além de shoppings centers e suas praças de alimentação e lojas. Ainda não consigo compreender a ideia de que as pessoas vão a esses lugares para passear, pois shoppings são locais de compra, tudo ali é pensado e planejado para que você compre. Praças e parques são locais de passeio, de descanso, de atividades ao ar livre, de encontros, de desfrute, de lazer. Eles foram feito e pensados para isso. São locais que quebram o caos e o cinza da cidade caótica, é onde você respira melhor, pode sentar-se e observar a movimentação da vida urbana. Belo Horizonte não é o lugar mais adequado para isso, eu sei, pois fora da Avenida do Contorno, a quantidade de praças e parques significativos é muito baixa. No bairro Padre Eustáquio, por exemplo, são consideradas praças uma rotatória e o estacionamento da igreja. Esses locais não possuem espaços verdes em abundância, nem locais satisfatórios para sentar e descansar, além de estarem situados em locais caóticos. Praças e parques significativos devem ocupar o espaço de um quarteirão, onde os moradores locais podem passear e descansar, podem exercitar-se, ler, observar, relaxar. Fugir desse caos que é BH. Você já parou para pensar se no seu bairro há praças ou parques que são significativos? Grandes e ocupados pelos moradores? Com áreas verdes, locais para sentar, gramado e arborizados?

Eu não culpo @s pais por levar os filhos para passear no shopping, afinal, tenho quase certeza que o bairro em que el@ mora não deve haver praças e nem parques. Eu até imagino el@ descendo para a garagem de seu prédio, entrando na SUV com os filhos, e dirigindo por BH buscando algum lugar em que ela consiga estacionar próximo a uma praça ou parque, para que os filhos possam se divertir. É difícil achar, sobretudo na área central, onde se concentram essas estruturas. “Espaços urbanos são perigosos, há muita gente, de diversas classes sociais, não há segurança, não há limpeza” dizem @s pais na minha imaginação, por isso el@ busca os shoppings. El@ paga um estacionamento e não existem flanelinhas. El@ desce do carro, caminha pelo estacionamento entre os carros, pois os estacionamentos não possuem locais seguros para pedestres (e aparentemente ninguém se incomoda com isso), e lá dentro há várias opções de vitrines para ver, filmes campeões de bilheteria, praça de alimentação com comida merda, ar condicionado, seguranças, e el@ realmente entende que aquele passeio é a melhor forma de entretenimento e lazer.

É uma lógica que eu não entendo.

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La Plata, Argentina. Fotografia aérea
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Belo Horizonte, Google Earth

La Plata é uma cidade em que, em teoria, serviu de base para o mapa urbano de Belo Horizonte. Uma coisa que me impressiona muito são as quantidades de áreas verdes e de regularidade viária que La Plata possui. Tenho dois amigos que fizeram intercâmbio lá e posso perguntar sobre a cidade para falar melhor posteriormente. Olhando do alto, Belo Horizonte possui pouquíssimos parques e praças, pois são coisas que, se feitas de forma significante, se destacam em meio ao cinza da área construída. A diferença é gritante. A área que corresponde ao bairro Padre Eustáquio nem demonstra sinal de que há algum espaço ali considerado praça ou parque. Onde estão as áreas verdes de BH? Esse processo de não haver espaços públicos de boa qualidade, amplos e acessíveis, talvez tenham feito com que os shoppings sejam mesmo os locais adequados para para passear. Há banheiros, chão regular, temperatura constante, locais para sentar-se, locais para comer… E Belo Horizonte se torna cada vez mais esse caos. Ninguém aguenta mais não. Transformaram em regra o que era para ser exceção. Enquanto seguir essa política urbana de construir praças em rotatórias, e fingir que há praças em estacionamentos de igrejas, a cidade seguirá essa masmorra. Dediquem 2  quarteirões em cada bairro para áreas verdes. Isso sim é qualidade de vida.

 

 

Adendo: BH se mostra carente de espaços públicos significativos, basta ver as ciclovias da cidade. Elas se tornam pistas de corrida e de caminhada. Não há espaços para a prática esportiva nos bairros.

Reflexões sobre a oficina no Memorial

No dia 27/07 eu fui convidado para propor uma oficina voltada para crianças no Memorial Minas Vale. Enviei duas propostas e a equipe do educativo curtiu a proposta de uma oficina de impressão de estêncil. Colocamos as diretrizes: média de idade entre 7 e 12 anos, público passante, estêncil com referências ao acervo do local, máximo de 15 pessoas na oficina para não tumultuar, oficina com 2 horas de duração. Tudo certo. Eu e minha esposa fomos ao Memorial fotografar algumas peças para usar de referência e tivemos várias surpresas. Não sei se é o meu preconceito com Museus e Galerias, ou com o Circuito da Pça da Liberdade, ou com as grandes empresas que dominam tudo, mas o local me impressionou bastante. Muitas obras sobre Minas Gerais, praticamente contando a história da Estado, tem pintura rupestre, objetos, maquetes, referências contemporâneas, literárias, tem coisa do Sebastião Salgado, sala multimídia… te confesso que me deu um certo pesar de não conhecer este espaço antes.

A oficina foi em um sábado e eu passei toda a sexta feira cortando estêncil para a oficina. A maior parte das matrizes foram sobre pinturas rupestres. Fiz também o mapa regional de Minas Gerais em três matrizes, fiz um de uma decoração do Memorial e outro de um objeto bem específico, mas que representa bastante MG.

Chegamos em ponto e começamos a arrumar a mesa. Alguns membros da equipe do educativo me auxiliaram durante o processo, bem como minha esposa, parte essencial da fluidez do trabalho.

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Logo foram chegando o público do museu, e muitos já chegavam cedo para a oficina, para não perder lugar. A partir daí foram as duas horas mais curtas pelas quais eu já passei na minha vida. Chegavam e chegavam pessoas, traziam seus filhos, perguntavam coisas, pediam papel, eu e Natália, minha esposa, naquela correria de tentar atender todo mundo, explicar como funcionam as técnicas de impressão, como fazer com a tinta, etc. Nusga, quando vi já estava quase na hora de encerrar a oficina. Crianças e adultos de todas as idades acabaram fazendo a oficina. Isso mesmo, não se limitou à faixa entre 7 e 12 anos. Tinham crianças mais novas, adolescentes, jovens, adultos, muitos pais fazendo acompanhando filhos mais novos, sobrinhos e sobrinhas, muitas pessoas de outros estados passaram por ali, e eu pensando em quão rica pode ser uma experiência assim em uma manhã de sábado. Uma mãe presente me disse que gosta de ir fazer essas oficinas porque são os momentos em que ela consegue distrair do cansaço do dia a dia. Outro pai foi ajudar o filho, e o filho não gostou, então ele mesmo foi fazer a pintura/impressão dele. Vários familiares perguntando sobre os materiais, pois viram que são coisas simples de se fazer, e que, apesar da bagunça, entretém as crianças muito mais que um celular brilhando na cara delas. Algumas crianças se sujavam, pintavam com as mãos, outras eram mais sérias, queriam fazer algo esteticamente interessante, outras fizeram várias composições. Cabuloso. Muitas crianças vieram me agradecer ao final da oficina, e nisso eu me derreto. Adoro quando me agradecem por algo que eu compartilhei/ensinei/ajudei. Talvez seja o grau de satisfação que me eleva e me faz entender que estou na área certa, apesar dos pesares.

