Sobre a relação da educação com o punk rock – parte 3

Mais de um ano se passou desde que escrevi a parte 2 desta série de análises e reflexões. Fico muito feliz por ter relido minhas publicações anteriores e ter encontrado uma série de falhas, coisas que eu não escreveria hoje. A cada dia aprendemos mais, movimentamos as ideias e alteramos uma série de pensamentos. Viver é se locomover, ainda que seja somente com ideias. Saber reconhecer o quanto evoluímos nesse tempo é, de certa forma, libertador.

Meus estudos sobre educação seguem ativos, e meu interesse está cada vez maior. Ainda sigo com uma certa aversão em relação à instituição escola, e minhas críticas ao sistema escolar engessado se multiplicam a cada dia. Será mesmo tão difícil exercer um processo de aprendizado que forme sujeitos livres? A cada dia escuto mais e mais músicas que dialogam com a educação de alguma forma, e raramente escuto coisas positivas sobre os processos. Fico apenas refletindo sobre nosso crescimento, o contato com novas ideias e as críticas que fazemos à nossa formação. Hoje somos seres pensantes, sujeitos críticos, marginais, porque extrapolamos nossas relações para além da escola. Isso nos traz novas ideias, novos diálogos, novas possibilidades de atuação.

“No brain, no gain
Progressão continuada
Aprendizagem massacrada
Desequilíbrio da informação
Aniquilar a educação
Progressão continuada
O estado reduz os custos
Descasos nas escolas
Para formar adultos burros”

No Brain, No Gain – Discarga

Durante nossa formação somos completamente dependentes das instituições formais de ensino. Nossos pais decidem para onde iremos, e isso faz até sentido, porque somos crianças e fomos privados de tomadas de decisões desde sempre. Quando crianças nós apenas executamos as tarefas que nos são dadas. Assim nos acostumamos durante nossa formação, recebemos ordens, as executamos. A diferença em relação à vida adulta, é que as tarefas que executamos nos fornecem verbas para pagar contas e consumir. Mas a apatia segue igual. Nos resta ser só mais uma parte de um sistema explorador.

Provido de um conhecimento 
Que serve apenas como um mero instrumento 
Somos simples engrenagens 
Movendo uma monstruosa máquina 
Desde o início somos vítimas 
De um sistema educativo que anula criatividade 
Castra desejos, encerra a curiosidade pelo auto-sustento 
A sobrevivência nos limita 
A uma erudição falha e carente 
Que estimula a competição e a obediência 
Formando indivíduos controlados 
De gestos repetitivos que garantem grandes produções 
O empreguismo é o prêmio e a ignorância um castigo 
Rudemente ler e escrever ou até mesmo nem isso 
Estrutura cultural zero 
Porque empecilhos do poder afogam nosso potencial 
Escolas Livres 
Educação de verdade

Educação Zero – Abuso Sonoro

E pensando nessa busca constante por conhecimento, me pergunto onde foi que isso parou de ser um objetivo pelas pessoas. Não acredito que a instituição escola tenha causado isso sozinha. Cada um coloca, `a sua maneira, o que seria o ato de educar, ou qual tipo de educação é importante. Entram dogmas religiosos, dogmas políticos, regras morais, e no final os jovens parecem não querer saber sobre a educação. Combatem o menosprezo pelos dogmas e opressões com uma rebeldia superficial anti-sistêmica, sem indicar que sistema é esse, sem aprofundar nas questões sociais causadoras dessas opressões. Descrevem a ação estudo como algo ruim, como se não precisássemos estudar para fazer qualquer atividade cotidiana, como usar um celular ou praticar esportes. Mesmo ações hoje automáticas exigiram estudos outrora. Talvez os conceitos de estudos, de escola, de educação já tragam conotações opressoras, e isso afasta mais ainda as pessoas da busca por conhecimento. E sem interesse não há ação, não há teoria, não há reflexão, não há diálogos. Nada funciona.

Nova Loja Virtual

Passei muito tempo insatisfeito com o hospedeiro da minha loja virtual. E depois de muita pesquisa para compreender uma loja que se adequasse mais ao meu perfil, eu finalmente achei.

Lhes apresento a nova loja, com mais opções de pagamento e de entrega, mais funcional e melhor para administrar. Ainda estou subindo os produtos, mas aos poucos ela vai se tornando mais completa. Espero que curtam.

Acessem https://la-idea.lojaintegrada.com.br/ ou cliquem no Menu Loja.

Fragmentos #1

INTRODUÇÃO

48 minutos de bicicleta. Esse é o tempo que gastei da minha residência, zona noroeste, para uma entrevista de trabalho, na zona norte. No caminho presenciei um acidente. Um carro entra na contramão e acerta em cheio um motoqueiro que fazia a conversão olhando apenas para o lado em que os carros deveriam vir. É um choque absurdo ver tudo acontecendo. Apesar da rapidez do som do impacto, tudo pareceu em câmera lenta. O motoqueiro é lançado para o alto e cai em cima do capô do carro. A moto é arremessada até o portão fechado da loja da esquina. Várias pessoas correm para ajudar ou para saber o que tinha sido o estrondo. Eu fiquei lá um pouco, mas não podia perder a entrevista.
O dia estava quente, com uma massa de ar seco pairando na paisagem. Comecei a pedalar por volta das 12:30h, pra dar tempo de chegar na entrevista que seria às 14h e retomar o fôlego, secar o suor. Péssimo horário para pedalar.
Cheguei no local, ainda cansado e suado, toquei o interfone e um funcionário me atendeu. Disse que tinha vindo para uma entrevista de oficinas, ele pediu meus documentos e me deixou aguardando ali na rua por uns 12 minutos. Pareceu uma eternidade. Ele me disse para entrar e esperar em uma sala de reuniões onde havia apenas uma mesa e 4 cadeiras em volta. Em seguida entraram duas mulheres para conversar comigo sobre o trabalho. Uma que estava lá somente para anotar e fazer a ata, e outra, terapeuta ocupacional, guiaria a entrevista.
Elas me explicaram que no local funciona uma Casa de Semiliberdade, ligada ao Sistema Socioeducativo. Ali, jovens cumprem penas alternativas e precisam participar de atividades ligadas à cultura e à educação durante a estadia. Minha tarefa seria a de fornecer semanalmente oficinas de artes visuais, mais ligadas ao graffiti, durante 90 minutos. A remuneração era de R$80 por hora de trabalho, ou R$120 por oficina.
Me interessei pela conversa e elas me proporcionaram um tour pelo local. Era uma casa de dois andares, sendo que o de cima, no nível da rua, era a parte de escritório, reuniões e trabalho dos técnicos, e a de baixo, no subsolo, era composto pelos alojamentos e por um pátio grande onde aconteciam as diferentes atividades. Combinamos uma data, daqui dois dias, para uma oficina experimental com a finalidade de avaliação das minhas práticas de oficineiro.
Depois de acertados todos os detalhes burocráticos, peguei minha bicicleta para ir embora. A volta seria mais intensa. O sol já não estava mais tão forte, mas a quantidade de subidas seria maior. 1h12 para chegar em casa. Apesar de mais longo, o tempo passou rápido. Na minha cabeça maquinaram novas ideias do que eu poderia trabalhar naquele local, já planejava uma oficina experimental que pudesse atender à expectativa de jovens naquela situação, ainda com toda preocupação em ser bem avaliado pela Instituição que planejava me contratar.
Já em casa, espalhava as notícias aos meus familiares de que as coisas estavam melhorando. Seria meu terceiro trabalho como oficineiro de forma simultânea, e cada um deles teria sua parcela de contribuição para minha renda mensal.
Essa noite eu dormi bem.

