Lutar é preciso

Ano passado assisti à série “Morrendo por sexo”. A tradução é péssima, acho que prefiro o nome em inglês “Dying for sex“, não por ser o original que o diretor quis, mas quando terminamos a série faz mais sentido a forma como os estadunidenses utilizam a combinação de palavras e seus diversos sentidos. No português acaba perdendo um pouco deste sentido, mas é apenas um achismo.
Provavelmente este escrito conterá spoilers, já fica aqui o aviso.
A premissa da série é ótima, a protagonista Molly é diagnosticada com um tumor, ela pode partir a qualquer momento, então decide acabar com seu relacionamento e viver algo que nunca viveu na vida. No caso dela, orgasmo (e outras experiências sexuais/sociais que possam trazer essa sensação). Entre vais e vens a série mostra um pouco desse cotidiano marcado por amizades, inimizades, empatias e um desejo enorme de viver, mesmo sabendo que isso talvez não será mais possível em algum tempo.
Ano passado também li o livro “O que você está enfrentando”, da Sigrid Nunez. Parece que o livro foi adaptado para o cinema pelo Pedro Almodóvar em “O quarto ao lado”, que está na minha lista para assistir, mas ainda não tive muita coragem. Eu digo coragem, porque câncer ainda é um assunto sensível para mim. No livro a narradora conta a história de uma amiga com câncer terminal, um pedido incomum, e vários excertos de sua relações com vários grupos de pessoas e histórias curtas.
Enquanto escrevo isso aqui, fico pensando no quanto a gente vai se adaptando com o tema morte, e o quanto isso nos sensibiliza ou dessensibiliza no decorrer do tempo. Ano passado foi um ano emocionalmente e financeiramente complicado, muitas coisas passando pela minha cabeça, e eu fico aqui pensando no quanto eu lembro destas duas histórias e como elas me marcaram.
Para além dos choros e das lembranças, acho que nos últimos anos eu ando muito mais sensível à várias questões, parece que tudo me afeta de uma maneira mais intensa. Tem dias que não quero levantar e nem fazer nada, tem dias que eu fico extremamente desanimado com tudo, acho que foram muitos anos não lidando com as diversas questões que me atravessam, ou lidando mal, ou não conseguindo lidar mesmo.
Escrevo hoje desta forma, porque eu havia me esquecido de que essas duas obras culturais haviam passado pela minha vida. Eu não fiz anotações, coisa que geralmente faço quando o tema morte/tumor surge em algum lugar.
No triste dia de hoje, em que rememoro o falecimento do meu pai, que partiu há 5 anos, eu me obrigo e escrever e refletir sobre a morte. Escrevo sobre as coisas que vi e vivi no decorrer do último ano, as coisas que me fizeram lembrar dele e o que isso pode me ajudar enquanto alguém que quer voltar a viver plenamente.
Entre várias neuroses, ainda me forço à isto, escrever. Acho que é uma forma de homenagear, sei lá. Mas 2026 começou bem difícil. Se existe vida após a morte, imagino que meu pai tenha se encontrado com seu irmão mais velho, que partiu no início do ano. Algo repentino e muito triste para nós que ficamos. Mas foi bom fazer um grande encontro dos primos e tios, familiares de um círculo muito próximo e muito querido. A ocasião não é boa, mas o encontros sempre são.
Fico aqui pensando que a morte é a única certeza de que temos, algo tão clichê que parece bobo, mas é real. Tem mortes que são rápidas e repentinas, como foi do meu tio, e tem mortes que eu acho que são naturais, como as da velhice em que o corpo pede pra descansar depois de uma vida inteira ativa.
E tem as mortes por doenças, essas eu considero muito cruéis. Elas são lentas, dolorosas, e eu realmente não desejo que ninguém passe por isso. Ao contrário das narrativas que eu citei no início do texto, meu pai não teve nem chance de tentar viver após o tumor. Foram poucos meses com uma rotina de internação, remédios, cirurgias preventivas, em busca de algo que chamavam “qualidade de vida”. Mas, na medida do possível, acho que meu pai conseguiu viver uma vida boa.
E agora tem uma voz na minha cabeça que fica latejando “cuide do seu corpo”, porque isso é um ponto determinante sobre como será nossas vidas daqui em diante. Em meio a lágrimas de uma manhã de segunda, fria, nublada, eu tenho um desejo enorme de conseguir viver plenamente. Acho que tive uma vida boa, e sei que posso ter uma melhor ainda, estou tentando caminhar para isso. Mas já perdi amigos para o câncer, e tenho outros amigos que estão em processo de luta. Isso me afeta muito, fica difícil escrever.
Mas acho super importante ter a oportunidade de lutar, de não desistir. Em meio à várias dificuldades que temos, desistir eu acho que é a pior. E eu já pensei nisso várias vezes, do quão custoso tem sido tentar viver e não conseguir isso muito bem sob algumas perspectivas. Será que vale mesmo a pena?
Vale.

***

Neste dia que dedico a pensar e escrever sobre a morte, ou sobre a vida que é o que conhecemos, gostaria muito que minha memória estivesse melhor, que eu estivesse mais ativo com minhas criações, produções e minhas ideias de uma maneira geral. Pai, gostaria muito de te falar que seu time foi um fiasco ano passado, cheio de decepções, mas que ontem ganhou do maior rival, então acho que você estaria feliz neste momento. Abro uma brahma imaginária para brindar à você agora, aos 5 anos de sua partida. Ainda dói bastante.

Sempre conheça seus heróis

Ok, eu aceito, “heróis” foi um péssima palavra. Acho que o conceito de herói talvez seja algo ainda fora do que é palpável. No entanto, ignore este título, foi uma brincadeira com “never meet your heroes”, tão proferido em filmes, séries, livros, blogs, etc. A expressão sugere que frequentemente rolam decepções quando conhecemos de perto pessoas que admiramos, ou que foram/são importantes para nós de alguma forma. A gente idealiza algo que elas, definitivamente, podem não ser.
A ilusão de conhecer alguém de extrema importância nas nossas vidas pode acabar com a fantasia que temos sobre quem elas realmente são.

Em 2025 aconteceu algo que eu achei que talvez nunca aconteceria. Mas primeiro, preciso contar uma pequena historinha. Lá no início dos anos 2000, um jovem belorizontino, que devia ter seus 13 anos de idade, conheceu o punk, o hardcore, o anarquismo, tudo isso por causa de um vizinho. Esse vizinho morava com outros vizinhos no prédio ao lado. O primeiro vizinho emprestou um cd do Gritando HC, o outro vizinho andava de skate e o outro soltava papagaio com uma camisa do Sepultura. Isso tudo foi minha porta de entrada para drogas mais pesadas. Eu sempre fui muito ruim no skate, então não prossegui muito com a atividade. Sepultura eu segui curtindo, e até curti Soulfly por um tempo, mas depois ficou chato demais pra manter minha atenção. Mas Gritando HC, que hoje eu não consigo escutar, me abriu as portas para um universo de bandas que me empolgavam muito, me faziam querer viver a pleno.
Foi em um evento em 2002 que eu conheci Solstício, e outras bandas que eu escuto bastante até hoje. Das bandas deste evento, também escuto até hoje Confronto e Questions. Deceivers tinha um som que não me chamava muita atenção, talvez eu precise escutar novamente, e Calibre 12 já teve seu auge nos meus ouvidos, mas hoje praticamente não escuto. DFC segue na ativa também, ainda que eu não acompanhe muito, tive a oportunidade de conhecer o atual baterista na Feira Motim em Brasília que rolou em novembro deste ano. Pudemos conversar brevemente, ele comprou uma gravura minha, conversamos sobre shows, indiquei alguns coletivos que organizam eventos em BH, foi bem massa. Lembro especificamente de um show deles na saudosa Feira Mix, a última, que rolou no aeroporto Carlos Prates. Foi um showzaço.
Mas Solstício foi a banda que me ganhou naquele dia. Um rapcore, pesado, intrigante, lento quando precisa ser, rápido para animar os fôlegos. O jovem ‘La Idea‘ não fazia a mínima ideia de que essa seria uma de suas bandas nacionais favoritas. Um vocal inconfundível, uma voz proferindo letras que falavam de política, de genocídio indígena, de gênero, de história, de viver dentro do sistema capitalista, mesmo querendo estar à margem dele. Era insano.

Segui a banda por muito tempo, ainda que tenha frequentado poucas apresentações. Mas ficava de olhos nos lançamentos dos discos e sempre escutava cada música nova com muita atenção. Eu adorava as letras e a energia que o vocalista, Marcelo, berrava nas gravações. Nos anos de 2005, 2006, 2007, eu praticamente não tirava minha camisa do Solstício. Quer dizer, eu revezava bastante com a camisa do Carahter, presente que ganhei do Renatão, um dos vocalistas, antes da tour europeia. Carahter foi a banda local que eu mais curti na época. Também curtia Prole.Idem, Reffer, Distúrbio Sub-Humano… BH foi um celeiro de boas bandas.
Solstício teve vários hiatos, ia e voltava. Numa destas voltas gravaram um disco mais melódico, com letras mais profundas, inclusive. Apesar de diferente, segui curtindo bastante. Mais tarde, outras bandas como Norte Cartel e Las Calles apareciam na minha vida, com o mesmo vocal imprimindo a mesma energia nas músicas. A voz do Marcelo era inconfundível. Insana.

Por volta de 2002, 2003, haviam sites em que baixávamos músicas mp3 de bandas de punk e hardcore da época. Zona Punk, fffuck the system, e outros, eram plataformas de notícias sobre o underground. Haviam seções onde haviam links de músicas para baixarmos. Encontrávamos coisas que no Napster, imesh, kazaa, etc. não encontrávamos. Foi assim que conheci Colligere. Lá eu baixei “Consumir o tempo” e “Vertigem”. Foi amor à primeira vista. Eu escutava tanto, que eu cantarolava Colligere sempre que saía, e foi numa destas cantarolagens que eu conheci a Brisa. Nós cantávamos Consumir o Tempo a plenos pulmões nas madrugadas de BH. Ela seguiu carreira na música e tem um reconhecimento muito daora. Fico muito feliz por isto.

Colligere tem uma pegada mais emo, pesado e profundo, mas com uma energia insana. Você escuta e dá vontade de movimentar-se. Eu escutava e queria escutar mais, e aprender mais sobre mim. Eu, um jovem que foi mal alfabetizado, tinha dificuldades em entender muitas coisas e as letras do Colligere me faziam pensar bastante. Foi isso que me ajudou em vários momento difíceis, em ler as letras e reler nas entrelinhas delas. O mais impressionante é que eu lia livros, e encontrava trechos do livro e citações embutidas em várias letras. Isso me fez ter vontade de ler mais e mais, para entender do que aquelas letras falavam, quais eram as fontes daquelas palavras gritadas pelo vocalista Rodrigo.
Acho que Colligere foi a principal responsável para que eu possa tentar compreender quem eu sou no mundo, muito além da estética punk que utilizava. Escutar Solstício e Colligere me faziam querer viver, lutar, aprender, compartilhar, pensar, refletir. Questionar várias coisas que eu achava errado, e principalmente em como praticar o respeito, a coletividade, viver de forma plena e política.

Digo isto tudo porque 20 anos depois tive a oportunidade de conhecer ambos vocalistas.
Em março de 2025 eu fui participar de uma feira no Rio de Janeiro. Marcelo e eu tínhamos contato via Instagram e ele foi de Cabo Frio pro Rio para a feira. Lá trocamos ideia, materiais, tiramos fotos. Foi um encontro muito daora, pude falar sobre a importância que Solstício teve na minha juventude, conversamos sobre as letras, sobre arte. Ele me disse que não aguenta mais gritar, e tem um projeto novo, mais pós-punk, o Grita Nozkto. Encontro rápido, mas muito significativo para mim.
Em agosto de 2025, eu estava em uma tour de lançamento de livro com um amigo, e na nossa passagem por Curitiba, nos hospedamos na casa do Rodrigo. Sim, o tal Rodrigo vocalista do Colligere. Conversamos sobre o movimento, sobre política, perguntei várias coisas sobre as letras que foram escritas há mais de 20 anos, hahaha, pegando pesado na memória dele. As letras do Colligere me fizeram não surtar, pois era através delas que eu buscava sentido. Foi também por causa de Colligere que meu projeto de mestrado passou a existir. A música “O poder do pensamento negativo” me deu a faísca que precisava pra pensar o que eu queria pesquisar. Foi meu ponto de partida. Ele me deu dicas de músicas, de livros, me levou num lugar de rango vegano que foi muito daora.