Enfim, só tenho a agradecer a todxs que participaram e ajudaram nesse rolé. Foi muito massa.

Reflexões sobre proposta de material didático

Sobre a minha proposta intitulada “Experimento Desapego Cubista Coletivo” que foi planejada no último semestre, surgiram-me algumas questões no decorrer da aplicação, e que irei tentar refletir um pouco sobre. A ideia inicial era criar uma roda de desenho de observação com a composição ao centro, em que o suporte, o material, o sensitivo e o ângulo de visão do observador/desenhista alterariam a todo tempo, fazendo com que o processo seja coletivo e completamente despreocupado com a questão estética, focando muito mais no processo de observação e de produção, que no resultado em si. Essa troca de materiais era feita sempre com um comando meu, que estava na posição de professor.

A proposta foi colocada em sala de aula no ambiente universitário e aplicada para meus colegas de curso que, e eu agora compreendo, são muito mais abertos à experimentações artísticas que pessoas de outros contextos. Eu utilizei restos de materiais e de papéis, e distribuí diferentes canetas, canetinhas, marcadores, giz, lápis, etc. para todos. A princípio correu tudo muito bem, apesar de ter ficado um pouco longo demais. Após o término da atividade, alguns colegas fizeram observações interessantes e que me fizeram mudar, um pouco, a forma de aplicação da proposta. Alguns me falaram para dar autonomia de comando para outras pessoas da roda, para encurtar o tempo da proposta, para compreender outras formas de aplicação, e para adaptar tudo isso a um ambiente escolar.

O resultado foi bem interessante, mas um pouco longe do que seria o resultado esperado na minha proposta inicial. Como eu tinha imaginado, depois de um tempo, os observadores deixaram de prestar atenção na composição para se concentrar no que já estava desenhado no papel, e como eles iriam intervir naquele suporte dali em diante. Isso não foi uma surpresa para mim. O que me intrigou foram os relatos em que muitos já não queriam mais desenhar naquele suporte porque, assim, estragaria/atrapalharia o que já estava desenhado. Essa parte me deixou um pouco confuso, mas também intrigado, pois o desapego ao resultado era uma parte importante da proposta. Concentrar-se no processo, no que poderia ser feito, em como intervir dali em diante, era uma prática que eu esperava como forma de imaginação, de criatividade e uma fuga da questão formal da arte, com todas suas técnicas e pragmatismos. E acho que isso aconteceu até certo ponto, mas perdeu-se em determinado momento. A estética formal venceu.

Na última quinta-feira, 27/06, fomos a uma escola da rede municipal para aplicar, em um contexto escolar, as nossas propostas. Algumas dificuldades surgiram bem de imediato, como a quantidade de alunos, o formato/tamanho da sala e as carteiras. Foi completamente diferente trabalhar com 16 alunos universitários, estudantes de licenciatura em artes, e com 30 jovens da 8ª série. Por mais que eles foram bem receptivos comigo, com a proposta que eu levei e com meus colegas que estavam lá para me dar um suporte, conseguir uma organização foi complicado, sobretudo depois do recreio. A sala possuía um formato retangular, era estreita e a organização circular dos alunos ficou um pouco estranha. As carteiras ficaram grandes demais para esse círculo e, em certo ponto, atrapalharam a dinâmica da proposta. Foram distribuídos papéis aleatórios, marcadores, canetinhas, giz de cera e foi feita uma composição improvisada no centro da sala. Os alunos compreenderam bem a proposta, e estavam observando a composição enquanto desenhavam. A cada comando de troca de suporte, haviam gozações sobre os desenhos de outros colegas, e eu a todo tempo tentava lembrá-los que beleza é subjetiva, que depende de cada um, e que a beleza estética não era uma preocupação que devíamos ter ali, naquele momento.

Alguns compreenderam e seguiram fazendo a proposta, mas grande parte estava mais preocupada em encontrar “defeitos” no desenho alheio que realizar a proposta em si. Não que tenha sido frustrante, mas eu realmente esperava outra coisa. A questão de desenhar “bem” ou “mal” nunca me importou, e isso não faz parte das propostas que eu coloco nas oficinas que eu dou. Cada um desenvolve o desenho à sua maneira, e é isso que cria o seu estilo. É isso que cria a diversidade de traços, a diversidade de olhares e, para mim, é o que torna a arte interessante. Não me importo com rigor técnico em aulas de artes.

Em determinado momento, eu pedia para os observadores trocarem de lugar, para mudar um pouco o ângulo de visão, o ponto de vista. Foi nesse quesito que eu acho que as carteiras atrapalharam um pouco, pois com elas em círculos atrapalhavam a entrada e saída. Pode ter sido bom o fato de esse ter sido o tempo de descanso e de relaxamento entre eles, pois afastavam um pouco da proposta naquele trânsito caótico entre corpos, e isso é uma questão que eu ainda preciso pensar mais. Quase chegando na metade, eu nomeei um dos alunos para dar os comandos, e eles foram revezando entre si para dar 3 ou 4 comandos sobre a mudança de suporte e de material. Essa parte foi de total autonomia. Eles decidiam qual o comando, o tempo de permanência em cada comando, e quem seria o próximo a comandar. Achei bem interessante o fato de que não houve brigas e discussões nesse momento, e eles aceitavam numa boa o que o colega propunha.

Ao final da atividade, conversamos brevemente sobre o resultado, alguns ficaram com os desenhos, outros me devolveram. Os que ficaram, pegaram o suporte que eles mesmos iniciaram o desenho. Naquele momento já haviam várias intervenções e quase não dá para distinguir quem desenhou o que. Para eles, o que eles começaram era propriedade deles. Independente se outros interviram ali. O resultado do processo foi importante para eles. Talvez muito mais que o processo, que o desenvolvimento. E eu ainda preciso repensar a minha proposta para chegar a esse desapego. Acho que não consegui com nenhuma das duas aplicações. Ainda estamos presos ao formalismo técnico, à uma hierarquia estética. Mas fico feliz que tenha sido bem recebida por todos.

As fotos dos universitários e dos alunos do fundamental estão misturadas.