CAPÍTULO 1

Passaram-se dois dias desde então. Hoje poderia ser uma data daquelas em que se comemora algo especial. Uma nova experiência se inicia, e com isso novas ideias, novos contatos e novas possibilidades.
No decorrer destes dias, conversando com a Terapeuta Ocupacional, criei um plano de oficina utilizando os materiais que eles disponibilizavam. Eram exercícios simples para eu poder, talvez, conhecer um pouco mais esses jovens. A ideia era usar apenas lápis e papel. Minha intenção era que os jovens se desenhassem no centro e, a partir disso, iniciassem uma série de ligações com coisas que os rodeiam. Poderia ser qualquer coisa: locais, eventos, objetos, situações, memórias…
Me organizei um pouco melhor com os horários, pois já tinha noção do tempo que levava para chegar ao local. Não levei nenhum material específico, pois sabia que não os usaria nessa oficina. O dia estava quente, mas não tão insuportável quanto no dia da entrevista. A ida, repleta de descidas, fornecia uma brisa que aliviava a sensação térmica, seguida por um trecho plano mais fresco que contorna a lagoa rumo à Zona Norte. Enquanto pedalo evito ao máximo trafegar na contramão dos carros, e ciclovia é uma coisa que me dá ojeriza, mas tem vez que não tem jeito. Para evitar um trecho com trânsito mais complexo, ou cortar caminhos, se faz necessário a contramão ou a ciclovia. Muitas vezes a calçada ajuda, mas não gosto da ideia de colocar a integridade física de pedestres em risco.
Quase chegando à Casa existe uma descida em direção a um ribeirão antes do acesso ao bairro de destino. Descida íngreme, repleta de areia que alguma obra ou caminhão derramou na via. Meu pneu traseiro, próprio para uso em asfalto, não dá conta de frear e eu derrapo durante a descida. Não caio no ribeirão por pouco. Um susto apenas. Acho que todas as pessoas que pedalam passam por sustos no decorrer de seus trajetos. Ainda que não tenha acontecido nada demais, o nervosismo sobe com o susto, e vem o receio de sofrer um acidente mais grave.
Chego na Casa ainda com os batimentos um pouco acelerados. Cheguei cedo, com um bom tempo para tomar um gole de água, retomar fôlego e diminuir a umidade na roupa causada pelo suor. A Terapeuta Ocupacional vem me receber, e ela me mostra a sala de materiais enquanto conversamos sobre os jovens. A sala de materiais tem uma janela grande com vista para o pátio de atividades. Lá de baixo os jovens me observam quando me aproximo da abertura. Um frio na barriga toma conta daquela situação e talvez meu nervosismo e ansiedade fiquem bem aparentes. Primeiro dia em uma experiência nova é sempre assim. Você sabe que é capaz, já fez isso várias vezes, está cansado de saber como funciona, mas a ansiedade é inevitável.
Na sala de materiais fico sabendo onde ficam guardados papéis, lápis, tintas guaches, borrachas, apontadores, trabalhos anteriores… Também tem uma mesa redonda com 4 cadeiras dessas que são conjugadas com um apoio lateral, típico de salas de aula, mas que não se encaixam para serem utilizadas com a mesa grande. Também tem uma estante com livros diversos. Muitos livros de projetos de rap que deram certo, livros didáticos escolares, alguma literatura mais complexa, e muitas bíblias. Realmente a quantidade de bíblias me chamou a atenção, porque se destacam muito. Em uma estante de cinco prateleiras, uma delas era só de bíblias, duas de livros diversos, uma de papéis, uma de equipamentos velhos que estavam largados ali, como um projetor quebrado e uma televisão de tubo 14 polegadas.
A Terapeuta me informou que a minha oficina sempre será dividida com outra atividade. A minha será interna e a outra externa. Ela argumentou que fazem dessa forma para alternar as atividades, e os jovens com melhor comportamento na Instituição podem escolher o que querem fazer naquele dia. Essa estratégia também se fazia necessária para diminuir o grupo com que cada oficineiro trabalharia, facilitando a dinâmica das atividades.
A Terapeuta me informou que a minha oficina sempre será dividida com outra atividade. A minha será interna e a outra externa. Ela argumentou que fazem dessa forma para alternar as atividades, e os jovens com melhor comportamento na Instituição podem escolher o que querem fazer naquele dia. Essa estratégia também se fazia necessária para diminuir o grupo com que cada oficineiro trabalharia, facilitando a dinâmica das atividades.
Saímos da sala e fomos descer a escada que ficava no corredor da Casa. Antes de acessar o pátio um funcionário me parou, contou todo o material que eu carregava, recontou e anotou. Na volta, a conta teria que ser igual. A Terapeuta me disse que isso era uma medida para evitar furtos e impedir que qualquer material possa ser usado em caso de conflitos.
Chegando no pátio, já haviam cerca de 15 jovens sentados em uma mesa retangular me aguardando. A Terapeuta me apresentou, logo em seguida eu me apresentei. Disse que estava ali para dar oficinas de artes visuais, para praticar um pouco a memória e o desenho e, a partir disso, ir desenvolvendo outras técnicas. A maioria dos jovens tinham tatuagens aparentes nas mãos e antebraços, alguns possuíam tatuagens nos rostos e pescoços. Enquanto eu olhava as tatuagens deles, eles olhavam as minhas. Essa foi a primeira interação onde aconteceu uma identificação entre pares. Era perceptível que naquele espaço havia uma riqueza histórica e cultural enorme, uma diversidade de experiências que me levaram a escrever os fragmentos que narro aqui.