Rodrigo e Marcelo foram pessoas importantes na minha formação. Talvez eles nunca soubessem disso, mas sou testemunha do que o punk, o hardcore, e as pessoas que praticam e pensam esse submundo podem acrescentar na formação das pessoas.
Nós trocamos os desejos por aceitação
Pessoas têm o seu papel – você aprende o seu
Te ensinam o destino, mas não de onde provém
Talvez isso explique a existência de heróis
Pessoas como nunca vamos ser – livres e fortes

Cito Colligere para terminar este relato, pois eles não foram heróis para mim. São pessoas comuns, vivendo suas vidas, com seus defeitos e qualidades, com seus humores, pensamentos, incoerências. Ao conhecê-los, senti que estão muito próximos à mim, às pessoas que estão ao meu redor. Talvez nunca sejamos livres e fortes, mas nunca iremos aceitar o papel que nos é dado. Não seguiremos apáticos. As artes (sim, todas elas) existem para que nós possamos produzir nosso próprio caminho. E a voz destas duas pessoas me ajudaram muito a construir o meu. Só tenho a agradecer por estas oportunidades.
Conheçam seus “heróis” e que vivam os encontros!!

Relatos ressuscitam

Vou descrever algo que na hora me soou indescritível
Minha memória falha a esta hora, mas juro que irei tentar
Era uma cena, um quadro, uma fotografia ou uma pintura
Nela, eu via um conjunto de ossos, um ossário
Estavam repousando em uma maca reclinada
No entorno haviam pessoas, talvez também um bestiário
Eram poucas pessoas, atentas
Muitas criaturas, dispersas
Logo à frente havia uma grande janela
Nela se viam construções naturais e sintéticas
As naturais tinham cores quentes e vibrantes
As sintéticas, frias e duras, predominavam
Atrás, só havia escuridão
Neste ato de lembrança, trago um relato do que vivi
Ou talvez sonhei
Nesta época estava diante de um combate que não foi adiante
Fôlego distante de estar disposto naquele instante
As criaturas carregam em direção ao sol que nasce
Algo que não enxergo, não reflete luz
Não é matéria
Me lembro daquela claridade oriunda do calor cromático
Seus raios nos atingindo, tentando iluminar a escuridão
Poucas pessoas não podiam nada fazer
A não ser assistir e esperar
Isto não é tudo, pois nada jamais é tudo.
***
Em outra cena as cores são quentes
Não há nada sintético, nada é rígido
A ossada agora é cinza, com uma memória do calor
São muitas pessoas, poucas criaturas
As criaturas, desta vez, apenas assistem
As pessoas movimentando o vento
Carregam a matéria, e a despejam na água
Que flui
No que vejo, uma caixa de correios flutua na corrente
Ali as criaturas pegam cartas
Cartas que nós escrevemos, cartas que nós escutamos
Aqui, te ressuscitamos
Só para dizer que não acabou, porque jamais terminaria.
São os mortos que reclamam a necessidade de serem lembrados?
Somos nós que lhes imputamos esse desejo?


25/01, dia em que me dedico a escrever sobre a morte. Tomei a liberdade de te trazer mais uma vez, pai, neste quarto ano de seu falecimento. A cada ano, dedico este dia para pensar sobre a morte, sobre o luto, sobre a ausência. Sobre os processos que me fazem lembrar de celebrar a vida.
Hoje, me inspirei no texto “Pesquisar junto aos mortos” de Vinciane Despret, que chegou até mim nos encontros do Bora Falar de Amor que tive a honra de participar ano passado. Maria Caram, a mediadora, me fez pensar no luto enquanto processo de amor. Hoje escrevo sobre isso de maneira mais leve.

P.s.: Os destaques em itálico são citações diretas do texto de referência. O desenvolvimento dele foi uma espécie de cut-out desconstruído. Outro conhecimento adquirido no Bora Falar de Amor.
P.s.2: Tô testando um formato novo de escrita, rs. Não estranhem.


Caminhar, uma filosofia – Frédéric Gros

Há muito eu não escrevia minhas impressões sobre um livro. Hoje me deu vontade de fazer isso. Em meio à vida caótica, que meneia entre frustrações, pressões e desesperos, decidi começar a ler este livro no último dia de 2024. Sim, eu tinha uma pilha de outras coisas para ler, mas não consigo organizar minha cabeça para dar conta das coisas que eu realmente preciso.
Conheci esse livro através de um amigo, que leu um texto meu mais antigo e disse que se parecia muito com esta obra de Gros. Ele me mandou um pdf para ler, e eu, completamente de saco cheio de ler coisas virtualmente, acabei comprando o livro.
Ele ficou guardado por alguns meses até que, na minha atual sensação de estagnação, me bateu a vontade de lê-lo. É impressionante como os olhos nadam no fluxo das palavras, como se estivéssemos navegando junto com a corrente, ao termos na nossa frente algo que parece dialogar tanto com a gente.
Eu caminho desde que me entendo por gente, e essa prática foi parcialmente substituída pelo bicicletear na vida adulta, onde precisei de um pouco mais de velocidade e autonomia nos trajetos.
Eu não consegui parar de ler, devorei o livro rapidamente, e agora tenho ganas e vontade de caminhar por todos os cantos do globo terrestre. Essa cidade onde moro ficou limitada demais nos meus planos.

“Tudo o que me liberta do tempo e do espaço me afasta da velocidade.”
“A ilusão da velocidade consiste em acreditar que ela faz ganhar tempo.”

Nunca tinha lido, ou sequer sabia dos hábitos de caminhada de Nietzsche, Rimbaud, Thoreau, Rousseau, Gandhi e outras personalidades citadas no livro. Alguns eu curto, outros não. Mas fiquei impressionado com o fato de que a caminhada era um hábito, e cada um a fazia por suas próprias razões, pois sabiam que geravam mudanças, movimentos necessários para fazer a engrenagem da mente funcionar.
Como descrito no livro, caminhar não é uma ação esportiva, é uma ação básica de todo ser humano (saudáveis, sem dificuldades motoras, de locomoção, etc.). Eu sempre pensei assim, e eu só escrevi o texto do Lapsos de Tempo porque tinha sido questionado, pois não queria sair por causa de um cansaço extremo, mas topei voltar caminhando para casa (em torno de 30 minutos de caminhada).
Esses 30 minutos me revigoram, muito mais que me cansam. O que me cansa é ter que esperar ônibus (que envolve caminhada até a parada, uma longa espera, e outra caminhada da parada até minha casa), ficar esperando um táxi ou ter que lidar com a inconsistência de aplicativos tipo Uber. Se é uma distância plausível, eu realmente prefiro ir caminhando, pensando na vida, observando os elementos do espaço urbano. Não vejo nada disso como um problema.

“O verdadeiro sentido da caminhada não é na direção da alteridade (outros mundos, outros rostos, outras culturas, outras civilizações), mas estar à margem dos mundos civilizados, quaisquer que sejam eles. Caminhar é pôr-se de lado: à margem dos que trabalham, à margem das estradas de alta velocidade, à margem dos produtores de lucro e de miséria, dos exploradores, dos laboriosos, à margem das pessoas sérias que sempre têm algo melhor a fazer do que acolher a doçura pálida de um sol de inverno ou o frescor de uma brisa de primavera.”

Caminhar tem essa coisa de ir contra a forma do sistema mesmo, de você ter uma certa autonomia do caminho, do trajeto, da velocidade, das pausas. Sorte é de quem consegue manter esse hábito. Lendo as páginas deste livro, percorri uma boa parte da minha vida enquanto ser caminhante, que sempre preferiu gastar a sola dos tênis movimentando-se na descoberta de novos e velhos lugares.
Foi a caminhada que me fez o hábito de fotografar coisas quaisquer na ruas, de aguçar a percepção, de entender o que é novo naquele espaço, do que é velho e rotineiro, habitual. Há muito que eu não lia algo tão eu, mas tão eu, a ponto deu achar que foi escrita para mim, pensando em mim. Me sinto próximo de Frédéric Gros, sem nunca ter ouvido falar de sua existência.
Foi caminhando, observando e refletindo sobre tudo isso que envolve o viver, que eu comecei a produzir arte e arriscar escrita. Eu crio a partir do que vivo, do que penso, do que vivencio enquanto um sujeito que almeja descobrir o mundo, e tudo que gira junto com ele.
Enfim, grato por finalizar 2024 e iniciar 2025 com essa leitura. Por mais caminhadas por esses percursos e trajetos tão incertos que compõem a vida.

“Escrever deveria ser isto: o testemunho de uma experiência muda, viva. Não o comentário sobre outro livro, não a explicação de outro texto. O livro como testemunho. Mas eu diria “testemunho” no sentido do bastão numa corrida de revezamento: passa-se o “testemunho” a outra pessoa, e esta, por sua vez, começa a correr. Assim, o livro, nascido da experiência, remete à experiência. Os livros não são o que nos ensinaria a viver (esse é o triste programa dos que têm lições a dar), mas o que nos dá vontade de viver, de viver de outra maneira: encontrar em nós a possibilidade da vida, seu princípio. A vida não cabe entre dois livros (gestos monótonos, cotidianos, necessários, entre duas leituras), mas o livro dá a esperança de uma existência diferente. Logo, ele não deveria ser o que permite fugir da monotonia da vida cotidiana (o cotidiano é a vida como o que se repete, como o Mesmo), mas o que faz passar de uma vida a outra.”

“Como é vão sentar-se para escrever quando nunca se levantaram para viver.” Henry David Thoureau

[Linoleogravura] Carolina Maria de Jesus – Desafiando a ordem social vigente

Certo dia eu estava escutando o Podcast História Preta, especificamente a temporada sobre a Carolina Maria de Jesus, e acabei sentindo um certo incômodo. Não é um incômodo ruim, que te paralisa, mas algo que me deixou com uma enorme vontade de produzir e ampliar um pouco a percepção sobre o tema.
Escutar podcasts é algo recente na minha vida, começou em 2020 durante a pandemia por indicação das amizades. No meu atelier, trabalhando/estudando/tentando me manter vivo, ficava horas e horas escutando vários episódios de diversos canais. Eu sempre me imaginava surtando qualquer dia desses com tanta informação sem saber o que fazer com isso tudo.
Foi escutando o episódio 2 – Diário de Bitita, da temporada sobre a Carolina publicada no início de 2023 no canal supracitado, que uma observação proferida por Thiago André (pesquisador e narrador do Podcast) balançou um pouco meus neurônios da criatividade e da reflexão.
Próximo do minuto 26 do episódio é narrado o seguinte:

“Todos os dias ela se sentava na porta de casa, que dava acesso à rua, para ler o tal Dicionário Prosódico, que no contexto daquela cidade, daquele Brasil, aquela era uma cena incomum, quase pitoresca. Uma mulher negra a toa, lendo um livro sobre o sol da tarde. Naquela época, o artigo 399 da lei penal da República, tipificava a vadiagem como crime. A pessoa, geralmente negra, que fosse pega e não pudesse comprovar ocupação ou trabalho, podia pegar até 30 dias de prisão. Carolina ao sentar todos os dias na porta de casa por horas, com seu corpo negro a vista de todos, na rua, sob o sol, desafiava a ordem social vigente, pelo simples ato de ler um livro em público. E não só isso. Por também estar a toa.”

Transcrição feita por mim, pode ser que uma palavra ou outra esteja errada, rs.