Tipo, tipo, tipo Colômbia. 10 horas em Bogotá.

Bogotá, capital colombiana, é um lugar que me surpreendeu muito. Passei menos de 10 horas na cidade, e só pude observar o caminho do Transmilênio do Aeroporto até La Candelaria, e um rápido passeio caminhando por este bairro que é o Centro Histórico. Uma coisa me surpreendeu logo de cara em Bogotá: a quantidade de ciclistas. Tem muita bicicleta em Bogotá, tem um sistema de ciclovias bem extenso, e é um daqueles rolés que você se apaixona à primeira vista e solta aquela famosa expressão “Eu moraria aqui numa boa!”.

Chegando no La Candelaria, ficamos rodando meio que sem rumo. Um bairro bonito, com arquitetura bem classicona, muuuuita arte urbana, muita gente nas ruas, muitos ciclistas, um trânsito meio intenso. Este bairro é muito colorido, ele é vivo e me pareceu um local interessante para colocar alguns stickers, para marcar minha passagem por lá.

Nos deu vontade de circular mais, conhecer outros lugares, subir o Cerro de Montserrat, mas tínhamos pouco dinheiro, precisávamos voltar ao aeroporto, e caminhando pelas ruas todo o tempo confundíamos passeio com a rua, por isso quase fomos atropelados por um ônibus. Foi um passeio muito curto. Basicamente conhecemos a vista do trajeto do Transmilênio, um pouco do bairro La Candelaria, e alguns poucos lugares de comidas típicas. Acho que vale um retorno à Bogotá para entender como funciona a cidade e ver realmente o que a cidade tem para oferecer.

¡Hasta Luego Bogotá! Nos vemos pronto!

Pedalar sempre, desistir jamais!

Terça-feira, 19 de Março de 2019. Saio de casa, monto na minha bicicleta e sigo para meu atelier. Trajeto simples, apenas 6 km, alguns morros bem singelos. Enquanto pedalava, um ônibus me ultrapassou guardando uma distância que não era maior que a palma da minha mão. Susto na minha lateral esquerda. O motorista joga o ônibus na minha frente antes mesmo de terminar de me ultrapassar. Sou obrigado a reduzir e a jogar a bike em direção ao meio-fio. 5 metros adiante o motorista para em um ponto de ônibus. Eu o ultrapasso pela esquerda, soltando alguns xingamentos. Ele arranca e me ultrapassa de novo, desta vez mudando de faixa e me ultrapassando da maneira correta, porém volta a me fechar, me obrigando a frear bruscamente para não bater. 10 metros adiante o semáforo fecha, e eu volto a ultrapassá-lo. Paro na sua frente e tiro uma foto do ônibus. O motorista ria da minha cara. Eram 14:04 quando tirei a foto.

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Ônibus que tentou me atropelar

Eu pedalo no meio urbano desde 2008 e quase todos os dias eu passo por alguma situação semelhante. Esse caso de ontem eu sei que vai ficar marcado por ver a expressão sádica do motorista enquanto eu tirava foto do ônibus. Ele não se importava com a minha vida, e acho que nem se importaria se eu morresse. Seria um ciclista a menos ocupando as ruas. Ele queria me amedrontar. Assim como muitos outros motoristas querem me amedrontar, querem amedrontar outrxs ciclistas, e eu fico imaginando a razão disso tudo.

Trânsito não é guerra ou disputa, é locomoção. Você não precisa ser o mais rápido, nem o que é mais hábil ao mudar de faixas, nem aquele que consegue passar em espaços minúsculos sem encostar em algum outro objeto. Esse último sujeito, inclusive, é o pior para quem pedala, pois constantemente passam tirando tinta de nossas bikes, tirando pêlos dos nossos corpos, para parar em algum semáforo ou engarrafamento logo em seguida.

Os motoristas ditos profissionais são os piores. Estatisticamente, na minha cabeça, eu diria que 79% das tensões que eu passo no trânsito são causados ou têm o envolvimento de ônibus, transportes escolares, táxis, caminhonetes de pequeno porte e esses fuckin Uber. Essa galera dirige muito mal. Passam raspando próximos de ciclistas, nos fecham o tempo todo para buscar passageiros, aceleram na nossa traseira e buzinam o tempo todo, achando que nós vamos simplesmente desaparecer da rua ao escutar a buzina.

Escutem bem: EU NÃO ENTENDO O QUE A SUA BUZINA ATRÁS DE MIM SIGNIFICA!

Eu coleciono acidentes enquanto pedalo. Em duas oportunidades eu caí por entrar com a roda dianteira em bueiros que estavam abertos e eu não enxerguei a tempo de desviar; já caí escorregando em óleo de carro que estava na pista enquanto descia um morro; um carro uma vez saiu do acostamento sem dar seta, me pegou de lado e ainda passou por cima do meu tornozelo com a roda dianteira; e eu já fui atropelado por um ônibus, que simplesmente ignorou minha presença ali e me pegou por trás, em cheio. São muitas as situações que eu já presenciei, e felizmente estou vivo, firme e forte.

O discurso da bicicleta como meio de transporte não é para todxs. Essa frase pode soar estranha, e por muito tempo para mim a bicicleta foi a solução para o mundo. Não é mais. Em Belo Horizonte, utilizar a bicicleta como meio de transporte requer muito mais que vontade de ajudar o meio ambiente e ser saudável. Requer paciência, disposição, preparo físico e um psicológico muito estável para lidar com todas essas situações diárias. Os carros não querem nem saber se você vai seguir direto em uma Via ou se você vai fazer uma conversão à direita, eles simplesmente te esmagam contra o meio fio, te fecham a fazem a conversão à direita na sua frente. São 3 ou 4 segundos que o condutor do automóvel poderia esperar até que um ciclista passasse. Mas, pelo jeito, esses segundos são muito especiais e não podem ser perdidos.

Passei por tanta coisa, e a maioria das pessoas que eu conheço me dizem sempre o mesmo: “Mas BH não tem ciclovia, aí fica difícil pedalar!”. Discordo. BH é difícil de pedalar por que o asfalto é ruim, tem bueiro aberto, tem capa de costela e remendo o tempo todo, e não há respeito. E é nesse ponto que eu firmo o pé no chão contra as ciclovias ou ciclofaixas. Para mim, elas têm utilidade apenas em vias muito engarrafadas, que facilita para o ciclista ao invés de pedalar nos corredores dominados pelas motos. As ciclovias não possuem utilidade nenhuma, na minha opinião. Elas começam em lugares aleatórios, e terminam em lugares aleatórios. Elas possuem muitos obstáculos, muitas são em cima das calçadas, e os carros te fecham em toda entrada de garagem ou esquina, ignorando o fato de que a preferência é do ciclista.