Coloco os materiais na mesa, digo a minha proposta e iniciamos os trabalhos. Não posso me alongar muito, pois 90 minutos de oficina passam bem rápido. Os jovens desenham de acordo com o que falo. Alguns com mais vontade, outros com menos. O vento fica tentando levar as folhas embora, e nota-se o esforço dos jovens para manter os papéis na mesa. Eu olho para o que estão fazendo: uma figura humana no centro, objetos diversos ao seu redor. Vejo armas, números, animais, bolas de futebol, letras de músicas, padarias… Fico feliz em saber que boa parte está interessada na tarefa.
Os jovens fazem muitas perguntas sobre mim: De onde sou? Com que trabalho? Quanto ganho? O que significam minhas tatuagens? Respondo apenas algumas perguntas, pois não tenho intimidade com eles para dizer algo além do profissional, mas acho que o local de origem é importante para criar diálogos. Eu digo e eles me chamam de Boy, porque o bairro onde moro é classe média.
Durante a oficina, a Terapeuta me observa e conversa com os jovens. Uma outra técnica fica mais distante apenas analisando. Há 5 funcionários disciplinadores responsáveis pelos jovens no pátio e nos alojamentos. Os jovens chamam os funcionários disciplinadores de “Agentes”. Ao que parece, toda a interação humana naquele local ocorre sem problemas, pelo menos foi assim à primeira vista.
O tempo de oficina termina e a maioria dos jovens não concluiu seu  desenho. Alguns simplesmente largam o material ali de qualquer jeito. Já outros querem continuar e terminar o que começaram. Os materiais são recolhidos e contados para conferência. A Terapeuta me chama para subir e eu despeço dos poucos que ali ainda estavam, buscando alguma interação comigo, falando algo sobre o desenho ou sobre minhas tatuagens.
Subimos de volta para a sala de materiais e, enquanto eu guardava os materiais utilizados, a Terapeuta me dizia que o Sistema possui algumas regras e deveres, tanto para os oficineiros quanto para os jovens. Lá no pátio os jovens não poderiam se envolver em conflitos, deveriam manter a organização do espaço. Eram obrigados a participar das atividades e não poderiam fazer apologias ao crime. Ao final da minha oficina eu deveria fazer um relatório escrevendo sobre como cada jovem se portou, o que fizeram, quem se destacou ou quem fez apologias. Essa questão da apologia me deixou com uma série de perguntas sobre o tema. A Terapeuta me respondeu que fazer apologia seria falar sobre o crime que cometeram ou sobre o artigo no qual foram enquadrados, falar sobre drogas, facções, escrever siglas, desenhar ou fazer referência a armas, gesticular siglas com as mãos ou apontar gestos para outro jovem, falar sobre morte ou assassinatos, e mais uma série de fatos e situações genéricas.
Ela me disse que os desenhos que eles fizeram na minha oficina estavam repletos destes elementos, e que seria meu dever reprimir no ato e colocar no relatório final para esses jovens receberem as devidas sanções e punições. Eu fico em silêncio, apenas pensando nisso. Ela disse que vai redigir o contrato e que eu terei que ir na sede do Programa para firmar e poder começar a trabalhar.
Vou embora de lá pensando em várias questões. Enquanto pedalo, tenho minhas reflexões sobre como é aleatório o julgamento do que seria apologia. Vários dos exemplos que a Terapeuta me deu, a meu ver, dizem respeito às próprias experiências de vida daqueles jovens, seus contextos, suas atividades. Muitos viveram isso em toda sua trajetória. Isso ficou bem claro para mim, sobretudo quando olhava para seus desenhos. Para mim a arte deveria ser livre, serviria para iniciar diálogos, dotar de sentido as ações e relações, ajudar na cognição e em vários tipos de interações. Os desenhos daqueles jovens poderiam dizer muito mais sobre eles do que qualquer conversa, onde filtramos algumas coisas objetivas que não queremos expressar.
Apesar de um primeiro contato parcialmente frustrante, retorno pra casa pensando em como melhorar a dinâmica destas oficinas, o que poderia fazer para contornar essas situações burocráticas institucionais.
Para os próximos passos eu deveria apenas aguardar, pois teria que assinar contrato e alinhar meus horários com a equipe técnica para as oficinas semanais naquela unidade.
Eram tempos de planejamento.

Todo conhecimento pertence a uma rede

Esse título ficou estranho, mas eu realmente não sei como resumir meus próximos parágrafos em uma manchete. Eu só gostaria mesmo de tentar escrever, um pouco, sobre como as áreas do conhecimento nunca devem ser analisadas de forma isolada. Meu pavor da “instituição escola” vem justamente dessa separação em relação às temáticas que são trabalhadas, a forma como são colocadas em caixinhas de conhecimento, como se tudo fosse fragmentado e fosse dever exclusivo dx alunx reunir e associar tudo isso a fim de criar algum sentido lógico.