Eu sempre fico impressionado com a capacidade que algumas passagens possuem de nos intrigar a ponto de nos dar vontade de produzir alguma coisa. A partir deste trecho, fiquei pensando no conceito de “crime”, e como isso toma uma proporção muito injusta a depender do contexto. Eu cresci desenvolvendo a ideia de “crime” como algo horrível, passível de punição. Algo que prejudicou outras pessoas, o coletivo, a sociedade. Algo que, de tão ruim, deveria ser julgado por pessoas especialistas em crimes.
Mal eu sabia que a noção de “crime” pensada e praticada por especialistas é apenas uma ferramenta de controle das massas, de manutenção para que o sistema liberal burguês siga forte e atuante. As repressões, as punições, julgamentos, vigilâncias, encarceramentos, despejos, violências diversas, tudo isso são ferramentas de controle para manter a ordem burguesa.
Tudo que é lei é adaptado para fornecer mais poder ou menos poder para determinado grupo. Não se trata do que é justo, mas sim de uma negociação que pretende equilibrar a manutenção dos privilégios de alguns e a fúria exacerbada de outros. A lei é a balança viciada que finda este “equilíbrio”.
Uma pessoa sentada na porta de casa lendo um livro é um perigo para quem?

Assumindo discursos

Essas questões entraram muito em foco durante meu processo de reflexão. Bastava alguém ter a ousadia máxima de ler um livro na porta de casa, para encarar 30 dias de cela. Não existe tempo para lazer, diversão, ócio. Se você fosse pobre e não pudesse comprovar um trabalho, você se encaixaria em um perfil criminoso. A situação chega a ser cômica de tão absurda que é.
Fiquei pensando muito em várias situações bizarras que outrora foram permitidas, mas que acabaram caindo ao serem pesadas na balança da manutenção dos privilégios. Uma delas é a escravidão. Só de pensar que poucos anos nos separam de um lugar onde comprar e vender pessoas era permitido, torturar era permitido, ser proprietário de pessoas era permitido, me traz uma certa agonia. E tudo isso fazia parte de uma gama de privilégios brancos, elitistas, coloniais, burgueses. Era permitido por lei e os agentes do Estado atuavam para fazer cumprir.
Talvez essa prática oficialmente deixou de existir porque a balança pesava demais para o outro lado, e valia mais a pena abrir mão das propriedades humanas para manter o sistema fortalecido.
Quem pesa na balança ao lado dos revoltosos contra o sistema não pode descansar. Deixar de lutar significa assumir derrotas.
Carolina Maria de Jesus é herdeira de todo esse processo. Negra, pobre e periférica, ousou pesar a balança contra a manutenção dos privilégios e sentiu na pele a injustiça e a repressão.
A tipificação do que é “crime” normaliza as práticas dos de cima, enquanto brutaliza as dos de baixo. Qual o propósito por trás disto?

Desenvolvendo a gravura

O ponto de partida para planejar esta gravura partiu do trecho transcrito acima: “Desafiava a ordem social vigente…”. Porque ler um livro na rua configurava uma prática de ousadia? Foi a partir desta pequena reflexão que comecei a fazer os esboços. Pensei em um formato de paisagem, com a Carolina ao centro, sentada numa escadinha junto com uma pilha de livros. A frase, adaptada pra gravura, ficaria no céu, como se fosse um fundo, algo que está latente no ar. De um lado a vida: casas, comunidades, morros, roupas, árvores, trabalho, ócio e espontaneidade. Passagens onde circulam rebeldias e ousadias. Do outro, uma barreira de espadas de São Jorge protegem a escritora da pequena viatura que vem para buscá-la. Lugar rígido, duro, acrítico. A ambiguidade dos espaços conflui na figura central, gigante. Sim, ela é muito maior que o braço armado da lei.

O material escolhido para fazer a gravação foi a matriz emborrachada conhecida aqui como Microduro, que simula algo como o linóleo mas que é mais barato e acessível. O esboço foi feito digitalmente, espelhado, impresso em impressora de toner, e o decalque na matriz foi feito com thinner. Alguns reforços com marcadores permanentes foram necessários para trazer alguns detalhes a tona. A gravação com as goivas começaram logo.

Após a conclusão da gravação, foi feita uma impressão de teste para compreender melhor como estava o resultado. Aqui eu utilizei tinta da cor sépia, pois daria um bom contraste para compreender bem as linhas, volumes e detalhes presentes na imagem.
A partir daqui, a matriz passou por mais algumas incisões, corrigindo algumas questões de profundidade, e passou por cortes para separar o primeiro plano do fundo. Como a impressão iria receber duas cores, dividir a matriz facilitou muito o processo de impressão, imprimindo as duas cores de uma vez. Também foi medido o espaço de respiro que teria o papel, e uma borda do tamanho adequado foi mantida.

Ainda no esboço virtual, eu tinha feito um teste de cores para compreender uma boa combinação, algo que fosse agradável ao olhar, que chamasse atenção. No final, optei pela combinação de vermelho e de laranja. Cores quentes, ousadas, que não competem por espaço nos nossos olhares. Cores que focavam tudo o que nos é permitido enxergar.
Foram utilizadas tintas a base de água, misturadas com medium extensor (para que a tinta pudesse ser esticada) e medium retardador (para aumentar o tempo de secagem) e assim poder imprimir com menos preocupações.
A impressão foi feita com baren e colher de pau em papel Marcatto 80g. O tamanho aproximado é de 42 x 21 cm.

A gravura pode ser adquirida na loja virtual ou clicando aqui.

Um Reels com o processo de impressão pode ser visto no link abaixo, na minha conta de Instagram.

A passagem de Chiquito

Dia 25 de Julho de 2012 nasce Francisco. Pequeno, leonino, travesso e amável. Rapidamente recebeu vários apelidos que ele correspondia com bastante interesse. Do nome Francisco vieram Chico, Chiquito, Tico, Picles, Picolino, Picochito, Pico, Francis, Francis Bacon, Chiquito Bacana, entre outros… Todos sempre funcionaram muito bem para que ele soubesse que estávamos nos comunicando com ele. Francisco fez parte de uma ninhada de vários irmãos, cujos pais prováveis são Golden e Poodle. Apenas ele não se parecia com Poodle e acabou esquecido no lar adotivo vendo seus irmãos encontrarem suas famílias rapidamente. Francisco não se parecia com algo que chamasse atenção, pelos curtos de cor bege claro, barriga escura cheia de vermes. Uma coisinha apertável e carente, que ficava agitado na presença de outros seres. Sim, ele gostava muito de ter companhias. Quando cresceu ficou parecido com um Golden Retriever, porém com o tamanho de um Poodle. Fofo como Golden, agitado como Poodle (só que sem ser chato).
Foi em 2014 que ele veio viver com a gente no apartamento de área privativa em que morávamos. Chiquito não gostava de subir na cama para dormir, mas sempre tirou seus cochilos ao lado da cama, no chão. Diferentemente do seu comportamento com sofás, poltronas e redes, já que ele sempre subia nestes móveis para apoiar a pata no colo de alguém pedindo carinho. Ele também possuía um hábito curioso de cheirar olhos, era assim que ele conhecia realmente a fundo a pessoa com quem ele estava se relacionando. Ironicamente, ele não gostava que cheirássemos seus olhos.
Chico gostava de fazer suas necessidades sempre em áreas externas, sendo bem metódico com seus lugares favoritos. Exceto quando, por ironia do destino, ele ficava muito tempo sozinho. Nessas ocasiões ele gostava de urinar na quina da parede da sala durante a madrugada, como forma de protesto. Na solidão ele também chegou a destruir dois pares de sapatos.
Nesta época, para que a urina de madrugada parasse, Chico saía às ruas sem coleiras sempre antes de dormir. Ele corria pelas ruas tranquilas do bairro, explorando o espaço citadino de um bairro puramente residencial, sem muita movimentação no turno noturno. Algumas vezes ele, esperto que era ao explorar as ruas, entrava em alguma casa desavisada com portão aberto para conferir se a ração oferecida naquela residência era boa o suficiente para seus amigos do bairro.
Esse hábito da caminhada antes do sono é algo que o acompanhou até 2021, quando tivemos que alterar seus hábitos. Antes disso, Chico gostava muito de ir em praças interagir com outros animais, e sempre foi muito carinhoso com visitas na casa dele, exceto se alguém apresentava medo ou receio em relação à ele, então ele latia para repelir a pessoa de vez. Ele se sentia o maioral com esse tipo de comportamento.
Francis não gostava muito de câmeras, e sempre virava a cara para não aparecer nas lentes. Porém, suas fotografias, apesar disso, sempre ficaram muito boas. Ele saía com expressões faciais muito marcantes, penetradas, constrangidas com a situação.
Chiquito adorava a rua, a observava com quem observa estrelas no céu com uma luneta profissional. Sabia de tudo que acontecia, e fofocava com outros cães que passavam pelo local. Porém ele não era muito fã de gatos e nem de ratos. Foi ele que descobriu uma infestação de ratos que abriu um buraco na parede embaixo do armário da cozinha e ficou latindo para que soubéssemos de onde estavam vindo. Ele também nos avisou quando dois gatos entraram em casa e ficaram presos na área de serviço ou na casinha do gás, pedindo que avisássemos seus donos sobre o que ocorrera.
Francisco gostava muito de carinho e de companhia. Gostava que fizéssemos cafuné em sua cabeça, em seu pescoço, em seu peito, na sua barriga e no seu cóccix, onde ele tinha efeitos secundários que o faziam mexer as pernas involuntariamente. Às vezes ele mesmo empurrava nossas mãos para que soubéssemos onde ele queria carinho. Quando estávamos nos alongando ele sempre aparecia embaixo de nossas mãos aproveitando o momento para receber mais carinho. Ele também achava que qualquer pedaço de pano no chão era um convite para que ele deitasse em cima, fixando espaço, inclusive, sobre pés de chinelos e panos de chão. Chico também gostava de deitar em lugares estranhos nos móveis ou de enfiar a cabeça em algum lugar aleatório como se fosse um tamanduá. Ele adorava acompanhar o cochilo de quem quer que fosse, se deitando ao lado, nas pernas ou nos braços da pessoa para aproveitar aquele momento de descanso.
Chico foi um cãozinho muito ativo, feliz, brincalhão e afetuoso. Brincava de bola, mas ficava de saco cheio muito rápido. Gostava mesmo é de brincar com um brinquedo de osso feito de pano, jogando para cima e para baixo, buscando onde quer que fosse. Da mesma forma, adorava brincar com potes e garrafas de plástico vazias, mordendo e fazendo barulho por onde quer que fosse.
Em fevereiro de 2021, caminhando pela rua de madrugada, Chico achou um osso e mastigou, dando uma engasgada que nos deixou preocupados. No dia seguinte o levamos à veterinária e ela nos disse que aparentemente ele estava bem, e indicou um ultrassom abdominal para conferir se o osso ainda constava no sistema digestivo dele. Não foram encontrados vestígios de osso, mas foi descoberto um tumor em seu baço já em estado crítico. Chico fez a cirurgia de remoção do baço, teve hemorragia e precisou de transfusão sanguínea. Se recuperou bem, fez quimioterapia e com a imunidade baixa acabou tendo que lidar com outras questões: problemas renais, bactéria no tártaro do dente, dermatites, cálculos na uretra, infecções nos ouvidos… Essas questões o impediam de sair à rua para evitar pegar outras doenças.
Chiquito viveu o melhor que pôde nesse tempo, mesmo com tantas debilidades. Foi em sítios, em fazendas, viajou, interagiu com muitas pessoas, foi em parques, praças, diferentes casas de familiares e de amigos. Tomou bastante sol enquanto vigiava a rua aguardando seus amigos passarem para que as fofocas pudessem ser espalhadas.
Pouco antes do carnaval de 2024, Chiquito teve de lidar com uma prolapsia retal, que foi bem insistente em sua ocorrência, fazendo com que ele tivesse que passar por seis procedimentos cirúrgicos e duas cirurgias mais complexas até descobrir um novo tumor que se desenvolveu rapidamente e desordenadamente no seu intestino, bem próximo do ânus. Foram várias internações que ajudavam nos sintomas, mas que não eram eficazes contra a causa do problema. Nenhum tratamento mais seria possível.
Foi na manhã de 30 de Março de 2024 que Chiquito, já sem conseguir movimentar as patas traseiras e nem as dianteiras, deu seus últimos suspiros, recebendo muito carinho e amor, deitado no chão ao lado da cama, lugar que ele tanto gostava de deitar. Ele sabia que estava de partida, e só aguardava a autorização de embarque de seus tutores que tanto o amam, e que fizeram de tudo para que ele tivesse a melhor vida possível.
Chiquito deixou muitas memórias agradáveis, um verdadeiro Cãopanheiro, momentos inesquecíveis, uma massa de pessoas que o amavam, indo viver no paraíso dos animais, onde se encontra tantos outros seres que fizeram da vida algo que valesse a pena de ser vivida. Lugar onde apenas bons humanos conseguem ir, pois estar rodeado de bichanos incríveis é o melhor pós-morte que alguém poderá ter.
Vá em paz Chico, você fará muita falta em nossas vidas.


