Pintura aguada a partir de foto

Acrílica sobre painel – 30x40cm – 2015

Outro dia, organizando meus arquivos aqui, me deparei com essa pintura que fiz em 2015. Ela foi vendida em um leilão na garagem do prédio dos meus pais e me ajudou a ter recursos para bancar meu intercâmbio para a Argentina em 2016.

Fiquei pensando no tempo em que a pintei, quais ideias eu tive, porque o formato, porque as cores, porque a imagem. Me lembro que eu andava querendo explorar essas técnicas mais aguadas, sobretudo depois que eu já tinha experimentado as aguadas nas experimentações litográficas. Antes disso eu era um pouco resistente à mistura de solventes, à sobreposição de transparências e à composições mais demoradas. Eu fazia tudo muito chapado, cores puras e vibrantes, talvez até por causa do daltonismo e do receio de que a mistura entre tintas e solventes poderia interferir negativamente no resultado.

Natália, minha companheira de longa data e uma das minhas principais apoiadoras, me convenceu a arriscar mais, deixar o receio colorimétrico de lado, e ser mais espontâneo. Logo ela, que é adepta do realismo figurativo, me dizendo para ser mais ousado enquanto produzo. Talvez tenha sido nesse ponto da minha vida em que comecei a me importar mais com o processo que com o resultado. Isso é bom, mas não é todo mundo que gosta desse estilo. Me ajuda no autoral, me prejudica na prestação de serviços.

Enfim, começamos a pesquisar referências de imagens que poderiam ser produzidas a partir de aguadas em painel montado. Isso era uma novidade para mim e eu ainda não tinha muita noção de quais seriam os resultados. Usamos como referência a capa do livro do J.R. Duran, fotógrafo famoso, chique, glamouroso. O livro era o “Cadernos Etíopes”. A foto de capa, completamente em gradações de preto e cinza, me despertaram para alguns desafios que eu topei participar. Pensar nas proporções das figuras, relacionar os tons de cinza às cores, planejar os diferentes tons de tinta acrílica, esperar as poças secarem. Eram exercícios de paciência, concentração e planejamento que eu nunca tinha feito antes em pinturas, mas que já exercia nas técnicas de gravuras. Me lembro de lidar com algumas dificuldades em relação à quais tubos de tinta usar para as diluições, pois a tinta que costumeiramente se chama “pele”, é sempre um tom claro demais, europeu demais. Eu ficava incomodado em usar terra queimada e sombra queimada para representar as peles negras e pretas. São nomenclaturas que me soam estranhas e pejorativas. Essas tintas foram misturadas em diferentes proporções com amarelo ocre, marrom van dyck, preto e bastante água.

O resultado foi esse. Optei por não fazer o fundo, manter apenas as figuras. Assim, a atenção toda fico no primeiro plano, sem interferências.

Festival NUH!

O Festival NUH! começou na segunda feira. Está com uma programação cabulosa voltada para as artes gráficas, publicações e impressões. Hoje a noite tem uma mesa muito sobre técnicas analógicas de impressão, onde eu estarei trocando uma ideia com Luiza Gasparini, Luis Matuto e Leandro Mello sobre os processos de produção, perrengues, técnicas, histórias e como seguir com saúde mental, rs. Colá lá no Twitch, o endereço está no flyer!!!

Aula de Registro de Impressão de linóleo/xilo – parte 2

Já está disponível no meu canal de Youtube a segunda parte da aula de registro de impressão para linoleogravura e xilogravura. É uma técnica que requer um pouco mais de cálculos em relação à primeira técnica, e que vai funcionar para fazer gravuras com várias matrizes, ou mesmo matriz perdida. Espero que gostem.

Liberdade – Pré-venda

Já está disponível na Loja Virtual, até 31/03 a pré-venda da camisa com a estampa LIBERDADE, uma adaptação punk riot grrrl de uma gravura do Mucha.

A camisa possivelmente será produzida em 100% algodão Menegotti, mais leve e de melhor qualidade. Também será possível escolher entre 4 opções de combinações de cores.