Muitos carros fazem a ciclovia de acostamento. Muita gente coloca os sacos de lixo para a coleta na ciclovia. Todo o lixo jogado na rua vai para as ciclovias. O asfalto da ciclovia está sempre mal cuidado. Há uma quantidade enorme de pessoas caminhando e correndo nas ciclovias. Esse último fator está altamente relacionado com o fato de que as calçadas são horríveis e possuem muitos obstáculos, por isso os pedestres preferem transitar pela ciclovias, e não há pista de corrida para a galera que corre. Pedalar na ciclovia virou sinônimo de interrupção todo o tempo, são muitos obstáculos, nenhuma continuidade, e os mesmos perigos do trânsito comum. Além disso, quando termina o trajeto de uma ciclovia, o ciclista tem que ir para a rua do mesmo jeito.

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Van na ciclofaixa da Rua São Paulo

Só para você ter uma ideia, no meu trajeto de casa para um dos meus trabalhos, não há sequer uma ciclovia. São 12 km de ida no meio dos carros. Na maioria dos meus trajetos diários, há ciclovias em apenas algumas partes. Uma destas ciclovias está situada acima da calçada, e ela muda de lado da Avenida em 4 situações, obrigando o ciclista que transita nele a se portar como pedestre, atravessando na Faixa Zebrada para seguir viagem do outro lado. É bizarro!

Sou contra as ciclovias, mas sou a favor de um trânsito mais humano e respeitoso.

11 anos ocupando meu espaço nas ruas de bicicleta, e não vou parar.

A vida é desafio, já dizia Racionais…

Desde 2009 que eu trabalho com oficinas de arte, mas o trabalho com crianças, jovens e adolescentes é mais recente. Esse tipo de trabalho tem me dado um pouco de ansiedade em seu formato, pois são muitas dúvidas que eu tenho sobre minha atuação, e sobre os jovens que estudam comigo em alguns projetos.

Eu me considero uma pessoa paciente com a maioria das coisas. Acho que muitos processos possuem tempo certo para acontecer, e que tentar acelerar só o transformará em algo ruim, ou não prazeroso. Ter que fazer algo por obrigação torna o processo difícil, e saber que tudo o que você faz será julgado por terceiros também dificulta o processo. Na maioria das coisas que eu faço, tento fazer com tempo e paciência, para conseguir um resultado satisfatório.

Se eu colocar na minha cabeça que eu quero pedalar durante 6 horas seguidas, ou conquistar algum desafio do Strava, por exemplo, eu me preparo para isso, e dedico algum tempo para lograr com meus objetivos. Nem sempre consigo. Há fatores que às vezes me impedem de conseguir pedalar o quanto almejo. Problemas mecânicos, clima, preparo físico, acidentes… Mas não é por falta de paciência, e se não consigo eu entendo que eu me esforcei.

Na arte a mesma coisa. Posso passar horas, dias, semanas e meses trabalhando em uma única coisa, praticando, treinando, buscando alternativas para fazer um único trabalho, tudo feito de forma paciente, pensada, buscando um resultado que seja satisfatório para mim. Às vezes me dá uma agonia precisar criar uma estampa, por exemplo, e saber que ela ficará pronta só depois de algum tempo.

Eu me dedico. Eu pratico, eu treino, e busco aprender o que eu ainda não domino (se é que as técnicas podem ser dominadas). Acho que aí se encontra minha maior dificuldade como professor, educador, oficineiro. Para a maioria dos meus alunos, em apenas uma tarde de aulas eles já deveriam aprender tudo que é possível dentro de um técnica, já sair desenhando e pintando super bem, caprichado. Não se importam com o processo, com o treino, com a prática, com os estudos. Tudo deveria ser imediato. Eu tento pedir paciência, conto histórias sobre o meu processo, começando quando eu era bem novo, copiando com papel carbono os personagens de Cavaleiros do Zodíaco que estavam impressos em revistinhas. Demorou muito tempo até que eu conseguisse desenhar sem copiar. Demorou mais tempo ainda até que eu entendesse que isso é uma coisa que gosto, e que eu gostaria de aprender e compartilhar o conhecimento adquirido. Eu já devia ter meus 23 anos quando decidi cursar artes, mesmo sem saber desenhar. Na Universidade me sentia meio reprimido por estar ao lado de pessoas super talentosas, e eu nem chegava perto de ter habilidades como as de meus colegas.

Eu gostava do processo de produzir, mas não gostava de planejar, nem de criar. Sempre achava que eu estava aquém de todo mundo. Mas o fato de começar a ensinar me deu outra visão sobre tudo isso. Aprendi na marra que o processo é lento, e que devemos ser pacientes. Nunca tive a oportunidade de fazer um curso de desenho antes, meu olho não era treinado para isso, e só depois dos 27 que eu passei a compreender isso melhor.

A prática, o treino, o estudo e, principalmente, a paciência faz com que a gente consiga chegar onde queremos. Isso eu entendo perfeitamente bem. Mas eu ainda questiono como fazer com que xs jovens entendam isso? Tudo tem que ser imediato, tem que ser preciso. Eu realmente não sei como trabalhar isso com elxs. Recentemente eu proibi xs jovens de uma oficina minha de usar borracha, pois eles desmanchavam tudo o tempo todo. Ensinei a fazer esboços, planejar o desenho, ir tratando, fazendo acabamento e arrumando aos poucos, até conseguir chegar no resultado final. Foi uma oficina interessante. Elxs estavam aflitos por não poderem usar borracha, estavam ansiosos por causa da imagem toda embolada e rabiscada. Mas ficaram surpresos com o resultado final, acabado, limpo. Quando fui perguntar à elxs se eles gostaram, se foi interessante ter paciência e construir o desenho aos poucos, elxs me disseram que se tivessem borracha eles teriam feito igual, e de forma mais rápida. Eu sei que elxs não fariam igual, mas elxs não sabem disso. Independente do resultado, o processo delxs é rápido, curto, e talvez essa velocidade em fazer e desmanchar seja mais importante que o resultado final.

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Desenhando rostos

Pensei em fazer alguns trabalhos de desenho de forma mais livre e desapegada, mas eu ainda preciso encontrar uma maneira de fazê-los desapegar dessa coisa realista, desenho e borracha o tempo todo. Fico pensando em várias práticas que fizemos no ambiente Universitário de uma Escola de Artes, e fico pensando se daria certo. Afinal, em uma Escola de Artes, a maioria ali está disposto à esse tipo de experimentação, de reflexão e de discussão. Não sei se os jovens com quem eu trabalho teriam essa disposição de experimentar, de desapegar do desenho tradicional/clássico para surfar em outras ondas. Não sei se o espaço onde trabalhamos seria receptível à isso, pois na Universidade de Artes a maioria dos espaços são de experimentação e provocação. Dentro de uma comunidade, por exemplo, a moral e os costumes estão ligados à outros processos que não se abrem tanto para experimentações.