Definições…

Belo Horizonte, 23 de Fevereiro de 2024
Manhã muito chuvosa, fria, cinza, fechada…

Me detive um tempo tentando compreender o que sinto neste momento. Fiquei pensando muito se o termo apropriado seria algo como “angústia”. Fiquei pensando se escrever sobre isso me tiraria um pouco desta dor. Busquei em diferentes dicionários esses significados, mas a racionalidade e a objetividade talvez não caibam neste momento.
O Priberam me diz que o termo significa estreiteza; grande aflição acompanhada de opressão e de tristeza. O Michaelis traz o termo como perda de espaço ou de tempo; carência, falta. O Dicio me diz que o termo diz respeito a uma ansiedade física acompanhada de dor; agonia, ansiedade, apreensão, aperto. A Infopédia traz como aflição, ansiedade, agonia. Cambridge traz como aflição; ansiedade. Aulete coloca como ansiedade intensa; aflição; agonia.
Destas pesquisas, apenas três me retornam significados outros, de ordem mais profunda. O termo aparece como experiência metafísica através do qual o homem toma consciência do ser; ou sentimento de ameaça que não se consegue determinar nem medir, sendo próprio da condição humana; também como a consciência da responsabilidade do homem que decorre de sua infinita liberdade; por último uma inquietude metafísica e moral, como consciência de um destino pessoal sob o signo da liberdade ou da ameaça do nada.
Não, nada disso me ajuda.
Fico pensando no quanto vivenciar essas situações limítrofes entre a vida e a morte pode ou não ser interessante, no quanto refletimos sobre isso tudo, e em como nossa ansiedade nos impede de sair de um lugar, qualquer lugar. Eu fico imóvel com um nó na garganta. Apesar de tudo que tenho lido e refletido sobre a morte, acho que eu ainda não sei lidar com situações que se aproximam do risco da passagem para outro plano, se é que isso existe.
Talvez eu tenha que me acostumar com o tamanho do NADA que encontramos quando precisamos de respostas, ou mesmo de caminhos.
O tempo nublado não me ajuda a ver o horizonte.
O vento frio não aquece meu coração.
Eu não sei definir o que significa angústia, e nem se é isso mesmo que sinto agora.



“Pensar incomoda como andar na chuva, quando o vento cresce parece que chove mais…” Fernando Pessoa.

Corpo utópico

Hoje escreverei sobre utopia. Mas não sobre política, nem horizontes, nem fábulas, não vou trazer autores, mas talvez eu traga. E talvez eu fale sobre tudo, e sobre nada. Hoje tentarei ser espontâneo. A utopia a que me refiro hoje, é o lugar inexistente que passamos a saber da existência. Topia, vem de topos, lugar. A letra U que antecede a palavra sugere uma negação à esse lugar. Utopia se define, então, como um lugar sem lugar, um não-lugar, um lugar inexistente. Um lugar idealizado, fantasiado, perfeito, uma quimera.
Trago esse preâmbulo confuso para pensarmos nos nossos corpos, organismos físicos que não compreendemos muito bem como funciona. O corpo quando é dissecado em vida, possui um complexo de órgãos, músculos, tecidos, células, líquidos e outras matérias que trabalham em conjunto fitando manter a vitalidade dos seres humanos.
Nós raramente pensamos no lugar que nosso corpo e suas complexidades habitam. Porque comemos o que comemos, porque nos movimentamos, porque pensamos, nos relacionamos, porque nos excitamos e nos empolgamos com alguma coisa?
Há algo que reside no subjetivo de nossa existência que não possui um lugar concreto. E agora, enquanto escrevo, me pergunto se o corpo é uma utopia ou uma heterotopia, lugar utópico com posicionamento em um lugar real. Mas penso no que compõe o corpo, que sabemos que existe, que está lá, e que não nos damos conta da importância ou da existência.
No primeiro semestre do ano passado li o texto “O Corpo Utópico” de Michel Foucault, lançado pela N-1 Edições. Entre os exemplos que o filósofo cita no decorrer de suas linhas, algumas definições me chamaram a atenção. E me impressiona o fato de eu guardar esta ideia por tanto tempo antes de escrever sobre.
– O primeiro exemplo passa pela forma como descobrimos a existência de nosso corpo. Um bebê recém nascido, que passa seus dias com um universo muito limitado em relação ao corpo, aprende aos poucos que existe algo além de sua cabeça, e vai descobrindo seus membros e como controlá-los. Cada descoberta traz uma imensidão de possibilidades, e aqui cabe a analogia com criar um lugar para o que antes era inexistente, ou se desconhecia a existência;
– O segundo exemplo perpassa toda uma questão relacionada à ordem do sensível. São corpos que, apesar de se situarem na ordem material, nos são invisíveis. Nesse sentido, a exploração através do tato, do olfato, da audição, do paladar e da visão nos fazem conhecer, de outras formas, outros tipos de interação com diferentes matérias. Sentir e fazer sentir nos possibilita localizar algo que não conseguíamos imaginar ou prever. Olhar para a pele arrepiada é uma experiência diferente de sentir arrepios, ou de causar arrepios em alguém. A sensação se localiza na interação, e logo se torna utopia novamente;
– Por último, o desaparecimento de um lugar físico, de uma matéria, de um corpo. A transformação de algo localizado em uma utopia. O corpo não se deixa reduzir tão facilmente, ele quer existir em algum lugar. O corpo possui as próprias fontes de utopia, de imaginação, de sensibilidades, de localização ou perda de qualquer coisa. O que nos constitui como sujeitos, que nos faz pensar, refletir, nos movimentar, nos relacionar e desenvolver novos espaços, reais ou virtuais. O corpo é atuante e resistente ao esquecimento, até que é acometido por alguma doença ou debilidade em suas diferentes funções. Foucault escreve que em situações de enfermidade o corpo deixa de atuar, de sonhar ou de imaginar, e passa apenas a tentar sobreviver, resistindo ao que lhe destrói. O lugar real do corpo se torna um lugar desconhecido, talvez esquecido. O corpo perde suas subjetividades e funções para tornar-se apenas uma coisa, uma carcaça de anticorpos que busca sentido para a vida.
Todas as coisas existentes e inexistentes estão dispostas em relação ao corpo. Porém para cada corpo, uma disposição diferente de topias e utopias. O corpo é o marco zero onde desenvolvemos nossos significados, onde localizamos as utopias, de onde irradiam todos os lugares possíveis e impossíveis.

3 anos

Hoje se completam 3 anos do falecimento do meu pai. Eu gosto de sentar na frente do computador e escrever algo em sua homenagem sempre que chega o dia 25 de Janeiro. Esse dia é dedicado à escrita sobre a morte, sobre a vida, sobre as relações e sobre várias coisas que me lembram dele, ou dos momentos que pudemos vivenciar juntos. É uma forma de localizar a memória guardada em alguma utopia do meu cérebro e transformar em algo real.
Trago este tema da utopia porque penso na linha da vida em que meu pai nasceu, viveu, e teve o funcionamento de seu corpo interrompido por conta de um tumor. Fico aqui pensando em tudo que ele descobriu e vivenciou durante sua existência no plano terrestre. Tudo que ele pôde significar em relação ao que o afetava e interagia com ele. E eu me incluo nesse espectro luminoso de sentidos. Muitas dessas descobertas foram feitas junto à mim, ou em relação à mim, e muitas outras apenas me foram transmitidas.
Durante muito tempo, eu ficava me perguntando sobre o sentido da morte, porque morremos, e essas coisas. Mas acho que da mesma forma que nós topificamos o que está ao nosso redor na medida em que nos desenvolvemos, nos transformamos em utopias quando precisamos lidar com tudo que ainda nos é desconhecido. Não sabemos nada sobre doenças, até que precisamos lidar com alguma. E lidamos com nossas próprias doenças e com doenças das pessoas com quem nos relacionamos, com quem temos afetos. Tentamos localizar o corpo em algum lugar na esfera da vida, como se fosse um alfinete em um mapa-mundi, e nossos esforços de conter uma possível utopia dos corpos é incansável.
O corpo doente é apenas uma coisa que será mantida viva por profissionais da saúde, por fármacos ou por máquinas, e aí já não importam mais as subjetividades. Importa apenas o esforço em adiar a utopia da matéria por mais algum tempo.
E eu fico pensando aqui em todo o processo que meu pai passou. Foram apenas 3 meses da descoberta de um tumor até seu falecimento. E o corpo dele foi, praticamente, reduzido a algo que necessitava um esforço em ser mantido vivo, não importa qual procedimento cirúrgico, laboratorial, robótico ou químico seria utilizado para isso. Todos nos esforçamos com essa finalidade.
Talvez eu escreva isso sendo cruel demais com todo o processo, ou talvez não. Na hora tudo parece ser o melhor método, e mesmo depois nós ainda não sabemos muito bem o que foi tudo isso. No calor do momento eu escrevi sobre o processo de morte, e como significávamos tudo o que acontecia. Foi tudo muito tenso, e corrido, e exaustivo, e cansativo, e triste. Celebrávamos cada melhora como se ganhássemos um campeonato, e nos abatíamos a cada notícia desfavorável que chegava. Sempre achamos que algo mais poderia ser feito, ao mesmo tempo em que temos a certeza de que tudo que era possível de ser feito, foi feito. É um sentimento muito ambíguo e contraditório em relação à tudo que aconteceu.
Mas, enfim, prefiro ainda acreditar que meu pai foi descansar de tudo que ele vivenciou e descobriu. De todas as relações que ele significou e que já era hora de fazer o corpo descansar da luta contra o surgimento da utopia.
E ainda que o corpo do meu pai tenha se tornado novamente uma utopia, o lugar que ele ocupa em minha vida segue muito bem localizado na minha memória, nos meus afetos, as minhas topias utópicas.
Cuidem de seus corpos.

Cinzas sendo depositadas no rio. Meu pai adorava nadar. A água será a última topia do corpo dele.




Treino de desenho

Desde o final do ano passado eu tenho tentado desenhar casas que eu salvo do Pinterest, utilizando sempre uma mesma estética, praticamente os mesmos materiais e tals. Tem sido uma atividade bem massa e eu consigo perceber uma evolução no quesito desenho de observação e na utilização da imaginação para compor e colorir.
Ano passado ou retrasado, não me lembro, tinha feito uma pintura em aquarela de um conjunto de casas ocupadas. Eu curti muito o desenho e a pintura, mas acho que o céu hoje não me agrada a forma e as cores que utilizei. Depois publico foto dela (acho que me esqueci de publicar ela aqui, rs). Mas isso me deu uma certa vontade de estudar mais, de arriscar mais.
Ano passado cheguei a fazer 4 desenhos/pinturas de casas utilizando marcadores chanfrados e bico de pena com tinta nanquim. Foram experiência interessantes, pude desenvolver bem a imagem e também aprendi muito a usar os marcadores a base de álcool. São os mesmos marcadores “tons de pele” que eu tinha comprado um tempo atrás e que até cheguei a fazer alguns desenhos com eles em um breve teste. Minha amiga Jay tinha comentado que os marcadores a incomodavam pelo fato de que ficam muito “marcados” na imagem (e, de fato, ela faz umas passagens de tons bem suaves, muito diferentes da marca que os marcadores deixam no papel), e eu fiquei pensando em como poderia tentar escapar desse tipo de efeito mais grosseiro. Ainda que várias destas primeiras imagens possuam traços bem marcados, com o tempo eu fui aprendendo a utilizar melhor as potencialidades destes marcadores. As fotos a seguir mostram a sequência dos desenhos no sketchbook que eu separei exclusivamente para isso.