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Gravura contra o neofascismo

Basta ler o livro de Jason Stanley “Como funciona o fascismo” para entender que não há argumentação que mude a ideia de um fascista. Buenaventura Durruti dizia que ‘o fascismo não se discute, se destrói’. Estamos lidando com os fascistas e suas necropolíticas há 80 anos, lutando a favor de uma democracia falha, que abre espaços para que esse tipo de pensamento ganhe espaço e poder. Todos os anos surgem novos governantes ao redor do globo reproduzindo o mesmo discurso de ódio e purismo como eram apresentados nos anos 30. Lembrando que o fascismo não existe apenas a nível governamental. Está presente no dia a dia, nas ações, nas ideias. Não se deixem enganar. Liberdade de expressão anda de mãos dadas com respeito e solidariedade, nunca com discurso de ódio.

Abaixo o vídeo em timelapse de um projeto para uma capa de uma coletânea que reúne bandas de todo o mundo cantando e tocando contra o neofascismo. A convite do Marcelo, vocalista da banda Las Calles, eu desenvolvi esse projeto. Para destruir o fascismo, necessitamos coletividade, solidariedade, respeito e ação direta.

“Seja de qualquer cor, de onde for, vem meu igual.” Cólera

“Sua tolerância a um regime, onde a essência humana é aviltada, não o torna também o inimigo, aquele a ser varrido de sobre esta terra? Ignorar o fascismo é se tornar fascista. Moscas que fazem parte desta sujeira.” Solstício

“Os assassinos livres no poder
O fascista imune as leis
Limpeza étnica
Fria e brutal”
Ação Direta

“Adolf me lembra só agonia, sangue, dor, lágrimas e melancolia
Adolf me lembra restos mortais que foram resultado das diferenças raciais
Adolf me lembra destruição de assistir ao chumbo quente entrando em um coração
Adolf lembra racismo e me dói ver alguns jovens filiando-se ao seu fascismo
Num mundo sem fronteiras só de cooperação
Seriamos todos amigos, seriamos todos irmãos
Sem estados, sem limites, sem países, sem fronteiras
Vermelho, preto e branco não será mais sua bandeira”
Street Bulldogs

Como fazer stencil?

Olá a vocês que acompanham as postagens daqui. Venho lhes dizer que está no ar mais uma aula no canal de Youtube, e desta vez eu ensino como transformar uma imagem em um stencil utilizando o aplicativo Photoshop, e também utilizando o editor de fotos simples do celular para chegar no mesmo resultado. Espero que gostem, abraço.

Revisitando pintura de 2015

Eu curto ver fotos de pinturas antigas, me faz lembrar da época em que eu estava pintando, onde eu morava na época, o que eu fazia. Essa pintura feita com acrílica aguada foi feita em um painel de 20x20cm, e me ajudou a arrecadar dinheiro para poder fazer meu intercâmbio na Argentina. Bons tempos. De lá para cá eu pintei muito pouco, me dediquei muito mais à gravura e impressão.

Colar lambe-lambe

Colar lambe-lambe é uma prática universal e que me dá muito orgulho de fazer parte do movimento. Eu faço a produção toda em stencil e em serigrafia, e a minha cola é bastante espessa, uma mistura melequenta de água, polvilho azedo e soda cáustica. Faz tempo que dei um tempo nas tarefas de intervenção pela cidade, mas hoje deu saudade e pretendo retomar em breve os rolés.

Experiência com a morte

Foi a primeira vez que ouvi falar dessa experiência. Poucas pessoas tiveram a chance de presenciá-la. Não estou dizendo que é algo belo ou confortável, e que todos precisam passar por isso. Só quero narrar um pouco do que foram esses momentos que, seguramente, me marcarão por toda a vida.

Ano passado, 2020, no princípio da pandemia, minha avó materna faleceu. Ela estava internada em um hospital, e vários de seus filhos e uma de suas netas (minha irmã) estavam no revezamento para acompanhá-la. Ela deixou esse mundo enquanto minha irmã segurava suas mãos. Ela morreu de morte natural, já tinha bastante idade e muita experiência de vida. Minha irmã acompanhou todo o processo e me disse que é um momento muito diferente, que nos muda. Presenciar uma morte natural talvez seja comparado ao momento do nascimento. Os dois opostos deste tempo em que uma vida existe.