Ainda que a letra da música tenha pouco a ver com esse dilema onde me encontro, o título é bem propício: A Vida é desafio.

Subindo as camisas

Finalmente as camisas estão subindo para a Loja Online. Desde Abril de 2017 que eu estou nesse lenga-lenga, mas agora a parada é real. Já comprei envelopes plásticos para enviar via Correios, e finalmente estou usando as fotos de um ensaio que as minhas queridas amigas Raquel e Virgínia fotografaram para mim nessa época. Várixs migxs me ajudaram cedendo sua imagem e seu tempo para posar utilizando as camisas, e eu não poderia ser mais grato por tudo, Barrão, Iara, Biruta, Ludimila, Ludmila, Marcela, Iza, Nathan e Nat. Infelizmente o estoque está baixo, mas em breve eu compro mais camisas e faço novas levas de estampas. Na época eu fazia algumas estampas pintadas à mão, coisa que não faço mais…

 

Olha algumas fotos do ensaio, algumas estampas eu nem trabalho mais!!

 

 

Ainda falta fazer a medição das camisas e disponibilizar a tabela dos tamanhos e medidas para ficar mais claro os tamanhos no site. Essa semana eu farei isso, e já deixo tudo preparado!!

Tentando encontrar um rumo

2019 promete ser um ano interessante. Muita coisa já está se organizando, e todos os dias acabam me empolgando um pouco mais. Ano passado eu fui desligado das oficinas das Medidas Socio-educativas. Foi um tempo interessante, mas muito limitador no sentido artístico. É difícil trabalhar a expressão limitando o que pode ser expresso. Enfim, bola pra frente, porque isso me deu várias outras ideias.

Cursos e Oficinas Livres

Quando falo sobre cursos e oficinas livres quero dizer às atividades que pretendo colocar em prática no meu atelier, meu espaço de trabalho. Aos poucos estou conseguindo equipar o local, e muitas são as opções de cursos que posso oferecer por lá. A ideia é ofertar atividades em todos os meses do ano. Ensinar e compartilhar experiências é a melhor forma de aprender, de evoluir, de desenvolver mais as habilidades e de descobrir coisas novas, e são oportunidades que não posso deixar escapar. Eu sei que nem sempre haverá pessoas interessadas, por falta de tempo, dinheiro, ou por não querer mesmo participar de algo, mas movimentar essas coisas me deixam mais animado com todo esse processo.

Docências e a Educação

Esse semestre eu decidi que não iria fazer Estágio Obrigatório, disciplina obrigatória nos cursos de Licenciatura da UFMG. Ao invés de acompanhar algum professor em seu dia a dia na escola, vou participar do processo de Designação para dar aulas em Escolas Estaduais. Acho que a experiência vai ser muito mais rica e desafiadora. Também porque eu faço parte do PIBID, e lá eu já acompanho aulas de artes com outra professora, além de termos discussões sobre nossos processos e vivências no ambiente escolar. Vão ser experiências complementares e, se tudo der certo, até o fim do ano eu sigo nesse processo.

Oficinas Externas

Nesse caso me refiro à prestação de serviços de oficinas e cursos fora do meu ambiente habitual de trabalho. Em 2019 eu comecei a trabalhar no Programa Fica Vivo! de Prevenção à Homicídio. São oficinas realizadas dentro de um Aglomerado de BH, que são de artes visuais e intervenções urbanas. A ideia é compartilhar com xs jovens técnicas que vão desde o primórdio dos desenhos, da gravura, exercendo a livre expressão, a crítica, as noções básicas sobre a imagem, até a intervenção no espaço urbano com grafite, estêncil, murais, cartazes, lettering, etc. Poder trabalhar várias formas de produção, e não se limitar a apenas uma.

Estampas

Para esse ano estou com ideias de lançar uma coleção nova de estampas para as camisas. Já estou buscando novos fornecedores de camisas para conseguir um material melhor, com uma modelagem melhor, e fazer um produto de alta qualidade. Além de trabalhar com as minhas próprias estampas, já estou conversando com alguns artistas de BH para algumas colaborações e, assim, termos camisas com estampas variadas, para agradar a vários gostos, e ajudar a divulgar nossos trabalhos de forma coletiva.

Gravuras

Estou retomando minha produção de gravuras também. Inicialmente vou focar um pouco na xilogravura, na linoleogravura e na serigrafia, pois são as técnicas que mais tenho acesso, e que eu poderei manipular meu tempo com maior facilidade. Faz tempo que busco criar algo novo na minha produção, e faz tempo que esse “novo” não vem. Então eu decidi continuar trabalhando o que eu já trabalhava, para maquinar as coisas a partir daí, e não ficar estático como eu estava. Apesar do tempo corrido, ficar parado não ajuda em nada.

Gastos

Infelizmente tudo nessa jornada tem seu preço, e toda vez que consigo investir em algo, surge outra coisa para investir também. Meu atelier ainda faltam alguns móveis e algo de infra estrutura, talvez alguns equipamentos. Mas isso vamos deixando mais para frente, já que sempre que eu posso compro algo que preciso para lá. O processo é lento, e estou tentando me ater à essa regra para não me endividar. Aos poucos, com esses cursos, vou juntando dinheiro para investir no atelier e deixar um lugar melhor e mais agradável, em todos os sentidos.

Site

Em 2019 pretendo colocar no ar a Loja Online, essa que fica no Menu aqui ao lado e que nunca está disponível. O que acontece é que eu ainda não organizei os produtos que irão ser vendidos. E já passou da hora d’eu criar vergonha na cara e fazer isso. Até para vender os Cursos e Oficinas através da Loja e não do Sympla (que cobra 10% do valor do curso), pois assim as pessoas podem querer adquirir vários produtos juntos, utilizando métodos de compra como PayPal ou PagSeguro, e poder pagar em até 3x sem juros (coisa que o Sympla não faz). Eu comecei a trabalhar um pouco lá na loja online e, se tudo der certo, esse mês ainda ele entra no ar.

 

Acho que é isso por enquanto. Não sei como vou conciliar isso tudo com duas matérias na Licenciatura da UFMG, início do TCC, e deslocamentos de bicicleta, mas 2019 promete muita coisa, e vou aproveitar minha empolgação para ir junto.

E Sobre a Educação?

Queria poder escrever sobre o sistema educacional de uma forma bonita e prazerosa. Desde 2009 dou cursos e oficinas, desde 2009 estou em uma faculdade, e desde 2013 que eu comecei a me interessar pela docência. Apenas em 2018 eu iniciei formalmente meus estudos para me tornar um professor e, desde então, comecei a refletir sobre a atuação no sistema educacional. E existem coisas que não me atraem nesse universo, e talvez, por isso, não conseguirei escrever de uma maneira bonita e prazerosa.