House-sketcher depois de estudar melhor

Depois de um tempo pintando somente com as cores “tons de pele” do kit que eu tinha comprado, decidi investir em mais cores, pois me sentia muito limitado aos tons de marrom. Infelizmente esses marcadores são muito caros, e acabo comprando 1 ou 2 unidades apenas. Mas eu descobri que o ideal é sempre comprar cores parecidas, um tom claro e um tom médio/escuro, pois assim fica mais fácil fazer as passagens entre as cores.
E eu fico falando tudo isso sobre cor, mas eu nem sei se isso necessariamente faz sentido, pois sendo daltônico essa parte técnica é um pouco mais complicada.
Após estes estudos, eu acabei comprando um curso de desenhar casas no Doméstika. É um curso bem básico, mas que eu curti muito. Me senti bem confiante, por exemplo, de desenhar as casas sem fazer esboço com lápis, já começar com o bico de pena e o nanquim, na tora. Me senti muito profissional fazendo isso, rs. Também acho que o curso me ensinou a utilizar melhor o espaço do papel, centralizando a casa e deixando espaços vazios no entorno também. Isso deixa o desenho mais leve. Outra coisa foi a utilização da cor branca. No curso, o professor utiliza uma Posca branca para fazer uns efeitos de luz que eu achei bem interessante. Ele também ensina bem a fazer a degradê com os marcadores, transformando a borda grosseira da tinta em algo beeeem mais suave. Outra coisa foi a confiança em agregar elementos do meu imaginário no desenho. Antes eu seguia a foto à risca, alterando poucas coisas. Nos próximos sketches vocês perceberão que as casas possuem mais elementos e mais ousadia também. Acho que curti esses modelos.

Todos os desenhos foram digitalizados e levemente tratados para se assimilarem melhor ao que está no sketchbook. Subi um pouco o contraste, diminuí o brilho e dei uma calibrada nas cores (mas para um daltônico, pode ser que esteja tudo diferente, hahaha). Quando vocês me fizerem uma visita, peça para ver meus sketchbooks, e aí vocês podem tirar as próprias conclusões.
O projeto final lá do Doméstika pode ser visto clicando aqui.
Enfim, gostaria que vocês pudessem me fornecer opiniães e comentários sobre esse processo também. O que acharam?

Queimando olho

Domingo de manhã eu queimei meu olho esquerdo. Eu não estava brincando com fogo, nem olhei um eclipse sem raio-x. Não teve calor, nem chamas e nem foto-ofuscamento. Foi uma queimadura química provocada por agentes tipo C-Corrosivos.
Traduzindo a situação, eu guardei a manhã de domingo para tirar fantasmas das telas de serigrafia. Os fantasmas são manchas químicas e gordurosas que se fixam nas telas, e ainda que não dê nenhum problema, elas podem dificultar a fixação da emulsão fotossensível, fazendo com que a tela abra nas regiões frágeis e a impressão fique manchada.
Eu comprei o Remoclean Removedor Mono, comprei luvas de neoprene resistentes à corrosão, comprei óculos de segurança e máscaras. Foram 3 sessões de limpeza, e a ideia era tirar os fantasmas de quase todas as telas desgravadas que tenho aqui no meu estúdio. Nas duas primeiras sessões ocorreu tudo certo. Passo o produto, aguardo 15 minutos, jateio com água e a tela fica extremamente limpa, sem vestígios que fora outrora utilizada.
Na última sessão, domingo, me aguardavam as maiores telas, que eu uso com menos frequência e por isso eu estava em um clima mais tranquilo e, aparentemente, mais desatento. Eu logo coloco os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e já inicio o processo de passar o Remoclean nas telas grandes. Eis que o primeiro momento horrível de 2024 aparece.
A esponja de nylon agarra na lateral de uma das telas e ricocheteia em minha direção parte do produto químico, corrosivo, ácido. Foi a pior maneira de descobrir que eu havia me esquecido de colocar os óculos de proteção. Várias coisas passaram pela minha cabeça. Com o impacto e o início da ardência, minha primeira reação foi tapar o olho com a mão e correr em direção a um tanque. Segurei minha pálpebra aberta e deixei água corrente escorrer no olho esquerdo, que ardia em chamas. Não, eu não enxergava nada, tudo embaçado à minha frente. O nervoso que eu tenho com qualquer coisa que envolve olhos foi deixado de lado para que eu pudesse salvar minha visão. Meu olho ardia como se fosse uma bola de fogo.
Após alguns minutos debaixo da torneira do tanque, entrei em casa para enxugar a cara enquanto acordava minha companheira com os dizeres: “ACORDA, ME LEVA PRO HOSPITAL, QUEIMEI O OLHO!”.
Foi difícil compreender que eu poderia perder parte da visão naquele momento. Eu lacrimejava muito, e eu ainda não sei se eram lágrimas provenientes da resposta do corpo à queimadura ou ao choro pela ardência e pelo vacilo que eu tinha dado naquela manhã. Minha companheira levanta correndo, estava conversando com alguém no celular. Ela me pergunta “Qual produto que é? Quais os ingredientes?” e eu só consigo responder que eu não sei, só sei que é corrosivo. Ela conversa com uma amiga que é oftalmologista, e nós buscamos por informações na embalagem do Remoclean. R20/21/22-35 S 7/9 – 26-36/37/39-45. Esse código são as únicas informações que aparecem. Acessamos o Boletim Técnico no site da empresa fabricante, e na seção dos ingredientes um belo “Segredo de Fábrica” frustra nossa intenção de descobrir como tratar a queimadura.
Meu olho ardia, e eu seguia segurando minhas pálpebras abertas debaixo da torneira aberta com água corrente. Menos mal que, apesar da ardência e do embaçamento, eu conseguia enxergar alguma coisa. Saímos de casa, seguimos para o hospital para consultar com um plantonista. Após um tempo de espera razoável tenho meu olho esquerdo analisado por um profissional.

Ele me diz que eu tive sorte, pois havia apenas uma irritação na parte branca do olho, nada atingiu córneas.
Ele me disse que eu ainda ficaria uns dois dias com muito incômodo no olho.
Ele me disse que eu deveria pingar um colírio anti-inflamatório de 6 em 6 horas, durante 5 dias.
Ele me disse que eu deveria pingar colírio comum de hora em hora, pra ajudar na lubrificação.

Hoje é meu último dia de colírio anti-inflamatório. Ele arde. Eu nunca tive o costume de usar colírio. Não me agrada o gosto que surge na garganta após pingar qualquer colírio nos olhos. Eu não sabia pingar, sempre errava a mira. Depois de alguns dias pingando, já me tornei expert em pingar somente no olho. A prática leva à perfeição. E eu que jurei que sairia do hospital com um tapa-olhos, saí apenas com uma sensibilidade à luz. Não conseguia ver telas, doíam meus olhos. Eu tinha uma sensação esquisita de que havia areia debaixo da minha pálpebra superior. Meu olho inchou, ficava fechado bastante tempo, e as pálpebras grudavam com a quantidade de remelas que surgiam. Na terça-feira meu olho amanheceu aberto, com muito menos incômodo, mas ainda lacrimejando bastante.
Tudo passou pela minha cabeça nesses dias para cá, tudo.

Eu ainda não tive coragem de limpar os fantasmas das telas maiores.

Animaçãozinha relax de momentos tensos

[Stencil] A Grande Onda de Kanagawa

Interesse

Não me lembro bem quando foi que essa imagem se fixou tanto no meu imaginário. Mas gosto de pensar que o interesse que tenho em fenômenos da natureza geraram essa fixação. Em 2004, acompanhei atentamente todos os vídeos curtos e de baixa qualidade que circulavam na internet mostrando o tsunami da Indonésia. Tragédia que eu assistia o tempo todo, cada segundo de gravação. Quando entrei no curso de Geografia em 2009, devorava os livros de geologia e de cartografia, minhas áreas preferidas. A primeira e única vez que vi um vulcão foi em 2012, sobrevoando a Cidade do México. Paixão à primeira vista. Vejo vídeos de terremotos em diferentes localidades e fico imaginando como será essa sensação da terra se mexendo. Vi praticamente todos os vídeos do tsunami de Fukushima, 2011, além de ver vários vídeos de erupções vulcânicas, inclusive o canal ao vivo das Ilhas Canárias. Me lembro bem da minha professora Mônica, de geologia, falar sobre vulcões que expeliam lava continuamente na América Central. E até hoje eu tenho o desejo de ver isso ao vivo. Natureza que tudo destrói. Não é um sonho de destruição, mas uma certa admiração da nossa pequenez frente ao mundo.
Esse interesse que eu tenho de vivenciar certos fenômenos que inexistem atualmente nesse pedaço de terra em que vivo são algo que me movem. Imagino que observar a gravura “A Grande Onda de Kanagawa”, do mestre Katsushika Hokusai, talvez me traga um pouco dessa sensação. Não me lembro qual a primeira vez que a vi, mas me lembro bem de analisar cada centímetro desta gravura.

Produção

Foi em 2013 que eu tive a ideia de começar a reproduzir “obras de arte” com a técnica do stencil. Me propus a cumprir o desafio de logo começar com a imagem que circula no meu imaginário. De tanto observar os elementos da gravura, já tinha uma noção de como fazer. O processo não foi nada fácil. Na época, eu não sabia fazer separação de cores no Photoshop, e o processo foi completamente manual. Fiz uma impressão da gravura em tamanho aproximado de A3. Separei uma dúzia de radiografias, papel carbono branco, e fiz o decalque e as separações de cores de forma completamente manual. Não tinha noção de como iria ser o resultado, até porque tinha dúvidas se meu daltonismo me permitiria compreender as diferenças tonais. Mas não perdi muito tempo com a ansiedade e logo já comecei os cortes.
As camadas possuíam diferentes níveis de complexidade. O que era água, seriam três cores, sendo a primeira com muitos detalhes e dando contra forma à parte branca da onda, e outras duas camadas tonais complementares.
O céu, apenas duas camadas, envolvidas em borrifos e degradês para simular os tons da gravura original. As canoas, duas camadas de cores, tom sobre tom. As pessoas, apenas a camada das roupas.
Por último, o mais complexo. Uma camada de linhas finas que estariam em toda a imagem; repleta de pequenos detalhes essenciais para uma boa visualização; e uma última camada com as bolhas brancas saindo das ondas, além do papiro de informações sobre a obra que, nesta imagem, está presente no céu. Ambas camadas apenas funcionariam se todo o encaixe das cores anteriores estivessem perfeitos.

Uma questão que me deixou bastante inseguro no início foi a utilização das cores. E, nesse sentido, me esbarrei em duas questões:
– Em primeiro lugar, cada referência da imagem que eu encontrava nas buscas online me traziam cores distintas para a água e, de forma ainda mais evidentes, para o céu ao fundo. As variações eram enormes.
– Em segundo lugar, eu estava sujeito à disponibilidade das cores em spray que eu encontrava. Não é uma tarefa fácil achar a tonalidade certa, depende da marca e da disponibilidade da loja em ter o que precisamos. Isso, sem contar, que a cor de referência da lata nem sempre é a mesma da tinta quando pintada.