Já faz algum tempo que eu estou estudando e me aprofundando mais em algum tipo de educação que busque autonomia dxs sujeitxs, e xs autorxs anarquistas e libertárixs são xs que tem iluminado melhor meu caminho nesse sentido. Elxs entendem o processo educacional através de atividades, práticas e teóricas, sempre coletivas, associando as diversas áreas de conhecimento através de vários pontos de vista, de experimentações, de pesquisas, de diálogos. Pensando assim, uma pessoa que gostaria de cortar uma tora de madeira, fazer lenha e colocar em um fogão para fazer a comida, estará estudando biologia, química, matemática, física, artes, engenharia, educação física, história, geografia, etc. Isso tudo em uma simples ação de colher e cortar madeira. Eu sei que esse exemplo é bem superficial (e estou aberto a discussões), mas ele demonstra um pouco onde quero chegar com as minhas pesquisas.

Acho que esse tipo de ensino traz uma capacidade de associação muito interessante, e me dá até uma frustração em saber que o mais próximo dessa realidade seriam as escolas construtivistas, tão elitistas e inacessíveis. Imagina o tipo de conhecimento que poderia circular se essas práticas e metodologias de ensino fossem em outros ambientes, mais populares?

A minha ideia, então, é contar três curtos casos que aconteceram recentemente, que são desdobramentos de uma mesma coincidência e que me fizeram conhecer um pouco mais da história do próprio estado onde vivo, Minas Gerais.

SITUAÇÃO 1 = Na porta da oficina de bikes. Outro dia eu estava na porta da Canuto Cycles, trocando ideia sobre bikes e aguardando um serviço que estava sendo feito na minha bicicleta. Em algum momento, outro ciclista chegou por lá, e enquanto ele aguardava nós começamos a trocar ideia. Ele disse que morou em Lisboa por um tempo, e contava algumas histórias de lá. Ele citou um caso de que a pessoa com quem ele dividia a casa com ele quase incendiou o imóvel em duas oportunidades. Ele usava drogas injetáveis, e no momento em que desmaiava e adormecia fora de si, todo o aparato usado para preparar a substância seguia aceso, inclusive o fogo. As chamas cresciam muito e o risco de incêndio era real. Seguindo neste mesmo tema, ele disse que em Lisboa tem muitos imóveis que são feitos de madeira, pois depois do terremoto e tsunami de 1755, as casas começaram a ser construídas ou reformadas com estrutura de madeira, uma política do Marquês de Pombal, e era exatamente isso que ajudava a aumentar os focos de incêndio causados por moradores na Lisboa contemporânea. Olha que loucura.

SITUAÇÃO 2 = Ouvindo PodCast. Certo dia eu estava escutando um podcast enquanto lavava vasilhas, e dei play no episódio do Fronteiras Invisíveis do Futebol em que os locutores falavam sobre Minas Gerais. Esse podcast é interessante, une história e esporte, trazendo os aspectos sociais, políticos e culturais na história de algum lugar, seja estado, país, região. Em determinado momento, e claro que não poderia faltar, a Inconfidência Mineira vem à tona. E por mais que eu tenha estudado sobre essa temática na escola, eu nunca tinha associado esse episódio desta forma. De acordo com meu conhecimento prévio, a revolta se iniciou por causa da insatisfação com a tributação da Coroa Portuguesa em relação ao ouro na cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto). E meu conhecimento sobre a motivação terminava aí. Sim, sou um péssimo mineiro. De acordo com a pesquisa dos locutores do Podcast, o aumento da tributação que ocasionou essa revolta foi justamente devido aos altos gastos da Coroa Portuguesa com a reconstrução de Lisboa após a destruição causada pelo terremoto e tsunami. A Coroa queria mais ouro para poder financiar a reconstrução, e a fonte de recursos estava justamente na exploração da Colônia.

SITUAÇÃO 3 = Escutando músicas. Um dia desses eu estava reorganizando minhas mp3, renovando a playlist que está no celular, e decidi colocar vários discos que eu escutava há 15, 16 anos atrás. Tem uma banda em específico, oriunda da Venezuela, chamada Los Dolares, que eu conheci através de um amigo que passou sua infância naquele país. Lembro de escutar muito no início dos anos 2000, talvez 2003 ou 2004, porque era um som anarcopunk que soava muito bom para mim. Acho que na época eu devia ser muito novo (e também não entendia muito bem o idioma espanhol/castelhano) e as letras não eram assim uma coisa tããão importantes e sensacionais. Hoje eu tenho muito mais maturidade e conhecimento para escutar as coisas e compreender do que estão dizendo as letras, seja em português, espanhol ou inglês. Talvez seja até por isso que tenho voltado a escutar vários sons que eu escutava quando jovem (afinal, tem pouca coisa boa surgindo na cena punk, e estou cansada destas bandas novas, de ideias políticas isentonas, que só faz as coisas pra chocar o mundo virtual). Enfim, enquanto escutava Los Dolares, uma música começou a tocar. Se chamava “La fiebre del oro”, e possui boa parte dela uma narrativa calma sobre como a história acaba sendo uma arma dos poderosos para vangloriar e registrar seus feitos, ignorando e esquecendo das lutas dos de baixo. Os colonizadores chegaram nestas terras, exploraram tudo o que tinham direito, promoveram verdadeiros massacres, e a história que escutamos e aprendemos é a que os vitoriosos e poderosos nos contam. A letra desta música cita Ouro Preto, em Minas Gerais, como um exemplo disso. Toda riqueza foi explorada e saqueada para manter os padrões de luxo da Coroa Portuguesa, e ainda assim e história que escutamos é a versão dos poderosos. E digo isso incluindo as próprias vozes dessa revolta da Inconfidência Mineira, um movimento de caráter elitista, onde um sujeito foi morto como bode expiatório, onde criou-se falsos heróis, e a elite participante simplesmente o largou lá. Onde estava o povo? Quem essa elite explorava? A quem pertencia as riquezas da terra? Há outros olhares e reflexões sobre o episódio que não tenha sido escrito pelos de cima?

Eu coloquei essas três situações pra conversar um pouco sobre os diálogos que são criados a partir de diferentes mídias. Aqui, os diferentes sujeitos trazem cargas de conhecimentos e de experiências que podem não ter ligação nenhuma aparente, mas que me fizeram criar uma rede de conhecimentos que envolvem vários aspectos históricos, sociais e culturais. E é mais ou menos isso que me interessa nas minhas pesquisas sobre educação. As vivências e experiências fazem todo sentido quando são compartilhadas, quando geram diálogos. Parece bobo trazer essas situações e forçar um tipo de estudo em cima disso, mas é justamente sobre isso que se trata um processo educacional que seja mais inclusivo. Ele é coletivo, transpassa as barreiras de um simples encontro, é um processo contínuo de associações que acontecem em todas as nossas atividades. TODAS.