Fico lembrando quando estava na escola, ótimos anos. De 1994 a 2005 eu frequentei algumas instituições públicas, e sempre me achei um “bom aluno” até certo tempo. A partir da 7ª série, quando eu descobri o que era uma “Escola Plural”, implantada na rede municipal de ensino, eu simplesmente parei de me importar com a escola. Hoje eu entendo o quanto fiquei defasado em várias questões, e isso me custou muitos anos de cursinho para aprender o que eu nunca aprendi. No meu terceiro ano do ensino médio fui parar no Colégio Soma, privado, com aquela promessa de ser aprovado no vestibular da UFMG. Aprendi o que era a UFMG quando eu estava estudando no segundo ano, e minha irmã foi prestar vestibular. No Soma, consegui ir mal em quase todas as matérias, sempre pegava recuperação em várias disciplinas, e até hoje não sei como consegui formar. Foi um período muito pouco proveitoso, e se eu soubesse o que viria nos anos seguintes, teria feito tudo de forma diferente.

Em Julho de 2018 eu iniciei os estudos em Licenciatura em Artes Visuais, continuidade de estudos do meu Bacharelado em Gravura/Litografia. Ao mesmo tempo, trabalhava dando oficinas de arte em uma Unidade de Semiliberdade das Medidas Socioeducativas, dava aulas de xilogravura e serigrafia em meu atelier, e comecei a acompanhar duas escolas da Rede Estadual de Ensino. Uma delas é uma escola grande, famosa, conceituada, estruturada, bairro nobre, muitos recursos, etc. A outra é uma escola de bairro, porém não periférica, situada a duas quadras da minha casa. Posso passar uma eternidade aqui citando diferenças estruturais entre as escolas, mas irei focar na parte que me importa: as pessoas. As pessoas são aquelas que fazem parte da comunidade escolar como um todo, que participam do cotidiano e que, querendo ou não, fazem a escola acontecer. São professores, funcionárixs e alunxs, e eu fico tentando perceber/entender como elxs atuam nesse espaço/tempo.

Apesar da diferença berrante entre as duas escolas, tenho percebido muitas similaridades quando o assunto são as pessoas. Professorxs desmotivadxs por diversos motivos, funcionárixs desmotivadxs por diversos motivos, e alunxs desmotivadxs por diversos motivos. Motivos para a desmotivação é o que não falta. E eu entendo esse sistema indo cada vez mais para o buraco. Não é de hoje que esse formato que chamamos “escola” não funciona. A escola não é atraente, e não oferece mudanças em nenhuma perspectiva. Vejo com frequência alunxs de ambas escolas comparando o local com uma prisão. E eu entendo bem isso. Ali é um local de limitação de liberdades, onde há regras, muitas vezes controversas, e nada daquilo ali dialoga com xs alunxs. Digo isso com clareza, pois entendo que o ambiente escolar também não me atraía quando jovem. Fui entender que era preciso estudar e comecei a buscar conhecimento depois de muitos anos de formado, e hoje, com 31 anos, começo a compreender onde a escola erra. Nas salas de aula vejo várias matérias desconexas, uma falta de interesse dxs alunxs no que está sendo exposto, e uma ideia de que nada daquilo ali importa. A maioria dxs alunxs fazem prova sem nem ler, simplesmente marcam qualquer resposta. A maioria dxs alunxs não se importa com o que x professorx está ensinando, porque nada daquilo ali vai fazer diferença. De fato, tive dificuldades com matemática por muitos anos, até compreender os locais onde eu poderia aplicar uma fórmula matemática. Com a física, a mesma coisa. Também com a química. Também com a biologia, geografia, história. A maioria das disciplinas escolares nunca fizeram sentido para mim quando jovem, e eu só fui compreender na necessidade e na prática, onde esses conhecimentos são importantes.

O formato das Escolas que eu acompanho são muito parecidos. Várias matérias com vários conteúdos, provas bimestrais, recuperação, várixs alunxs fora de sala, várixs alunxs que não levam material, várixs alunxs que nem sequer tiram a mochila das costas, várixs alunxs sendo punidos por indisciplina. E eu entendo perfeitamente a indisciplina. Imagino que eu seria um desses que está de saco cheio disso tudo, e compareço à escola por obrigação, ficaria torcendo para chegar logo o horário de intervalo, e depois a hora de ir embora. Nem sei se o que escrevo faz sentido algum, mas escrevo para que um dia eu chegue a algum lugar com isso.

Na Universidade tenho várias aulas sobre educação, e sistemas educacionais, e formas de entender a docência, e a importância da arte no ensino. Mas tudo segue muito distante da realidade que eu experimento. Muitxs professorxs nunca entraram em uma sala de aula de uma escola pública, e os exemplos que trazem sempre são de escolas construtivistas, dessas super elitizadas, como se fosse igual lidar com problemas de ricx e problemas de pobre. Escrevo de uma forma bem xula, não me importo. Aqui são palavras que saem para tentar entender meu papel nessa história. O que estudamos no meio universitário não tem quase nada a ver com as escolas que frequento. Parece ser tudo muito utópico e lindo ao discutir o papel da arte nas escolas, mas as próprias escolas limitam muito a atuação da arte, e talvez não compreendam a importância da arte como campo de conhecimento. Arte não é fazer decoração de festa junina. Eu entendo a arte como um local de construção de sentido, de expressão, de aprendizado e de compreensão do universo, da sociedade e de seus fenômenos de uma maneira crítica. Talvez eu tenha demorado muito a compreender isso dessa forma, e não acho que seja fácil a compreensão por pessoas que não estão ligadas à isso. No ambiente escolar os campos de conhecimento sempre parecem muito distantes entre si, sem diálogo algum entre eles, e realmente deve ser um saco, um porre, ver essas aulas que nada tem a ver com a outra. Não estou falando aqui de existir recursos audiovisuais, aulas online, tecnologia de ponta para realizar aulas, mas de entender que as diferentes disciplinas podem trabalhar assuntos semelhantes, pois tudo está conectado. Com o tempo tudo foi dividido em diferentes áreas, e sumiram as relações entre o que aprendemos e o que vivemos. Fico pensando em Leonardo da Vinci, que exercia diversos ofícios e foi importante para várias áreas: Engenharia, Medicina, Artes Visuais, Botânica, Teatro, Arquitetura, Matemática, e vários outras áreas que hoje não dialogam entre si. Talvez na época de Da Vinci, o conhecimento geral fosse importante e os campos de conhecimento estavam conectados, e tudo que se ensinava construía um sentido, e fazia sentido.