Lágrimas

Em 2015, tive a oportunidade de ver uma impressão da gravura ao vivo, no Metropolitan Museum. Vi tudo com meus próprios olhos e boatos dizem que algumas lágrimas escorreram. Ver a gravura in loco é muito diferente de ver as digitalizações, com suas correções de matiz e contrastes. Ver de perto cada veio da madeira que aparecia na impressão, a utilização das cores e degradês, cada detalhezinho de entalhe. Tudo isso me emocionou bastante.

Acho que essa experiência me trouxe uma sensação de que tudo que eu tinha visto antes era bem diferente, que as imagens de internet são em muito superadas pelas experiência ao vivo. Pra quem curte pensar na técnica, no processo, penso que somente o contato direto dos olhos com a impressão nos permite ver a grandeza e a riqueza dos detalhes, a forma de entalhe e tratamento da madeira, o sangue e o suor que ali foram depositados.
Por incrível que pareça, ver a gravura ao vivo me deixou mais confiante em experimentar outras combinações de cores, tentar criar outras atmosferas, ousar mais.

Acho que a experiência de ter feito esse stencil, todo de forma manual, me trouxe uma sensação das próprias limitações das técnicas, apresentando suas diferenças estéticas e uma sensação de que, cada vez mais, a xilogravura é algo muito mais complexo que uma mera estética.
“A Grande Onda de Kanagawa”, com toda sua fúria e sua beleza, abraçando o Monte Fuji, enquanto navegantes são espectadores e participantes deste momento, é algo que me toca profundamente.

Vídeo curto sobre as etapas de produção

Talvez as pessoas não tenham noção do que foi pensar e produzir essa impressão em stencil. Do trabalho em cortar, do trabalho em imprimir todas as 9 camadas de matrizes, com aproximadamente 14 cores sendo utilizadas. A dimensão disso tudo se perde com o tempo, e apenas o produto é apresentado, com suas falhas de impressão, borrões de tintas, inexatidão de cores. Mas acho que talvez tenha sido um processo tão relevante e significativo para mim que não posso ignorá-lo do meu histórico. O tempo de observação, os cuidados com o corte, a reflexão sobre as cores. O processo de impressão em time-lapse pode ser conferido a seguir. Produção de várias impressões em spray, muitas delas com cores experimentais e muita paciência.

Processo completo de impressão de todas as camadas

Seguiremos

Com os últimos suspiros de 2023 vem a vontade de escrever algo. Hoje estava pensando no que pudesse ser algo similar a uma certa retrospectiva desse ano que termina, mas acho que nada que eu escrevesse poderia representar tudo que foi. Em 2023 minha vida mudou drasticamente, teve aumento do número de clientes, de parcerias, de parceragens, de produção autoral e/ou terceirizada. Ingressei no mundo acadêmico e, ainda que eu esteja tentando me encontrar neste espaço, tenho curtido muito as pesquisas que tenho feito. Me propus a circular mais também, participei de algumas feiras em outras localidades e com isso acho que tenho conseguido firmar alguns laços importantes e ampliar as redes, conheci muita gente que significou muito para mim também. Muitas trocas importantes aconteceram nessas interações. Li bastante, tanto literatura quanto teoria, e produzi muito também na área criativa. Consegui escrever sobre minhas obras no blog, consegui inventar histórias e escrever relatos sobre minhas experiências também. Tenho me arriscado mais, sobretudo em situações em que eu havia perdido algumas das minhas habilidades. Também vivi fora das redes sociais por um tempo e, ainda que eu tenha desaparecido das timelines e feeds, foi a melhor ideia que tive em muito tempo. Vamos ver como será no próximo ano. Enfim, foi um ano ótimo. Obrigado por tudo.
Pego todas essas experiências e só consigo imaginar no porvir. O que será que teremos pela frente? Não importa, tô mais confiante que nunca.
Pego referências de DISCARGA e de FUN PEOPLE para encerrar este ano com um convite à luta, à memória, à resistência, e todas as possibilidades de vida que nos foram negadas/retiradas/arrancadas. Foi graças ao processo de resistir ao poder e às formas de dominação, de conseguirmos nos associar para firmar laços e de construir possibilidades distintas de vida que não desistiremos. Por AMOR seguiremos todxs de pé. Façamos nós mesmos o mundo que almejamos.
Pode vir 2024, estamos preparadxs!

Homenagem a Nêgo Bispo

Antônio Bispo dos Santos faleceu dia 3 de Dezembro de 2023. Eu me lembro bem do momento em que fiquei sabendo da triste notícia. Eu estava em Brasília, participando da Feira Gráfica MOTIM, que teve esta edição no Museu Nacional. Eu olhava para minhas gravuras expostas, e com destaque na minha banquinha havia a “Transfluência“, a gravura que fiz a partir de uma entrevista com Nêgo Bispo presente no livro “Mobilidade Antirracista“. Eu me inspirei muito na época ao ler cada palavra de Bispo. Já fazia um tempo que não produzia nada tão significativo e profundo, e esse foi um trabalho de pesquisa conceitual e imagético que me fez gastar muita energia no desenvolvimento. E é curioso porque muitas pessoas se interessam pela gravura, pela postagem que fiz falando sobre o processo de produção dela, mas ela está longe de ser um produto lucrativo pra mim. Acho que até hoje eu vendi apenas 1 cópia dela, para um casal de médicos que haviam parado na minha banquinha numa feira em BH. Mas talvez esse diálogo sobre tentar ~viver de arte~ não seja o mais adequado para este momento. Desde o dia 3 que eu fico pensando no que poderia fazer para prestar essa homenagem à uma pessoa que me tirou um pouco da inércia de ideias, e me fez repensar um pouco sobre a forma como eu produzia algumas coisas, sobre algumas associações que fazia enquanto artista visual. A entrevista dele me fez voltar a pesquisar para produzir. E eu digo que estava em dúvidas se fazia uma homenagem ou não com o receio de cair no oportunismo capitalista de almejar lucro aproveitando o momento do óbito de alguém. E isso não é e nunca será minha intenção aqui. Hoje eu entendo o quanto eu gostaria de agradecê-lo pelas ideias que ele expressou e que ecoaram na minha cabeça. Talvez ele nunca saiba da importância que ele teve na minha vida. Hoje mesmo eu estava pensando se eu tomei conhecimento da existência dele tarde demais… Mas acho que eu o conheci no momento certo em que suas ideias dialogavam as minhas. Tudo vibrou na mesma frequência.

Hoje eu fiz uma ilustração do Nêgo Bispo usando a referência de uma fotografia em que ele apoiava a cabeça nas mãos que se entrecruzavam na nuca. Ele olhava para cima, descansado e tranquilo. Um momento de paz e suavidade. Ao fundo, coloquei a imagem em marca d’água da gravura que fiz baseado nele, Transfluência. Nessa ideia, o conhecimento dele seguirá viagem através de outras matérias, e se recriará em outros povos. Tudo segue conectado.

VIDA LONGA NÊGO BISPO! OBRIGADO POR TUDO!

Desaparecer virtualmente (ou uma paralaxe analógica)

Outro dia eu me dei conta de que eu nunca me vi. Faço uma ideia de como seja minha aparência, mas eu mesmo nunca conseguirei saber realmente como sou. Bom, através do tato consigo sentir meu rosto, a textura da minha pele, as curvas salientes, meus curtos pelos arrepiados ou a barba grossa. Consigo sentir a gordura da pele, a maciez da carne ou a dureza do osso. Consigo sentir as lágrimas saindo dos meus olhos e escorrendo pelas bochechas, enquanto minhas mãos tentam enxugá-las. E, talvez, próximo disso seja tudo que conseguirei experimentar e descrever sobre minha aparência real.
Quisera eu saber realmente como sou, pois apenas me conheço virtualmente. Necessito da lente de uma câmera, de uma superfície espelhada, dos olhos de outra pessoa que me observa por alguns instantes e marca no papel o que foi registrado em sua memória sobre a minha aparência. Para eu saber como sou, dependo sempre de outra pessoa, de outro objeto, de algo que capte a luz refletida pelo meu rosto.

Outro dia, caminhando pelas ruas de BH, me deparei com algumas vidraças espelhadas. Ainda que eu tentasse fugir do meu reflexo, meus olhos sempre enxergavam minha imagem. Meus olhos são dois globos captadores de luz, dispostos na cabeça de uma maneira que captem luz de diferentes ângulos, e meu cérebro faz o serviço de juntar essas duas imagens em apenas uma imagem coerente. Nossos dois olhos enxergam muito mais do que a gente supõe ser real. Nossos olhos nos tiram da superfície plana e nos fornece algo de profundidade, de forma, de relevo.
No reflexo das vidraças, alguma parte de mim sempre aparecia. Não consegui me esconder por inteiro, meus olhos me enganavam. Decidi registrar essa tentativa frustrada de não aparecer, de ver meu reflexo como eu me vejo.

Portava comigo uma câmera Olympus Pen-EE, com um filme PB Double-X, ISO 200, vencido. Através do visor posso ter apenas uma noção do que será registrado na película. O que eu miro não é o que a câmera capta. Eu sempre via algum reflexo de mim na vidraça, uma parte do corpo cuja luz não escapava aos meus olhos. A câmera, com sua lente única, apenas compreende o sentido de planificar a luz sob o mesmo ângulo. Ela não capta a luz como meus olhos. A fotografia me forneceu o momento de desaparecimento, de não me enxergar virtualmente, de não me enxergar mesmo com ajuda do espelho. Era pra registrar a frustração de enxergar uma imagem sempre virtual, e a câmera possibilitou que eu enxergasse o sujeito que se deteve alguns minutos para registrar o momento. Me encontrei na ausência.

Eu sou real, estou aqui, não me vejo. Todos me veem de alguma forma, sempre diferente do que eu imagino. Nesta fotografia, apenas o eu real, fotógrafo-artista-andarilho-flaneur-amador sem saber o que faz da vida, existe. Ou existiu naquele momento passado analógico.

La Idea, 2023

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Pintando aquarelas a partir de fotografias com muita luz e sombra bem marcada

Pintar com tintas aquarelas é algo que eu ainda tenho dificuldades. Exige-se compreender os efeitos e transparências, trabalhar com quantidades distintas de água, ora com precisão, ora sem, mas exige-se, principalmente, muita paciência. Eu admito que demorou bastante até que eu conseguisse essa façanha de aguardar que a tinta se seque pra fazer mais camadas de cor. Demorou para que eu entendesse que tinta sobre papel seco e tinta sobre papel molhado também criam resultados distintos. Antes deu saber disso, eu pintava com a tinta muito concentrada direto no papel seco, como se fosse uma acrílica. E é óbvio que eu sempre acabava perdendo o ponto de diluição ou de passagem tonal. No final das contas, ficava tudo muito marcado pelo exagero e por grandes contrastes de cor. Não que isso seja ruim, mas acho que não era o resultado que eu buscava.

Foi vendo amigos aquarelistas pintando que eu fui compreendendo várias coisas que poderia fazer diferente, novas técnicas que eu poderia utilizar, e percebendo que a paciência realmente é necessária para alcançar alguns resultados. Artistas como Daniel de Carvalho e Prisca Paes me ensinaram bastante coisa em uma conversa que tiveram em uma Live no Instagram durante a pandemia. Curiosamente, ambos são formados em serigrafia (que é uma das minhas especialidades) mas se dedicam à pintura em aquarela, e ambos já trabalharam comigo aqui na serigrafia. Foi essa conversa e alguns vídeos que eu vi do processo de produção deles é que me fizeram mudar muito meu estilo de pintura, a buscar mais essa paciência de esperar cada processo se completar, de aguardar a secagem, de saber quando e como utilizar água. E é impressionante como que eu acho que deu certo.

Observando “Fotografias de Rua”

Uma das minhas paixões recentes é essa categoria de fotos conhecidas como “Fotografias de Rua” (Street Photography). Esse tipo de fotos eu já curtia, porém não sabia que havia essa categoria específica. São fotos que registram momentos nas ruas, sobretudo de pessoas interagindo com o ambiente urbano de alguma forma. Dentre as que mais me chamam atenção posso destacar aqui, sem sobra de dúvidas, fotos em que se sente o calor vindo do sol, cuja superfície vertical ao fundo fica evidente e a sombra dos objetos sempre muito marcada. Esse estilo tem me chamado atenção, o que me despertou interesse, inclusive, em sair para fotografar esses momentos dessa maneira. Ainda não consegui fazer isso, mas já tracei como metas em dias ensolarados.