No decorrer de 2020, meu pai desenvolveu um tumor maligno na cabeça do pâncreas. Ele perdeu muito peso, e os primeiros sintomas, icterícia principalmente, apareceram por volta de outubro. Em novembro veio a primeira internação. Os médicos ainda não tinham muita certeza, ou não nos falavam muito bem o que estava acontecendo. Pesquei algumas conversas entre eles enquanto acompanhava meu pai, e o termo “neoplasia periampular” começou a surgir. Pesquisando na internet, descobrimos que o o termo diz respeito ao câncer de pâncreas, cujos sintomas aparecem já em estágio avançado e a maioria dos pacientes possuem uma sobrevida média de 6 meses depois do diagnóstico. Há aqueles casos de pessoas que vivem 10 anos, mas é raro.

Com isso em mente, o desespero e a tristeza fizeram parte de nossas vidas durante esse tempo. Foram várias consultas e exames, algumas endoscopias e a colocação de duas próteses para manter o sistema digestivo tentando funcionar. Os médicos chamavam isso de “dar qualidade de vida” ao paciente. Talvez esse termo fale sobre ter os familiares por perto, porque desde o diagnóstico até seu falecimento, meu pai não teve descanso e nem paz. Começou com o estômago acumulando alimentos e líquidos, expandindo e pressionando outros órgãos. O duodeno, que estava com uma prótese para desobstruir a passagem de alimentos, não funcionou muito bem, e começou a vazar líquidos para fora do sistema. O pâncreas começou a atrofiar. Dores na lombar o incomodavam a ponto dele não achar posição para ficar, nem em pé, nem sentado e nem deitado.

Foram meses sem dormir, sem comer, sem beber, com muitas dores, sem conseguir se locomover direito. No princípio de janeiro, já raquítico, sem musculaturas, sua audição e fala foram comprometidas. Seus olhos já aparentavam estar afundados no crânio, seus ossos estavam muito salientes. Em janeiro, houveram mais duas internações. Acompanhamos todo o processo de perto. Eu o visitava todos os dias, ainda que ele dormisse a maior parte do tempo. Eu tinha muito medo dele não acordar. Estávamos cientes de que esse dia poderia chegar a qualquer momento. Eu abri mão do meu trabalho, e apenas produzi o que estava ao meu alcance. Havia algo mais importante acontecendo.

Na terceira internação ele já estava muito debilitado. Ficava confuso e disperso, ficou com a locomoção completamente dependente de terceiros. Ele não achava posição, e mudava a cada cinco minutos. Levávamos ele da cama pro sofá, do sofá pra poltrona, de volta pra cama. Ele dizia que não sabia o que queria, mas o ajudávamos mesmo assim. Houve pequenos conflitos entre a gente, normais nestas situações. Já andávamos desgastados dessa maratona de cuidados e dedicações.

A cada momento surgia uma nova questão. Desde outubro ele desenvolveu anemia, diabete tipo 2, infecção abdominal, princípio de trombose, inflamações diversas, embolia pulmonar, enfisema pulmonar. Nós entendemos que isso é o corpo parando de funcionar aos poucos. O médico nos disse que a situação dele era gravíssima. T4N2M1 no primeiro diagnóstico. Essa classificação piorou com o tempo.

Na noite do dia 24/01 o colocamos para deitar. Estávamos eu, minha irmã e minha mãe no quarto. Meu pai era um paciente em estado terminal e nos foi autorizado ficar com ele. O primeiro turno acordado era o meu. A madrugada chegou, e por volta das 2h já do dia 25, meu pai levantou a mão. Ele não conseguia falar muito bem, e muitas coisas eram feitas por gestos. Eu fui até ele e ele me disse que queria “dormir”. Falou duas vezes e foi isso que eu entendi. Ele queria levantar, ele queria sentar, ele queria ficar de pé. Ele queria descansar. Tanto tempo privado do sono, e ele precisava desse descanso. Minha irmã acordou e eu fui deitar. Ele estava com algumas sondas entrando pelo nariz, mais o acesso de soro e medicamentos nas mãos. O acesso que teve que ser feito e refeito várias vezes, pois as veias estavam muito finas e não corriam mais sangue. Minha irmã falou com ele que não iria levá-lo pro sofá porque estava inviável. Todas as vezes era muito sacrifício para ele, ser carregado, a gente sem jeito, muitos equipamentos para levar junto.