Por isso que me dá um certo desespero saber como foram as aulas que eu recebi durante a minha formação e como são as aulas que eu acompanhei durante meus estágios. As duas foram horríveis, fragmentadas, completamente sem sentido. As disciplinas, encaixotadas, não conversam entre si. Me lembro de um episódio enquanto fazia o estágio obrigatório, e dei uma aula sobre processos de impressão manual, mais especificamente a serigrafia e os recursos gráficos que enganam nossos olhar. A ideia era simples, utilizando um sistema CMYK (o mesmo que usa sua impressora a cores), ou seja, com apenas 4 cores (ciano, magenta, amarelo e preto), nós conseguimos reproduzir uma gama de milhões de cores, que enganam nossos olhos e nos fazem enxergar imagens fotográficas em um cartaz ou capa de livro, por exemplo. Essas cores, quando próximas ou sobrepostas umas às outras, criam tonalidades que só existem no nosso cérebro, não existem na impressão. A aula foi ótima, xs alunxs se mostraram interessados, fizeram perguntas, e me parece que correu tudo bem. Na semana seguinte, fiquei sabendo que o professor de física daquela mesma turma, começou um conflito com a professora de artes, justificando que “ela estava atropelando a matéria dele, porque COR é assunto de física, não de artes”. Eu achei isso um absurdo, pois na minha cabeça COR é assunto de várias áreas do conhecimento, cada uma tem seu modo de analisar as cores, em diferentes aspectos. Teoria da cor se encaixa em uma área mais voltada para as artes, a formação das cores, ótica e luz se encaixam na área de física. E as dezenas de tons de branco que os esquimós enxergam? E os diferentes verdes da flora e da botânica? E a nomenclatura das cores em cada região? E a diferenciação entre frutos “verdes” e frutos maduros? Isso tudo seria trabalhado exclusivamente na física? É isso que não faz sentido nesse tipo de saber que é “transmitido” e “absorvido” na escola. Ele é fragmentado e impede que a gente consiga associar as coisas, nos atrapalha a construir um conhecimento mais amplo. Ele nos limita.

Pintura aguada a partir de foto

Acrílica sobre painel – 30x40cm – 2015

Outro dia, organizando meus arquivos aqui, me deparei com essa pintura que fiz em 2015. Ela foi vendida em um leilão na garagem do prédio dos meus pais e me ajudou a ter recursos para bancar meu intercâmbio para a Argentina em 2016.

Fiquei pensando no tempo em que a pintei, quais ideias eu tive, porque o formato, porque as cores, porque a imagem. Me lembro que eu andava querendo explorar essas técnicas mais aguadas, sobretudo depois que eu já tinha experimentado as aguadas nas experimentações litográficas. Antes disso eu era um pouco resistente à mistura de solventes, à sobreposição de transparências e à composições mais demoradas. Eu fazia tudo muito chapado, cores puras e vibrantes, talvez até por causa do daltonismo e do receio de que a mistura entre tintas e solventes poderia interferir negativamente no resultado.

Natália, minha companheira de longa data e uma das minhas principais apoiadoras, me convenceu a arriscar mais, deixar o receio colorimétrico de lado, e ser mais espontâneo. Logo ela, que é adepta do realismo figurativo, me dizendo para ser mais ousado enquanto produzo. Talvez tenha sido nesse ponto da minha vida em que comecei a me importar mais com o processo que com o resultado. Isso é bom, mas não é todo mundo que gosta desse estilo. Me ajuda no autoral, me prejudica na prestação de serviços.

Enfim, começamos a pesquisar referências de imagens que poderiam ser produzidas a partir de aguadas em painel montado. Isso era uma novidade para mim e eu ainda não tinha muita noção de quais seriam os resultados. Usamos como referência a capa do livro do J.R. Duran, fotógrafo famoso, chique, glamouroso. O livro era o “Cadernos Etíopes”. A foto de capa, completamente em gradações de preto e cinza, me despertaram para alguns desafios que eu topei participar. Pensar nas proporções das figuras, relacionar os tons de cinza às cores, planejar os diferentes tons de tinta acrílica, esperar as poças secarem. Eram exercícios de paciência, concentração e planejamento que eu nunca tinha feito antes em pinturas, mas que já exercia nas técnicas de gravuras. Me lembro de lidar com algumas dificuldades em relação à quais tubos de tinta usar para as diluições, pois a tinta que costumeiramente se chama “pele”, é sempre um tom claro demais, europeu demais. Eu ficava incomodado em usar terra queimada e sombra queimada para representar as peles negras e pretas. São nomenclaturas que me soam estranhas e pejorativas. Essas tintas foram misturadas em diferentes proporções com amarelo ocre, marrom van dyck, preto e bastante água.

O resultado foi esse. Optei por não fazer o fundo, manter apenas as figuras. Assim, a atenção toda fico no primeiro plano, sem interferências.

Festival NUH!

O Festival NUH! começou na segunda feira. Está com uma programação cabulosa voltada para as artes gráficas, publicações e impressões. Hoje a noite tem uma mesa muito sobre técnicas analógicas de impressão, onde eu estarei trocando uma ideia com Luiza Gasparini, Luis Matuto e Leandro Mello sobre os processos de produção, perrengues, técnicas, histórias e como seguir com saúde mental, rs. Colá lá no Twitch, o endereço está no flyer!!!

Aula de Registro de Impressão de linóleo/xilo – parte 2

Já está disponível no meu canal de Youtube a segunda parte da aula de registro de impressão para linoleogravura e xilogravura. É uma técnica que requer um pouco mais de cálculos em relação à primeira técnica, e que vai funcionar para fazer gravuras com várias matrizes, ou mesmo matriz perdida. Espero que gostem.

Liberdade – Pré-venda

Já está disponível na Loja Virtual, até 31/03 a pré-venda da camisa com a estampa LIBERDADE, uma adaptação punk riot grrrl de uma gravura do Mucha.