Utilizando essa ideia, essa foi a primeira pintura que fiz. A sombra da luminária projetada distorcida na parede, a sombra do sujeito marcada no piso, um ambiente caloroso com um sol forte vindo de frente, amanhecer ou entardecer? Não sabemos. O sujeito caminha em direção ao sol, cabisbaixo.
A parede foi feita com tinta em papel molhado e o chão foi feito com manchas transparentes sobrepostas. Os elementos mais definidos foram feitos com camadas sobrepostas para dar forma, luz e sombra.

A segunda pintura que fiz utilizando essa mesma ideia, representa uma mulher caminhando em frente a um portão de grades. O portão foi isolado com máscara, e toda a parede surge como um elemento mais fresco ao olhar, se contrapondo à mulher que se protege do sol forte com uma sombrinha, óculos escuros, roupas leves. A sombra bem marcada no chão indica um sol a pino, próximo de meio dia na região entre Trópicos.

Nesta outra pintura, o sol vem de lado, forte e intenso, em um fim de tarde ou início da manhã de uma cidade qualquer. O semáforo, aberto para pedestres, também sofre interferência da luz solar. A sombra esticada indica o sol próximo à linha do horizonte, provavelmente entre o Ártico e o Trópico, o asfalto traz uma sensação mais fresca à imagem. O ciclista, sujeito da foto, pedala tangencialmente aos raios de luz, provavelmente fazendo um percurso norte-sul (ou vice versa). É uma imagem que traz consigo algo de paz e tranquilidade, um momento suave e pleno, sem o caos do horário de pico dos grandes centros urbanos. O efeito no asfalto foi produzido com tinta bem molhada e sal grosso, para fornecer uma textura mais rugosa. A sombra, que infelizmente eu escureci mais do que deveria, foi feita apenas com aquarela líquida diluída (ou mal diluída, rs).

Esta última pintura que analisarei talvez tenha sido a que menos curti o resultado. Nesta, a ideia do tempo passando enquanto o sujeito espera algo fica bem evidente. O sujeito está tranquilo apesar do sol direto de meio de tarde. Um período de relaxamento e contemplação do ato de esperar algo (um ônibus, uma companhia?). Uma das questões aqui foi tentar trabalhar a sombra bem marcada em níveis diferentes de paredes. O que me incomodou foi o alto contraste do toldo e da vidraça da porta que está a direita. Sem querer eu errei a mão na diluição e acabou ficando muito marcado, fugindo um pouco da estética que eu usei no restante da pintura. O céu foi feito também com tinta muito molhada e sal grosso, e o rejunte dos tijolos foi feito com máscara vencida.

Enfim, fazer esse tipo de estudo tem me agradado muito, inclusive muitas das minhas pesquisas visuais no Pinterest e no Reddit acabam indo um pouco por esse estilo de fotografias. Buscar o sol, a sombra, sujeitos e o ambiente urbano me permitem sonhar um pouco mais com o artista aquarelista fotógrafo que crio em mim.
Até já.

O Silêncio é Inútil

Fever 333 é uma banda bem daora, que consegue manter as letras altamente politizadas ainda que estejam no mainstream da indústria musical. Lembra algo de Rage Against The Machine, político e popular, requisitados para serem absorvidos pelo capitalismo e se tornarem mais um produto. São sons violentos, de ataque pesado ao sistema. Estão no sistema, mas não se curvam à ele.
Jason Butler, vocalista do Fever 333, é um sujeito bem relacionado, tira fotos e interage com vários ícones da música pop e do cinema estadunidense. Ainda assim, suas letras, desde a época em que cantava no Letlive., são carregadas de conteúdos políticos, de ataque ao capital, à opressão, à autoridade, e fortalecendo a atuação dos movimentos de lutas identitárias, sobretudo ligadas ao levante da população negra.
O grupo iniciou sua carreira tocando em um estacionamento, com pouquíssimos recursos, instrumentos e caixas de som no baú de um caminhão, e uma demonstração de energia intensa em cada movimento que os 3 membros da banda faziam. Uma presença de palco (se é que o chão do estacionamento possa ser chamado de palco) impressionante, inclusive do baterista. De fato, conhecer a banda foi praticamente interesse à primeira escutada. Som cru e direto do jeito que gosto.
O segundo disco da banda, Strenght In Numb333rs (2019), chegou com um desenvolvimento musical impressionante, mais pesado e mais bem trabalhado, e ainda com letras bem profundas e críticas. Duas músicas me chamaram mais atenção: Inglewood (que trata da questão da gentrificação na cidade de Inglewood, CA, que também é um dos temas trabalhados na série Insecure, da HBO) e The Innocent (que eu irei desenvolver um pouco mais sobre essa música nos próximos parágrafos.)

The Innocent

Essa música, particularmente, me tocou muito. Ela fala sobre violência policial, sobre essa política de identificação visual do corpo negro como merecedor de diversos tipos de violências, inclusive a morte. Essa letra não existe por acaso, os diversos vídeos existentes na internet mostram as atrocidades cometidas por agentes de segurança que enforcam, torturam, atiram e matam corpos negros diariamente. Essa prática racista, genocida e eugenista não é exclusiva dos Estados Unidos. No Brasil, por exemplo, ocorrem situações bem similares e com o aval do Estado. A Ponte Jornalismo é uma mídia que divulga a maior parte dos casos, e muitos deles nem aparecem na grande mídia. Se não fossem essas pessoas corajosas para ir atrás dos fatos e divulgar, seguiríamos alienados em relação à violência sofrida pelo povo negro, pobre e/ou periférico.
A letra desta música me tocou muito nesse sentido. “Sem mais desculpas, nós temos que recusar isto, o silêncio é inútil, vida longa aos inocentes. Eles nos contam histórias, das mais belas glórias, este é o seu aviso, vida longa aos inocentes.”. Ela me traz um pouco da questão da história oral/oralidade, do conhecimento que é transmitido por gerações, de histórias das pessoas que lutaram antes de nós, das pessoas que perderam suas vidas para que as verdades sejam mostradas. Das vidas que as pessoas vivem, e daquelas que possuem o direito institucional de violentar e matar pela cor da pele e classe social.

Produção de gravura baseada nesta letra

Na minha produção enquanto artista visual busco, na maioria das vezes, aliar minhas vivências, leituras, músicas e interesses políticos nas imagens que crio. Gosto de ter esses itens como ponto inicial de pensar o processo criativo. Por causa dessa letra do parágrafo anterior (e agora completando 5 anos do assassinato de Marielle e Anderson), me deu vontade de falar um pouco sobre essa arte que fiz em 2020 eu acho, ainda numa pandemia restritiva. Eu não consegui, ainda, materializar em gravura essa imagem. Na época eu já andava criando umas xilogravuras aliando imagens centrais e escritos com muitos contrastes para xilogravura, e acabei criando essa a partir da letra de The Innocent. Ao centro e com mais destaque, Jason Butler gritando no microfone. Abaixo, faixas e cartazes com dizerem de protesto contra o genocídio da população negra, contra a violência policial, símbolo antifa, punhos negros em riste, Dandara, Zumbi e Marielle Franco. Acima, a frase “O SILÊNCIO É INÚTIL“, parte do refrão da música. Foi a forma que consegui de aliar essa música à uma história regional, desde a resistência na época da colonização até os dias atuais. O sistema violenta e tenta calar à todo custo as vozes oprimidas. Mas os movimentos de resistência seguem lutando, se defendendo, contando suas histórias e memórias para que não cesse a luta. Agora, mais que nunca, tenho vontade de colocar essa arte para circular. Vida longa à resistência e aos inocentes.

You gon get this now

You think, I know
Wide eyes got a narrow scope
You’d think that they’d know
Not to shoot a man while he’s on the floor
That’s why these youngins they run before talkin to police because they know the deal
See young Trayvon Martin has just left the market with candy and got his ass killed

No more excuses we must refuse this Silence is useless
LONG LIVE THE INNOCENT
They tell us stories of star spangled glory this is your warning
LONG LIVE THE INNOCENT

Eyes of the law do not look anything like my own
I can see clearly now that the arraignment is gone
Yes I did go head up with that cop tryina do me like radio Rahim
I looked at the judge said ‘I feared for my life and I pray that you’ll do the right thing’

No more excuses we must refuse this Silence is useless
LONG LIVE THE INNOCENT
They tell us stories of star spangled glory this is your warning
LONG LIVE THE INNOCENT

It ain’t what you are it’s what you can be
And I see you, my brotha
All they know is what you show them

No more excuses we must refuse this Silence is useless
LONG LIVE THE INNOCENT
They tell us stories of star spangled glory this is your warning
LONG LIVE THE INNOCENT

The Innocent

Pensando alto sobre o Livro dos Vivos, de Binho Barreto.

O Livro dos Vivos me chamou atenção pelo nome. Me ofereceu um contraponto instantâneo ao Livro dos Mortos, e eu queria entender o que há nesse livro que possa celebrar a vida como celebramos a morte. Namoro este livro já há algum tempo, desde que vi um exemplar em uma promoção no site da Editora Impressões de Minas, mas não tinha recursos para comprar na e´poca. Hoje escrevo isso e parece bobo, mas quando se está desempregado, comprar livros talvez não seja uma necessidade. Consegui comprar o livro nas mãos do próprio Binho Barreto durante a Feira Urucum. Ele estava expondo seus materiais ao lado da minha banquinha, e foi a chance que tive de trocar uma breve ideia com ele sobre a impressão que o livro dele poderia me fornecer. Desde o falecimento do meu pai, em 2021, que as reflexões sobre vida e morte vagam na minha cabeça. Refletir sobre esses processos me traz uma dor boa, dessas de me sentir vivo e saudosista, de rememorar situações em cada lágrima que escorre. Mas, principalmente, me traz uma vontade de vivenciar coisas diferentes, de correr atrás de sonhos e desejos, de não cair na apatia da sociedade consumista e sem sentido que o kapitalismo impôs.
Não faz nem uma semana que adquiri o exemplar, e agora já tentarei escrever sobre essa obra devorada em poucas horas. É uma escrita tranquila, fluida, em que a todo tempo nos questionamos sobre a veracidade das cenas descritas com uma quantidade de detalhes impressionante. É como se durante a leitura você se colocasse no lugar do autor, e observasse com seus próprios olhos cada elemento da cena que foi narrada. A narrativa tem um cuidado enorme com a memória. Sabemos que a memória nos prega peças, e é bem possível que tudo que Binho Barreto experimentou através de seus olhos não seja exatamente assim. Mas são muitos detalhes que ficaram marcados na pressa cotidiana e que são descritos como um observador nato.
São cenas do cotidiano, efêmeras, captadas somente por quem está atento à tudo que acontece ao seu redor. São segundos que te fazem esquecer do mundo para se concentrar somente nesta cena curiosa. De memória ou in loco cada capítulo traz pessoas vivendo, sendo afetadas por uma situação, por uma discussão, por uma vontade, por um problema, por uma curiosidade. São pessoas que se afetam e são afetadas por diferentes estímulos, e tudo isso é registrado por quem está presente. Lendo estas páginas me senti em um espaço-tempo onde só a observação da cena me importava. Fiquei preso na imaginação, e retornei ao fluxo de leitura.
Belo Horizonte é uma cidade jovem, que se desenvolveu com uma mistura de referências artísticas e arquitetônicas, uma atropelando a outra, que criou avenidas como se fossem muros, que vivencia suas contradições desde sua gênese. Binho parece transitar por estes espaços para descrever o que há de interessante nessas passagens, nesta história que é escrita a cada dia, longe dos holofotes da grande mídia ou do turismo. Cenas comuns, banais e efêmeras (utilizando as palavras da Elza Silveira no posfácio do livro) se tornam situações carregadas de significados, sobretudo pra quem, assim como eu, é de BH, e que todo dia tenta entender qual é a proposta desta cidade fincada no alto das serras entre ecossistemas distintos.
Nós que nos interessamos pela lógica das cidades, das vivências e das relações, percebemos as cenas, mas a correria nos impede de registrar esses momentos. Este livro talvez seja um convite à aguçar a percepção, a exercitar o registro, a viver. Parece cliché falar desta forma, mas a morte é a única certeza que temos. Iremos chegar lá algum dia. Até lá, nós viveremos.