Mas o sistema escolar limita tudo. Tudo tem seu tempo, suas regras, nada faz sentido, nada é atrativo e segue um formato que sufoca muito mais que liberta. Um ambiente fechado, onde xs alunxs não possuem nenhum senso de pertencimento, destroem todo o equipamento, funcionárixs irritadxs todo o tempo porque não aguentam mais a estrutura, e corpo docente de saco cheio sem entender as razões.

Escrevo aqui porque quero tentar entender o que desejo fazer, o que desejo tentar, e como eu posso ajudar a mudar algo. Não vou mudar o mundo, e nem quero. Não me preocupo com Mercado de Trabalho, pelo contrário, estou pouco “me fudendo” para isso. “Mercado de Trabalho” é um termo que me lembra pessoas acorrentadas a um emprego bosta, fazendo o que não gosta, ganhando stress, em troca de um dinheiro qualquer. “Mercado de Trabalho” para mim segue a lógica do nascer, estudar, trabalhar, morrer; e seguir a vida assim, torcendo para chegar o fim de semana ou as férias, porque somente nesses contextos é que se aproveita a vida, e o resto é trabalho e chatice. Eu gostaria que as pessoas fossem livres para fazer o que quiser, e ser o que quiser, e buscar, da forma que quiser, sua felicidade. Começo a compreender que esse formato de escola talvez sirva para se adaptar a esse modo de vida medíocre, pois segue a mesma lógica. Passar o dia em algo que não gosta, torcendo para o fim do expediente chegar logo, torcendo para chegar o fim de semana, e depois reclamando da segunda feira; tudo isso em troca da eterna promessa de uma vida melhor.

Acho que meu texto saiu um pouco do que eu imaginava. Meus devaneios sobre a educação talvez não terminem nunca. Esse formato não me atrai, e eu já entendi que não atrai xs alunxs, nem xs professorxs. Todo mundo reclama, e não pode propor mudanças, porque as mudanças vão criar pessoas livres, e inteligentes, e críticas. E ninguém quer isso.

O que fazer então? Como posso atuar na educação de uma maneira diferente?

Fico pensando que quando for professor terei muito trabalho. Eu sei que vou ganhar mal. Eu sei que irei ficar estressado, revoltado, cansado da estrutura, que vou reclamar por trabalhar muito, torcer para chegar o fim de semana, e reclamar da segunda feira. Eu sei que vou ter um discurso bonito, de conseguir construir sentido com poucxs alunxs, e isso vai fazer valer a pena todo esse processo. Estamos adaptados à isso. Eu estou adaptado à isso.

Ainda tenho tempo, e há muitas coisas para repensar e refletir. Até lá, farei o que puder, apesar de ainda não saber como.

Sobre a técnica de estêncil

Estava dando uma olhada nos meus arquivos e me deparei com a foto do meu primeiro estêncil, feito em 2007. É uma estrela com as letras EZLN logo abaixo. Cortei esse estêncil para poder pintar uma camisa e ter, finalmente, a tão sonhada camisa do Movimento Zapatista. Depois da camisa, comecei a espalhar essa imagem por Belo Horizonte, e mal eu sabia onde que tudo isso iria chegar.

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Primeiro estêncil.

Minha curiosidade pela técnica foi muito além do que eu imaginaria. O ato de cortar uma placa de radiografia me dava tanto prazer, que eu tinha começado a cortar de tudo quanto é imagem. Alguns deles foram para as ruas, outros ficaram confinados às paredes do meu quarto (meu quarto era um caos imagético, todo mundo intervinha lá).

 

Nessa época, eu achava que já estava no auge da produção, tendo chegado ao limite e esgotado as possibilidade de exploração da técnica. Mero engano. Na internet circulavam várias fotografias de arte produzida com estêncil de um sujeito chamado Banksy. Este artista britânico, com suas obras irônicas e críticas à sociedade atual, me fez perceber que eu não estava nem próximo de um limite, quanto mais de um auge. Eram verdadeiras intervenções em diversos tamanhos, formatos e cores, com contraste, luz, sombra, detalhes. Me lembro de ficar caçando na internet cada vez mais imagens desses graffites, que me deixavam cada vez mais perplexo.

Acho que foi nessa época que eu comecei a perceber, também, os trabalhos do Cidadão Comum (Hoje, apenas Comum) pelas ruas de Belo Horizonte. Eram cartazes produzidos com estêncil, impressões em várias combinações de cores, rica em detalhes e sempre com a inscrição do autor em algum lugar da imagem.

Foi a partir daí que eu comecei a experimentar o uso de mais cores e alguns formatos maiores. Na época eu também não tinha acesso à tintas melhores, e usava sprays horríveis, desses de depósito de bairro. E isso não ajudava muito no processo. Não consegui encontrar muitas fotos de trabalhos assim, mas nessa época eu deixei de arriscar nos muros da cidade para estampar em camisas que eu vendia a preços simbólicos.

 

Nessa mesma época, comecei a arriscar a pintar as camisas com pincel a fim de complementar as estampas feitas com estêncil, colocar alguns detalhes, uma luz, algo que a deixasse mais artística. Isso deu tão certo, que culminou na melhorias das minhas habilidades com desenho, e foi quando ingressei na Escola Guignard, no curso de Artes Plásticas. Foi na faculdade que eu tive contato com esse mundo da arte, e é possível ver um salto nas questões técnica e estética das matrizes.

 

Comecei a ter mais cuidado com os detalhes, e a ter mais paciência na hora de produzir uma matriz. Testei outros suportes também, como discos de vinil e telas de pintura, e cada vez me davam ideias de tentar algo novo. Nessa mesma época comecei a produzir imagens com a finalidade comercial, fazia muitas coisas com temas de filmes, músicas, séries, temas políticos ou apenas decorativos. Com os discos de vinil, também era possível vendê-los na forma de relógios de parede.

 

Em 2012, após passar um semestre em Ciudad Juárez, México, e conviver com artistas de diversos coletivos (Rezizte, Puro Borde, Hunab Ku, CLVR…), foi quando eu finalmente compreendi a finalidade estético-política que se pode alcançar com o estêncil. O contexto em que vivíamos (Gastos desnecessários com Copa do Mundo e Olimpíadas, Despejos, Gentrificação, Manifestações…) fez com que “minha” criatividade (digo “minha” porque todo o resultado do meu trabalho a partir desta época foram frutos de ideias, discussões e eventos compartilhados e vividospor todxs que fazem/faziam parte da minha vida) borbulhasse, e eu passaria um bom tempo trabalhando em matrizes que foram o marco inicial do “La Idea” nas ruas.