Ela subiu o encosto da cama e ele se sentou. Sua respiração estava ofegante. Dava para perceber que o ar não estava chegando onde deveria. Eu estava deitado em uma poltrona reclinável que o enfermeiro trouxe. Eu estava de frente para ele. Ele estava olhando a janela, e sua respiração estava forte, como quem fazia muito esforço para conseguir puxar o ar. Ele ficou imóvel das 2:30 às 7:30. Durante esse tempo eu o observei por cada segundo. A frequência da respiração foi ficando menor, cada vez mais. O enfermeiro disse que esse estado chama “estado agonizante”. Não sabemos muito bem se ele ainda estava consciente, ou se já tinha ido. De qualquer forma, o enfermeiro aplicou mais uma dose de morfina, para ele não sentir dores. Esse é o estágio final antes de ter o óbito declarado.

Meu pai faleceu na manhã de segunda, dia 25/01. Ele estava olhando para a janela e viu o sol nascer. Essa simbologia foi muito forte para mim. O nascer do sol tem algo de “um novo mundo”, de uma renovação das experiências, das ideias, das lutas. Ali no horizonte onde ele surge, iluminando cada parte da paisagem, indicando o novo dia.

Os simbolismos ficaram muito presentes no decorrer destes dias. Até os astros se mostraram simbólicos para mim, mas não irei prolongar sobre isso. Presenciar uma morte foi algo muito forte, cada cena está marcada na minha memória. Fico satisfeito de ter conseguido despedir dele, e dizer o quanto eu o amava. Cada dia do processo foi doloroso para nós, e aqui neste texto não é possível descrever com precisão tudo o que passamos. Não acredito em vida antes ou depois da morte, acredito neste tempo em que vivemos e em como aproveitamos nossa estadia. Fora disso são outros quinhentos. Me apego a ideia de que meu pai descansou e teve paz de todo os meses de sofrimento e dores e internações. Talvez as dores maiores são as de quem fica, pois não teremos mais a sua presença física, apenas as memórias. E nesse momento é importante ressaltar a presença da família, de amigos e de pessoas próximas. Fazem muita diferença.

Presenciar um processo de morte, experiência marcante. Escrever sobre o processo me traz lágrimas e lembranças, boas e ruins. Faz parte da vida também.

Nova estampa em pré-vendaaaaa

Finalmente vai sair do forno a estampa baseada na música do Discarga (Contracultura) em que eu exalto as ações punks e anarquistas de todo o mundo. Tudo é referência, tudo é história.

Compre na pré-venda pela minha loja online, com previsão de envio e distribuição a partir de março. Clique aqui.

Stencil em Halftone

Halftone (ou Meio Tom) é um técnica de criar efeitos de degradês e luz e sombras, utilizando apenas uma cor chapada. Consiste em utilizar formas em diferentes tamanhos e espessuras para “enganar” o olho e simular uma imagem como se fosse real.

Muito utilizado em técnicas como serigrafia, xilo/linóleo e stencil, o Halftone é a principal técnica de simplificar a matriz para conseguir um bom resultado de impressão artesanal.

Nesse caso, eu peguei uma foto antiga, de uma modelo que pousou para o artista Alphons Mucha, e fiz uma versão em Halftone em stencil, utilizando linhas. Repare que as linhas possuem diferentes tamanhos e espessuras.

Esta é a foto original, que serviu de modelo para meu stencil.

As impressões podem ser adquiridas na minha loja online.

Stencil Mars Blackmon/Spike Lee

Conheci o personagem Mars Blackmon assistindo ao seriado “Ela Quer Tudo”, dirigida por Spike Lee. É uma série adaptada do filme homônimo dos anos 60, dirigido e estrelado por Spike Lee também. A série/filme gira em torno das experiências sociais, amorosas, profissionais de Nola Darling, e Mars Blackmon é um dos personagens coadjuvantes.