A camisa possivelmente será produzida em 100% algodão Menegotti, mais leve e de melhor qualidade. Também será possível escolher entre 4 opções de combinações de cores.

Clique AQUI PARA COMPRAR

Gravura contra o neofascismo

Basta ler o livro de Jason Stanley “Como funciona o fascismo” para entender que não há argumentação que mude a ideia de um fascista. Buenaventura Durruti dizia que ‘o fascismo não se discute, se destrói’. Estamos lidando com os fascistas e suas necropolíticas há 80 anos, lutando a favor de uma democracia falha, que abre espaços para que esse tipo de pensamento ganhe espaço e poder. Todos os anos surgem novos governantes ao redor do globo reproduzindo o mesmo discurso de ódio e purismo como eram apresentados nos anos 30. Lembrando que o fascismo não existe apenas a nível governamental. Está presente no dia a dia, nas ações, nas ideias. Não se deixem enganar. Liberdade de expressão anda de mãos dadas com respeito e solidariedade, nunca com discurso de ódio.

Abaixo o vídeo em timelapse de um projeto para uma capa de uma coletânea que reúne bandas de todo o mundo cantando e tocando contra o neofascismo. A convite do Marcelo, vocalista da banda Las Calles, eu desenvolvi esse projeto. Para destruir o fascismo, necessitamos coletividade, solidariedade, respeito e ação direta.

“Seja de qualquer cor, de onde for, vem meu igual.” Cólera

“Sua tolerância a um regime, onde a essência humana é aviltada, não o torna também o inimigo, aquele a ser varrido de sobre esta terra? Ignorar o fascismo é se tornar fascista. Moscas que fazem parte desta sujeira.” Solstício

“Os assassinos livres no poder
O fascista imune as leis
Limpeza étnica
Fria e brutal”
Ação Direta

“Adolf me lembra só agonia, sangue, dor, lágrimas e melancolia
Adolf me lembra restos mortais que foram resultado das diferenças raciais
Adolf me lembra destruição de assistir ao chumbo quente entrando em um coração
Adolf lembra racismo e me dói ver alguns jovens filiando-se ao seu fascismo
Num mundo sem fronteiras só de cooperação
Seriamos todos amigos, seriamos todos irmãos
Sem estados, sem limites, sem países, sem fronteiras
Vermelho, preto e branco não será mais sua bandeira”
Street Bulldogs

Como fazer stencil?

Olá a vocês que acompanham as postagens daqui. Venho lhes dizer que está no ar mais uma aula no canal de Youtube, e desta vez eu ensino como transformar uma imagem em um stencil utilizando o aplicativo Photoshop, e também utilizando o editor de fotos simples do celular para chegar no mesmo resultado. Espero que gostem, abraço.

Revisitando pintura de 2015

Eu curto ver fotos de pinturas antigas, me faz lembrar da época em que eu estava pintando, onde eu morava na época, o que eu fazia. Essa pintura feita com acrílica aguada foi feita em um painel de 20x20cm, e me ajudou a arrecadar dinheiro para poder fazer meu intercâmbio na Argentina. Bons tempos. De lá para cá eu pintei muito pouco, me dediquei muito mais à gravura e impressão.

Colar lambe-lambe

Colar lambe-lambe é uma prática universal e que me dá muito orgulho de fazer parte do movimento. Eu faço a produção toda em stencil e em serigrafia, e a minha cola é bastante espessa, uma mistura melequenta de água, polvilho azedo e soda cáustica. Faz tempo que dei um tempo nas tarefas de intervenção pela cidade, mas hoje deu saudade e pretendo retomar em breve os rolés.

Experiência com a morte

Foi a primeira vez que ouvi falar dessa experiência. Poucas pessoas tiveram a chance de presenciá-la. Não estou dizendo que é algo belo ou confortável, e que todos precisam passar por isso. Só quero narrar um pouco do que foram esses momentos que, seguramente, me marcarão por toda a vida.

Ano passado, 2020, no princípio da pandemia, minha avó materna faleceu. Ela estava internada em um hospital, e vários de seus filhos e uma de suas netas (minha irmã) estavam no revezamento para acompanhá-la. Ela deixou esse mundo enquanto minha irmã segurava suas mãos. Ela morreu de morte natural, já tinha bastante idade e muita experiência de vida. Minha irmã acompanhou todo o processo e me disse que é um momento muito diferente, que nos muda. Presenciar uma morte natural talvez seja comparado ao momento do nascimento. Os dois opostos deste tempo em que uma vida existe.

No decorrer de 2020, meu pai desenvolveu um tumor maligno na cabeça do pâncreas. Ele perdeu muito peso, e os primeiros sintomas, icterícia principalmente, apareceram por volta de outubro. Em novembro veio a primeira internação. Os médicos ainda não tinham muita certeza, ou não nos falavam muito bem o que estava acontecendo. Pesquei algumas conversas entre eles enquanto acompanhava meu pai, e o termo “neoplasia periampular” começou a surgir. Pesquisando na internet, descobrimos que o o termo diz respeito ao câncer de pâncreas, cujos sintomas aparecem já em estágio avançado e a maioria dos pacientes possuem uma sobrevida média de 6 meses depois do diagnóstico. Há aqueles casos de pessoas que vivem 10 anos, mas é raro.

Com isso em mente, o desespero e a tristeza fizeram parte de nossas vidas durante esse tempo. Foram várias consultas e exames, algumas endoscopias e a colocação de duas próteses para manter o sistema digestivo tentando funcionar. Os médicos chamavam isso de “dar qualidade de vida” ao paciente. Talvez esse termo fale sobre ter os familiares por perto, porque desde o diagnóstico até seu falecimento, meu pai não teve descanso e nem paz. Começou com o estômago acumulando alimentos e líquidos, expandindo e pressionando outros órgãos. O duodeno, que estava com uma prótese para desobstruir a passagem de alimentos, não funcionou muito bem, e começou a vazar líquidos para fora do sistema. O pâncreas começou a atrofiar. Dores na lombar o incomodavam a ponto dele não achar posição para ficar, nem em pé, nem sentado e nem deitado.