Conduzido pelos cartazes do Rezizte, que retratavam a vida fronteiriça (US/MX), e pegando um gancho nos trabalhos do Comum, iniciou-se uma produção em larga escala de cartazes produzidos com estêncil. A primeira ideia foi fazer um menino jogando bola de chinelo, para mostrar que o futebol está além daquele que é vendido pela FIFA e pela mídia. Juntamente com a criança, estariam dizerem contra a Copa do Mundo. A segunda ideia foi pegar a fotografia que saiu na capa de um jornal do Rio de Janeiro, onde um indígena da Aldeia Maracanã olha para o céu, após sair a notícia que o Museu do Índio seria demolido para dar lugar a um estacionamento no Maracanã. A terceira ideia, e talvez o que seria a imagem mais conhecida do “La Idea” foi o rosto do El Marquéz, lutador de Lucha Libre, de Ciudad Juárez, e símbolo do Coletivo Puro Borde. Foi uma maneira de homenageá-los. Desta forma, a vida nas ruas começava a tomar forma. As matrizes eram feitas em diversas cores, eram bem chamativas, e possuíam tamanho A2.

 

Depois desses, vieram várias ideias de fazer cartazes sobre outros temáticas, e ainda ampliar a quantidade de lutadores. Essa insistência rendeu várias postagens nas redes sociais, e eu via uma resposta positiva quanto aos cartazes que eu produzia, afinal, eles começaram a ser requisitados para venda.

 

Faltam alguns trabalhos que eu não consegui achar fotos no caos virtual do HD, mas assim que eu der uma organizada, darei um jeito de colocar aqui.

Para terminar essa jornada no desenvolvimento da técnica, minha última empreitada no estêncil foi tentar reproduzir obras de arte, da maneira mais próxima possível. É claro que igual nunca ficará, mas eu tentei ser bem fiel ao original (imagem virtual).

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Essa reprodução de uma obra de Hokusai foi minha primeira tentativa de cópia. É bem complicado tentar chegar em uma combinação de cores que seja plausível, mas a riqueza em detalhes me ensina que é preciso ter calma, paciência e precisão na hora de cortar um estêncil. Foram 9 matrizes em tamanho A3, 11 cores em spray e muitos minutos de trabalho minucioso. Eu fiquei bem satisfeito com o produto final, muitas pessoas compraram e acho que também curtiram bastante essa reprodução. Se não me engano, isso foi feito em 2014. De lá para cá, minha produção deu uma diminuída, mas em 2018 é algo que eu irei retomar. Acho que não estou nem perto de esgotar as possibilidades da técnica. Vejo trabalhos do ELK, da Austrália, ou do SHIT, aqui de BH mesmo, que estão ultrapassando vários limites, e chegando cada vez mais longe no desenvolvimento da técnica. Imagino que eles também tenham começado como eu, formas simples, letras, e na insistência e persistência conseguiram chegar onde estão hoje.

Vejo uma evolução tremenda em todas essas fotos que eu publiquei, e nunca imaginei onde eu poderia chegar. Continuo sem imaginar, e não vai ser agora que eu vou parar.

Ano Novo – Vida Nova

Nada melhor do que começar o ano com novos projetos em mente, circular velhas ideias, associar novos planos e tentar transformar tudo isso em algo produtivo. Apesar de ser graduado em Artes Visuais, tenho dúvidas sobre o quanto eu me dedicaria para viver nesse meio, por isso fico buscando outras formas de gerar renda, e tenho quase certeza de que eu não compraria esse estilo de vida correndo atrás de editais, participando de exposições e tentando sobreviver à esse mundo muito perverso do Circuito de Arte.

Gosto muito de produzir, gosto do trabalho, do esforço, de um stencil bem cortado, uma matriz de xilogravura bem cavucada, do processo litográfico, serigráfico, gosto de colar cartazes, perambular pela cidade descobrindo pontos para expor meu trabalho, reparar no que está exposto também. Minha relação com a arte é isso: produzir, expor, perceber. A partir disso conheci muitas pessoas, muitas imagens, muitas ideias, compartilhei experiências, oficinas, técnicas, e me agrada o lugar onde me encontro hoje. Não almejo sucesso, fama, riqueza, reconhecimento. Não quero nada disso. Quero fazer o que gosto de fazer, e tocar minha vida a partir disso.

Em 2018, decidi colocar em prática essa ideia. Vou fazer o que eu gosto de fazer. Como assim? Através deste blog, vou narrar todos os meus processos, todas as minhas dificuldades, vou compartilhar cada momento dessa minha nova vida profissional, regada de ideias e planos.

Em 2018 colocarei em prática minha ideia de ser autônomo no serviço de Bike-Courier. Desde 2008 que eu pedalo “todo santo dia”, carregava muito peso na bicicleta na época da faculdade, e atravessava a cidade para poder estudar. Agora é a hora de começar a fazer convênios e transformar esse serviço em realidade. Já andei fazendo algumas entregas de forma autônoma, e atualmente estou fazendo entregas para Uber Eats, mas isso ainda não me dá ganhos o suficiente para manter meus gastos. Criei uma planilha para agendamento de serviços de entregas, que pode ser preenchida no menu. Após preencher a planilha, eu entrarei em contato com o orçamento. Os preços que eu imaginei variam por localidade. A ideia é cobrar uma taxa de R$5,00 para buscar a encomenda e uma taxa variável por cada quilômetro desde o ponto de recolhimento até o destino.

Outro projeto relacionado à bicicleta é a questão das viagens, ou ciclo-turismo, ou ciclo-viagens, ou bikepacking. Apesar de pedalar há muitos anos, foi na passagem de ano de 2017 para 2018 que eu tive minhas primeiras experiências na estrada. Trajeto de 62km em direção à Serra do Cipó. É indescritível a sensação de se locomover entre cidades utilizando o movimento do corpo. Ora você se cansa, ora você descansa, mas no final de várias horas de pedalada, você já está bem firme em seguir em frente, sem medos ou receios. Minha ideia é publicar também minhas experiências nas estradas.

Sobre a arte, meus planos são produzir mais, postar sobre minhas técnicas, meus processos, e mostrar a finalidade de cada peça que eu produzo. Além de gravuras, eu possuo uma produção de pinturas em telas, e de estamparia. As estampas foram os trabalhos que eu tentei me dedicar mais nos últimos anos, pois camisas são mais fáceis de vender que quadros ou telas. Meus investimentos nessa área vão crescer, e espero conseguir escrever sobre tudo aqui.

Um amigo, Daniel de Carvalho, criou uma identidade visual para La Idea, e eu preciso retomar com ele esse processo. As logos criadas por ele estarão na loja online e neste blog, além de toda peça publicitária para divulgar meus serviços.

Eu tenho várias ideias de estampas, posters e adesivos que precisam ser colocadas em prática. Muita coisa foi feita e está armazenada no computador, esperando o dia em que se tornarão físicas.

Enfim, está inaugurado oficialmente este blog. Espero que tudo dê certo.