Comecei a ver a série por conta do visual do personagem Mars, com Anthony Ramos fazendo seu papel. Messenger com single speed, visual a caráter bem estiloso, cap de ciclista, personalidade própria, o personagem com quem mais me identifico dos três coadjuvantes. Essa imagem me fez querer acompanhar a série e, posteriormente, ver o filme.

O filme é diferente, traz elementos do contexto da época, e Spike Lee soube aproveitar bem o tempo/espaço, e as discussões e reflexões que os acompanham, em cada cena. Ambos trazem reflexões sobre a vida na cidade, racismo, relações humanas, cultura. Acho que vale a pena assistir.

Esses stencil que eu fiz é uma homenagem a esse personagem, Mars Blackmon, e seu criador, Spike Lee.

A impressão deste stencil pode ser adquirida através da minha loja virtual.

Stencil com referência pronta, mudando apenas o foco.

Stencil em 4 camadas

Revisitando trabalhos antigos, achei essas fotos tiradas pela minha querida amiga Raquel Pinheiro. São dois posters produzidos com stencil, provavelmente nos anos de 2014 e 2015. Eu realmente curto trabalhar com referências fotográficas, retirando elas de contexto e focando numa expressão de algum personagem. Essa foto original possuía vários outros elementos, tudo em tons de cinza.

Não sei quem é o autor da fotografia, nem de onde retirei ela. Eu coleciono muita imagem digital, e faz mais de 20 anos que sou assim.

Pela ferrovia subterrânea

O primeiro livro que li em 2021 foi o “Underground Railroad – Caminhos para a liberdade” do escritor estadunidense Colson Whitehead. Que livro cares leitores, que livro!

Foi impossível parar de ler. Li de uma maneira frenética, adentrando todo esse universo e não consegui parar de ler nem quando o livro terminou. Fui ler o livro extra que a TAG manda, bem como pesquisei sobre o autor.

Não sou crítico literário, então vou escrever o que quero escrever sobre minha leitura aqui. Não espere uma crítica profunda, cheia de relações históricas, análises de personagens e essa coisa toda. Quis escrever sobre esse livro por conta das analogias com o anarquismo que eu encontrei nesse livro.

O anarquismo é uma ideia e um movimento. Age por debaixo dos panos, nas vielas, nos becos, no submundo, nas entrelinhas, na literatura, na ação, na coletividade. A Ferrovia Subterrânea me trouxe muito dessas ideias. Uma rede construída por várias mãos e mentes anônimas, para fazer com que negros consigam sua alforria na fuga para estados não-escravistas. Soa como o anarquismo e toda sua “ilegalidade” na busca pela liberdade e pela autonomia. Existem pessoas dispostas a ajudar e, no final, todos se ajudam por um bem maior. No final, no processo, no começo.

A ideia surge, é compartilhada. E quem são os que ousam buscar os caminhos que chegariam lá?

A Ferrovia são as redes. O Trem são as ideias. O Destino é a liberdade.

“A ferrovia subterrânea é maior do que seus operadores. É todos vocês também. Os pequenos aguilhões, os troncos principais, temos as mais novas locomotivas e os motores mais obsoletos, e tem um carro movidos a manivela como aquele. Ela vai a toda parte, há lugares que conhecemos e a lugares que não conhecemos. Temos esse túnel bem aqui, correndo embaixo de nós, e ninguém sabe pra onde ele leva.”

Não lembro a página

Várias pessoas em várias lugares diferentes, construindo a Ferrovia, sem saber exatamente onde chegariam, mas com a certeza que conseguiriam a liberdade. Ideias circulando, redes se articulando. O anarquismo é muito maior que as pessoas. Não pode ser morto, nem acabado. É um conjunto de ideias e ações, experiências e compartilhamentos.

A Liberdade é um conceito diferente para cada ser. Bem como autonomia. Basta compreender o significado dessas palavras e você terá chegado no seu destino? E o que basta saber para que todos chegássemos aos nossos destinos?

A Ferrovia Subterrânea para mim foi uma analogia às redes de contrainformação dos “de baixo”. Não consegui desvincular desta ideia em nenhum momento do livro.