Foram meses sem dormir, sem comer, sem beber, com muitas dores, sem conseguir se locomover direito. No princípio de janeiro, já raquítico, sem musculaturas, sua audição e fala foram comprometidas. Seus olhos já aparentavam estar afundados no crânio, seus ossos estavam muito salientes. Em janeiro, houveram mais duas internações. Acompanhamos todo o processo de perto. Eu o visitava todos os dias, ainda que ele dormisse a maior parte do tempo. Eu tinha muito medo dele não acordar. Estávamos cientes de que esse dia poderia chegar a qualquer momento. Eu abri mão do meu trabalho, e apenas produzi o que estava ao meu alcance. Havia algo mais importante acontecendo.

Na terceira internação ele já estava muito debilitado. Ficava confuso e disperso, ficou com a locomoção completamente dependente de terceiros. Ele não achava posição, e mudava a cada cinco minutos. Levávamos ele da cama pro sofá, do sofá pra poltrona, de volta pra cama. Ele dizia que não sabia o que queria, mas o ajudávamos mesmo assim. Houve pequenos conflitos entre a gente, normais nestas situações. Já andávamos desgastados dessa maratona de cuidados e dedicações.

A cada momento surgia uma nova questão. Desde outubro ele desenvolveu anemia, diabete tipo 2, infecção abdominal, princípio de trombose, inflamações diversas, embolia pulmonar, enfisema pulmonar. Nós entendemos que isso é o corpo parando de funcionar aos poucos. O médico nos disse que a situação dele era gravíssima. T4N2M1 no primeiro diagnóstico. Essa classificação piorou com o tempo.

Na noite do dia 24/01 o colocamos para deitar. Estávamos eu, minha irmã e minha mãe no quarto. Meu pai era um paciente em estado terminal e nos foi autorizado ficar com ele. O primeiro turno acordado era o meu. A madrugada chegou, e por volta das 2h já do dia 25, meu pai levantou a mão. Ele não conseguia falar muito bem, e muitas coisas eram feitas por gestos. Eu fui até ele e ele me disse que queria “dormir”. Falou duas vezes e foi isso que eu entendi. Ele queria levantar, ele queria sentar, ele queria ficar de pé. Ele queria descansar. Tanto tempo privado do sono, e ele precisava desse descanso. Minha irmã acordou e eu fui deitar. Ele estava com algumas sondas entrando pelo nariz, mais o acesso de soro e medicamentos nas mãos. O acesso que teve que ser feito e refeito várias vezes, pois as veias estavam muito finas e não corriam mais sangue. Minha irmã falou com ele que não iria levá-lo pro sofá porque estava inviável. Todas as vezes era muito sacrifício para ele, ser carregado, a gente sem jeito, muitos equipamentos para levar junto.

Ela subiu o encosto da cama e ele se sentou. Sua respiração estava ofegante. Dava para perceber que o ar não estava chegando onde deveria. Eu estava deitado em uma poltrona reclinável que o enfermeiro trouxe. Eu estava de frente para ele. Ele estava olhando a janela, e sua respiração estava forte, como quem fazia muito esforço para conseguir puxar o ar. Ele ficou imóvel das 2:30 às 7:30. Durante esse tempo eu o observei por cada segundo. A frequência da respiração foi ficando menor, cada vez mais. O enfermeiro disse que esse estado chama “estado agonizante”. Não sabemos muito bem se ele ainda estava consciente, ou se já tinha ido. De qualquer forma, o enfermeiro aplicou mais uma dose de morfina, para ele não sentir dores. Esse é o estágio final antes de ter o óbito declarado.

Meu pai faleceu na manhã de segunda, dia 25/01. Ele estava olhando para a janela e viu o sol nascer. Essa simbologia foi muito forte para mim. O nascer do sol tem algo de “um novo mundo”, de uma renovação das experiências, das ideias, das lutas. Ali no horizonte onde ele surge, iluminando cada parte da paisagem, indicando o novo dia.

Os simbolismos ficaram muito presentes no decorrer destes dias. Até os astros se mostraram simbólicos para mim, mas não irei prolongar sobre isso. Presenciar uma morte foi algo muito forte, cada cena está marcada na minha memória. Fico satisfeito de ter conseguido despedir dele, e dizer o quanto eu o amava. Cada dia do processo foi doloroso para nós, e aqui neste texto não é possível descrever com precisão tudo o que passamos. Não acredito em vida antes ou depois da morte, acredito neste tempo em que vivemos e em como aproveitamos nossa estadia. Fora disso são outros quinhentos. Me apego a ideia de que meu pai descansou e teve paz de todo os meses de sofrimento e dores e internações. Talvez as dores maiores são as de quem fica, pois não teremos mais a sua presença física, apenas as memórias. E nesse momento é importante ressaltar a presença da família, de amigos e de pessoas próximas. Fazem muita diferença.

Presenciar um processo de morte, experiência marcante. Escrever sobre o processo me traz lágrimas e lembranças, boas e ruins. Faz parte da vida também.

Nova estampa em pré-vendaaaaa

Finalmente vai sair do forno a estampa baseada na música do Discarga (Contracultura) em que eu exalto as ações punks e anarquistas de todo o mundo. Tudo é referência, tudo é história.

Compre na pré-venda pela minha loja online, com previsão de envio e distribuição a partir de março. Clique aqui.

Stencil em Halftone

Halftone (ou Meio Tom) é um técnica de criar efeitos de degradês e luz e sombras, utilizando apenas uma cor chapada. Consiste em utilizar formas em diferentes tamanhos e espessuras para “enganar” o olho e simular uma imagem como se fosse real.

Muito utilizado em técnicas como serigrafia, xilo/linóleo e stencil, o Halftone é a principal técnica de simplificar a matriz para conseguir um bom resultado de impressão artesanal.

Nesse caso, eu peguei uma foto antiga, de uma modelo que pousou para o artista Alphons Mucha, e fiz uma versão em Halftone em stencil, utilizando linhas. Repare que as linhas possuem diferentes tamanhos e espessuras.

Esta é a foto original, que serviu de modelo para meu stencil.

As impressões podem ser adquiridas na minha loja online.