Steinberg e os bons tempos de Escola Guignard

Vendo algumas imagens de 2011, me deparei com as fotos que tiramos nas aulas de Artes Plásticas lá na Escola Guignard. Na aula de criatividade da professora Júlia Panadés experimentamos muitas coisas baseadas nos registros de Saul Steinberg. Eram época divertidas, aprendi e desaprendi muito sobre arte e desenho. Me deu saudades dessa época. Seguem registros da sala de aula.

As fotografias e os trabalhos foram feitos por váries alunes, colegas de estudo e hoje colegas de profissão, de atuação, de lamentos, rs. Saudades dessa época.

Revisitando pinturas antigas de novo

Achei foto desta pintura que fiz, provavelmente, em 2014. Não sei bem a data. É a reprodução do poster de um filme mexicano sobre luta livre. Para quem não sabe, os lutadores de Lucha Libre eram também heróis de carne e osso, aparecendo em filmes e quadrinhos lutando contra vários tipos de inimigos: Dráculas, monstros, múmias, marcianos, personagens de mitos, lendas e fábulas. Isso ajudou e muito a popularizar a figura dos luchadores e o esporte lucha libre no país.

Santo y Blue Demon contra Los Monstruos

Vários Luchadores conseguiram fama, sucesso e uma popularidade impecável na cultura mexicana. Na maioria dos filmes e quadrinhos os três principais Luchadores que aparecem são el Santo, el Blue Demon e el Mil Máscaras. Mas também pode-se encontrar outros famosos nomes como Huracán Ramirez, Místico, Gory Guerrerro, Rey Misterio, Rayo de Jalisco.

Mais uma xilogravura na área

Desde 2019 que eu estou trabalhando em uma matriz de xilogravura com a temática de imigração. Eu vi essa imagem de um cara pulando a cerca que separa Chiuhuahua do Texas nos idos de 2009, quando ainda assinada Le Monde Diplomatique. 3 anos depois eu fui morar nesse mesmo local, Ciudad Juárez, Chiuhuahua, México. É uma relação de cidade bifronteiriças e binacionais. Nunca tinha ouvido falar de relações deste tipo. Os habitantes passam e voltam a fronteira todos os dias, pois moram no México, trabalham nos estados Unidos, compram coisas nas duas cidades, se divertem nas duas cidades. É bizarro. É uma questão bem diferente se pensar nesse muro/cerca vergonhosos que foi construído ao longo do Rio Bravo, que divide os dois países.

Tardou muito tempo até que eu conseguisse concluir essa gravação. Ela tem detalhes precisos em apenas parte dela, mas a questão é que eu sempre deixava outras tarefas para serem feitas antes e sempre adiava a conclusão desta matriz.

A madeira utilizada foi um compensado de pau marfim, no tamanho um pouco maior que um A4. Utilizei basicamente goivas tipo faca, e usei goivas em V e em U para fazer pequenas incisões ou remover o fundo.

Movimentos migratórios sempre existiram e sempre existirão e não será um muro que irá eliminar esse processo. Mx/US, Ceuta, Palestina/Israel, Grande Muralha, Muro de Berlim, construções que trazem vergonha à humanidade.

Os vídeos com os processos de gravação e de impressão podem ser conferidos no canal de Youtube ou no IGTV do Instagram.

Placa de Madeira

Mais um desafio laboral. Uma placa para um senhor de 91 anos de idade que decidiu montar um engenho de cana de açúcar para fazer rapadura lá em Araçuaí. Utilizei duas tábuas de Cedrinho, e o tamanho total é de 120cm x 60cm.

Horas de trabalho que foram subestimadas pela minha pessoa. Muita dor na colunas, nos ombros e no antebraço, além dos inúmeros calos nas mãos.

O tio e o avô da minha esposa/companheira me ajudaram no processo. Eles tinham mais ferramentas, espaços e conhecimento com trabalhos deste tipo. A ajuda deles foi essencial para a conclusão e acabamento do trabalho.

Mas o resultado ficou bem legal. A madeira foi tratada com cera negra queimada, lixa e verniz.

Primeira Live no Insta

Hoje fiz minha primeira Live. Foi interessante, foi 1 hora com um processo de impressão de uma xilogravura, cuja matriz foi gravada já há algum tempo mas nunca foi impressa. Algumas pessoas assistiram, trocaram uma ideia, perguntaram sobre o processo, sobre dúvidas e foi bem interessante. Como foi a primeira, acho que algumas coisas ainda podem melhorar, hahahaha, mas foi um processo importante nesse tédio chamado isolamento social, hahaha.
A Live completa está disponível no IGTV do meu Instagram ou a seguir:

Pinturona com cenas de filmes

Pouco antes de iniciar o isolamento social em BH, minha querida amiga Fabi me encomendou um trabalho que seria um presente para o marido dela. Ela me passou algumas referências de cenas de filmes, e queria fazer um mosaico, ou algo parecido, com as cenas. Eu dei a ideia de pegar essas cenas e colocar todas no mesmo cenário, como se tudo estivesse acontecendo ao mesmo tempo. Eu tinha uma ideia de uma coisa meio “Onde está o Wally” em que cada cena seria descoberta em cada local do cenário. Pensei em fazer tudo digital, afinal sairia mais rápido e mais barato, mas conversando com ela chegamos a conclusão de que uma pintura seria bem melhor, mais personalizado, mais exclusivo, mais chique. Tudo combinado para iniciar o trabalho e tivemos que adiar a produção, porque faltava comprar tintas, pincéis novos e um painel, e as lojas todas estavam fechadas.

Depois de algum tempo, e com as lojas voltando a funcionar com sistema de entregas, decidi reabrir meu atelier e retomar meu trabalho. Consegui encomendar o painel no tamanho que eu precisava e consegui também algumas tintas (não consegui todas que eu queria porque a distribuidora não tava conseguindo entregar pras lojas). Dei início à pintura. Fiz várias marcações com lápis HB, iniciando com um gradeado de leve, e depois marcando as linhas que funcionariam como guia de perspectiva. Logo após, fiz aguadas de preto bem clarinho, bem diluído, para marcar onde iria cada elemento arquitetônico que eu tinha colocado no esboço. Também aproveitei para fazer uma aguada de azul no local onde ficaria o céu.

Depois de ter as marcações de aguada completamente secas, comecei a trabalhar com a tinta acrílica menos diluída ou pura, aplicando efeitos de pincéis em diversos lugares. Eu gastei muito tempo, talvez mais do que eu deveria gastar, trabalhando o fundo e o cenário. Dei uma caprichada em vários detalhes e tentei colocar várias habilidades em prática. Já faziam alguns meses que eu não pintava, e estava um pouco sem prática.

No meio do processo eu tive algumas questões com algumas limitações que eu tenho em relação à cor. Para mim, é muito difícil clarear/escurecer ou fazer uma passagem entre duas cores de forma suave. Eu consigo pensar o que pretendo fazer, mas quando tento materializar, sai de forma diferente e acaba ficando meio grosseiro. O uso do preto e do branco para criar alguns efeitos de luz e sombra não deu certo nesta pintura, sobretudo em detalhes minuciosos de rostos. No decorrer da pintura, minha esposa Natália me ajudou com algumas questões e chegamos a conclusão de que não fazer os rostos ficaria melhor. Como artista, é difícil compreender as limitações técnicas, pois sempre achamos que tudo é possível de alguma forma. Mas foi importante saber colocar um fim ao processo de pintura, abrir mão de algumas questões para ter outras. Neste caso, eu abri mão dos detalhes dos rostos para ter uma pintura mais delicada, menos grosseira.

Enfim, foi uma pintura cansativa, mas que me deu muito orgulho de fazer. Por ser daltônico, as pessoas dizem que eu costumo ser mais ousado na utilização das cores, e essa é uma característica que eu gosto. Ousadia. O processo foi paralisado em diversas ocasiões, tive que conciliar com outros trabalhos que estavam pendentes também e eu não poderia estar mais feliz.

Pintura finalizada

Acho que eu só tenho a agradecer à Fabi (e Fábio) pela confiança e pela paciência, à Nat, minha companheira, pelo diálogo e sugestões, e à todos que me apoiam de algum forma. O vídeo com o processo de produção pode ser conferido logo a seguir.