Stencil Mars Blackmon/Spike Lee

Conheci o personagem Mars Blackmon assistindo ao seriado “Ela Quer Tudo”, dirigida por Spike Lee. É uma série adaptada do filme homônimo dos anos 60, dirigido e estrelado por Spike Lee também. A série/filme gira em torno das experiências sociais, amorosas, profissionais de Nola Darling, e Mars Blackmon é um dos personagens coadjuvantes.

Comecei a ver a série por conta do visual do personagem Mars, com Anthony Ramos fazendo seu papel. Messenger com single speed, visual a caráter bem estiloso, cap de ciclista, personalidade própria, o personagem com quem mais me identifico dos três coadjuvantes. Essa imagem me fez querer acompanhar a série e, posteriormente, ver o filme.

O filme é diferente, traz elementos do contexto da época, e Spike Lee soube aproveitar bem o tempo/espaço, e as discussões e reflexões que os acompanham, em cada cena. Ambos trazem reflexões sobre a vida na cidade, racismo, relações humanas, cultura. Acho que vale a pena assistir.

Esses stencil que eu fiz é uma homenagem a esse personagem, Mars Blackmon, e seu criador, Spike Lee.

A impressão deste stencil pode ser adquirida através da minha loja virtual.

Stencil com referência pronta, mudando apenas o foco.

Stencil em 4 camadas

Revisitando trabalhos antigos, achei essas fotos tiradas pela minha querida amiga Raquel Pinheiro. São dois posters produzidos com stencil, provavelmente nos anos de 2014 e 2015. Eu realmente curto trabalhar com referências fotográficas, retirando elas de contexto e focando numa expressão de algum personagem. Essa foto original possuía vários outros elementos, tudo em tons de cinza.

Não sei quem é o autor da fotografia, nem de onde retirei ela. Eu coleciono muita imagem digital, e faz mais de 20 anos que sou assim.

Pela ferrovia subterrânea

O primeiro livro que li em 2021 foi o “Underground Railroad – Caminhos para a liberdade” do escritor estadunidense Colson Whitehead. Que livro cares leitores, que livro!

Foi impossível parar de ler. Li de uma maneira frenética, adentrando todo esse universo e não consegui parar de ler nem quando o livro terminou. Fui ler o livro extra que a TAG manda, bem como pesquisei sobre o autor.

Não sou crítico literário, então vou escrever o que quero escrever sobre minha leitura aqui. Não espere uma crítica profunda, cheia de relações históricas, análises de personagens e essa coisa toda. Quis escrever sobre esse livro por conta das analogias com o anarquismo que eu encontrei nesse livro.

O anarquismo é uma ideia e um movimento. Age por debaixo dos panos, nas vielas, nos becos, no submundo, nas entrelinhas, na literatura, na ação, na coletividade. A Ferrovia Subterrânea me trouxe muito dessas ideias. Uma rede construída por várias mãos e mentes anônimas, para fazer com que negros consigam sua alforria na fuga para estados não-escravistas. Soa como o anarquismo e toda sua “ilegalidade” na busca pela liberdade e pela autonomia. Existem pessoas dispostas a ajudar e, no final, todos se ajudam por um bem maior. No final, no processo, no começo.

A ideia surge, é compartilhada. E quem são os que ousam buscar os caminhos que chegariam lá?

A Ferrovia são as redes. O Trem são as ideias. O Destino é a liberdade.

“A ferrovia subterrânea é maior do que seus operadores. É todos vocês também. Os pequenos aguilhões, os troncos principais, temos as mais novas locomotivas e os motores mais obsoletos, e tem um carro movidos a manivela como aquele. Ela vai a toda parte, há lugares que conhecemos e a lugares que não conhecemos. Temos esse túnel bem aqui, correndo embaixo de nós, e ninguém sabe pra onde ele leva.”

Não lembro a página

Várias pessoas em várias lugares diferentes, construindo a Ferrovia, sem saber exatamente onde chegariam, mas com a certeza que conseguiriam a liberdade. Ideias circulando, redes se articulando. O anarquismo é muito maior que as pessoas. Não pode ser morto, nem acabado. É um conjunto de ideias e ações, experiências e compartilhamentos.

A Liberdade é um conceito diferente para cada ser. Bem como autonomia. Basta compreender o significado dessas palavras e você terá chegado no seu destino? E o que basta saber para que todos chegássemos aos nossos destinos?

A Ferrovia Subterrânea para mim foi uma analogia às redes de contrainformação dos “de baixo”. Não consegui desvincular desta ideia em nenhum momento do livro.

Steinberg e os bons tempos de Escola Guignard

Vendo algumas imagens de 2011, me deparei com as fotos que tiramos nas aulas de Artes Plásticas lá na Escola Guignard. Na aula de criatividade da professora Júlia Panadés experimentamos muitas coisas baseadas nos registros de Saul Steinberg. Eram época divertidas, aprendi e desaprendi muito sobre arte e desenho. Me deu saudades dessa época. Seguem registros da sala de aula.

As fotografias e os trabalhos foram feitos por váries alunes, colegas de estudo e hoje colegas de profissão, de atuação, de lamentos, rs. Saudades dessa época.

Revisitando pinturas antigas de novo

Achei foto desta pintura que fiz, provavelmente, em 2014. Não sei bem a data. É a reprodução do poster de um filme mexicano sobre luta livre. Para quem não sabe, os lutadores de Lucha Libre eram também heróis de carne e osso, aparecendo em filmes e quadrinhos lutando contra vários tipos de inimigos: Dráculas, monstros, múmias, marcianos, personagens de mitos, lendas e fábulas. Isso ajudou e muito a popularizar a figura dos luchadores e o esporte lucha libre no país.

Santo y Blue Demon contra Los Monstruos

Vários Luchadores conseguiram fama, sucesso e uma popularidade impecável na cultura mexicana. Na maioria dos filmes e quadrinhos os três principais Luchadores que aparecem são el Santo, el Blue Demon e el Mil Máscaras. Mas também pode-se encontrar outros famosos nomes como Huracán Ramirez, Místico, Gory Guerrerro, Rey Misterio, Rayo de Jalisco.