O Livros dos Vivos – Binho Barreto – Selo Leme/Impressões de Minas

Afetar e ser afetado

A Sete Palmos (Six Feet Under) – 2ª Temporada, Episódio 13 – The Last Time

Logo nas primeiras cenas deste episódio Nate Fisher vai de encontro ao seu amigo Aaron Buchbinder. Aaron está em uma cama, olhos vidrados no nada, aparelhos respiratórios ligados, e recebe Nate com os dizeres “Vá embora!“. O que se segue disso, é uma encenação de um processo de morte devido a um câncer de pâncreas em estágio avançado que foi desenvolvido no personagem de Aaron. Ele diz para Nate: “Eu quero que isso acabe!“, e logo depois começa a faltar ar, combustível essencial para a existência dos seres vivos. Aaron diz: “Não estou pronto, me ajude!“, e toda uma representação do estado agonizante acontece a partir daí. A cena termina no minuto 5:33, com o personagem de boca aberta, travado na mesma posição, e o escrito clássico da série com o ano de nascimento e de falecimento da pessoa: 1976 – 2002. 26 anos.
O personagem de Aaron apareceu na série apenas na segunda temporada, e teve uma passagem que, apesar de curta, foi bem marcante para mim. Ele foi diagnosticado com câncer de pâncreas em estágio avançado, e os médicos afirmaram para ele que a morte poderia chegar a qualquer momento. A única reação de Aaron diante deste diagnóstico foi esperar a morte chegar. Rompeu qualquer relação que tinha com familiares, com sua namorada, com seus amigos, com seu trabalho e com seus estudos, com o lazer, com a vida social, com tudo. Assim, aguardou solitário chegar o momento certo. Esse tempo durou por volta de 1 ano. 1 ano em que tudo foi deixado de lado, pra viver em função da morte que nunca chegava.
Nate Fisher conviveu com a morte durante sua infância, pois sua família administrava uma empresa de serviços funerários na sua própria casa. Nate fugiu para Seattle para não herdar os negócios, e jurou que não trabalharia com funerária. Após o falecimento do pai, Nathaniel, logo no primeiro episódio da série, Nate se vê colocado um pouco nessa posição de ajudar nos negócios da família, e acaba virando diretor de funerais na empresa. No episódio 11 da segunda temporada, Nate chega até Aaron por uma indicação de uma Rabina, que ofereceu os serviços da Fisher and Sons para Aaron, e indicou Nate para ajudá-lo no processo de “funeral pré-arranjado”. Ao se conhecerem, Aaron questiona os motivos de fazer um funeral para as pessoas que ficam, e ele tem uma mentalidade que se expressa na frase em que ele diz em bom tom para Nate: “E se sua vida foi uma perda de tempo para todo mundo? Até mesmo para você?“, e segue afirmando para Nate que o que ele está vivendo naquele momento é apenas uma prorrogação da vida, pois ele já deveria ter partido. Depois disso, ainda tardou 2 episódios para Aaron falecer.
A nível teatral de conteúdo televisivo de entretenimento, Aaron conseguiu trazer um pouco do drama e da agonia durante sua partida, e Nate participou do processo como o único sujeito a oferecer suporte a quem já havia desistido de viver. Nate viu a morte chegar e carregar Aaron nos ombros. A última cena desta tomada, de Aaron de boca aberta, corpo rígido, olhando para o nada, me marcou profundamente.

2 anos

Hoje completam-se 2 anos do falecimento do meu pai. Da descoberta do tumor até o falecimento foram apenas 3 meses. Infelizmente, não tivemos certeza de nada, porque não foi feita a biópsia. Mas tudo que os exames indicavam, sugeriam uma neoplasia periampular, câncer no pâncreas. Esse tipo de tumor somente dá alguns sintomas quando já está em estágio avançado, por isso é tão fatal. As últimas palavras do meu pai foram “Eu quero dormir!”. Se fosse um episódio da série, apareceria uma tela branca com o nome do meu pai escrito, além dos anos de 1960-2021, logo depois do meu pai conseguir, finalmente, dormir.
Diferentemente do personagem Aaron, meu pai não desistiu de viver. Viveu intensamente tudo que queria e tudo que pudemos fornecer para ele. Diferentemente de Aaron, meu pai perdeu muito peso, perdeu muitos músculos, sentia muitas dores, e acabou ficando um pouco dependente de outras pessoas para ajudá-lo nas atividades diárias. A alimentação era especial, controlada. Eram tempos complicados de pandemia, então as visitas não poderiam ser tão frequentes e descuidadas.
Eu vi a morte chegar e carregar meu pai nos ombros. Retirar-lhe o ar e o deixar agonizando, enquanto olhava vidrado e rígido o sol que nascia pela Serra, no horizonte vasto. Meu pai tardou várias horas para dar seu último suspiro no processo lento da morte, Aaron teve alguns segundos no 13º episódio da 2ª temporada para conseguir partir em paz.

Eu não vejo mais a morte como eu via antes. Talvez hoje eu tenho um pouco dessa certeza de que a morte chegará para todos nós, e o que fica nesse tipo de reflexão é justamente sobre o que fazemos com nossas vidas. Eu tinha conflitos com meu pai, assim como pais e filhos sempre acabam se desentendendo em alguns pontos de suas vidas, e me arrependo de não ter lidado melhor com várias situações, e talvez até aproveitado mais a presença dele. Imagino que ele poderia pensar o mesmo sobre mim, e isso não necessariamente é um alívio. Fico pensando no personagem de Aaron e na relação que tive com meu pai, e o único que consigo pensar são nas coisas que a gente constrói enquanto sujeitos. Nós somos pessoas sociais, políticas, humanos que erram e aprendem, e que precisamos aprender a viver em sociedade de alguma forma.
Aaron desistiu de completamente tudo, meu pai resistiu enquanto pôde, manteve suas relações e alegria de sempre, não quis preocupar ninguém em nenhum momento. E eu vejo o quanto meu pai afetou as pessoas com quem se relacionou. No velório, em plena pandemia, haviam muuuitas pessoas, e várias mensagens de carinho apareciam no Instagram e Facebook dele (Tá, isso eu acho bizarro). A Federação Mineira de Natação fez uma publicação em memória a meu pai, um atleta PCD amador. Aaron entrou na vida de Nate para lhe dar alguma perspectiva de vida. Meu pai entrou na vida de muitas pessoas para simbolizar várias outras coisas.
Imagino que ele deve ter olhado para tudo que vivenciou e disse: “Acho que foi uma vida bem daora!“. E talvez seja isso que devemos buscar em vida, construir relações, afetos, divertir, buscar os sonhos e desejos, não desistir. Imagino que essa ideia seja o simbolismo que eu gostaria de significar a morte, um movimento em busca de afetos.

Ps.: Na série A Sete Palmos, todo mundo ali precisaria de uma terapia de verdade. É muito trauma e muita treta acumulados, sem verbalizar e sem tentativas de lidar com as emoções de uma maneira mais saudável. Parece que todo mundo é egoísta, sem empatia, e tenta impor o que quer o tempo todo. Nenhuma relação assim pode ser saudável, fato.
Ps.2: Margareth, a mãe da Brenda nesta mesma série, é uma péssima terapeuta. Não veja a atuação dela e ache que seja uma regra dentro da psicologia. Obviamente ela está lá para enriquecer em cima das celebridades, e dar pitaco errado na vida das pessoas. Isso não é terapia.

David Byrne e seus rolés de bicicleta

Por mais que o livro de nome “Diários de Bicicleta” seja vendido fazendo uma alusão ao Diário de Motocicleta do Che Guevara, não acho que as relações que eu encontrei entre as duas obras seja relevante o suficiente para serem comparadas. La Poderosa rodou parte da América do Sul, e nos contou um pouco sobre esse território tão vasto e selvagem, além de nos dar um gostinho das aspirações humanas e sociais do jovem Guevara. E talvez as comparações possam acabar aí. Pelo menos para mim.
David Byrne escreve sobre seus passeios de bicicletas durante suas viagens a trabalho ou a turismo. Seus escritos reúnem reflexões e descrições sobre o trajeto, sobre o destino, e traz várias informações histórico/sociais/políticas/econômicas sobre algumas construções, personalidades e localidades. Cada capítulo diz respeito à uma cidade dos Estados Unidos ou a alguma cidade estrangeira para ele. E quase sempre ele inicia um processo de comparação entre as cidades.
Eu acho que a questão da comparação é um diálogo sempre possível, desde que as análises sejam feitas de formas horizontais, mas Byrne sempre compara tudo com o fluxo de trânsito de Nova York, como se NYC estivesse mais próximo de um ideal para o ciclista urbano. Isso foi o que me incomodou mais durante a leitura. Essa cagação de regra sobre como o ciclista deve se portar no trânsito, respeitar semáforos e seguir todo o aparato regulamentar que é criado para lidar com os automóveis, e cuja sua aplicação foi empurrada para outros modais.
Para além dessa questão do ciclismo urbano, o livro traz informações bem interessantes sobre processos urbanísticos, descrevendo na prática as ideias de Jan Gehl e Jane Jacobs, suas lutas e conceitos, e como a forma de se planejar as cidades mudaram a ponto de criar espaços para as pessoas viverem, sem perigos automotivos ocupando todo o espaço das vias.
Acho que é por isso que gosto tanto de viajar e conhecer metr´´opoles, sobretudo as cosmopolitas. São recheadas de contradições que tentam agradar e acoplar todo um fluxo de produtos, turistas, serviços, trânsito, cidadãos locais, ideias, eventos, infraestrutura e ecologia em locais tão grandes e extensos que a arquitetura local vira uma miscelânia de influências. A todo momento aparece uma informação nova, e a mão que carrega a câmera já se levanta para registrar alguma coisa.
Termino de ler o livro com várias críticas, tanto positivas como negativas, e uma vontade de ir ao passado e eu mesmo escrever um livro assim. Um diário de viagens. Um registro de onde a bicicleta me levou. Mas eu não tenho dinheiro pra viajar acompanhado de minha bicicleta, muito menos recursos para viajar com tanta frequência assim, rs.
Minhas críticas negativas moram naquele lugarzinho da visão de classe média que o autor possui. Ele narra como se tudo fosse muito fácil às vezes, mas ele é um cidadão branco escocês que mora em Nova York, e ficou muuuito famoso com sua banda, Talking Heads. Realmente viajar com sua bicicleta não deva ser uma tarefa muito difícil e custosa. O ponto positivo é ler as descrições das cidades, suas análises relacionadas com outros fatores (história, economia, política, etc.). É bem gostoso de ler e se imaginar nos trajetos, vendo o que ele está narrando.
Enfim, “Diários de Bicicleta“, de David Byrne é um livro bem daora.

Falta sensibilidade

**Provavelmente conterá spoiler**

Eu ainda estou tentando digerir um pouco da leitura d’O Estrangeiro, de Albert Camus. Não é em si uma obra muito difícil de ler, é bem fácil até, uma leitura bem fluida, com capítulos curtos. Mas foi uma história que me deu agonia do início ao fim. Monsieur Meursault é uma pessoa inafetável. Nem sei se esse termo existe, mas o protagonista não se sensibiliza com praticamente nada que aparece no decorrer das páginas. Parece que ele compreende os acontecimentos como uma linha que já foi escrita, que tudo precisa ser dessa forma, e que a ação dele não mudaria nada. Ele se mostra solícito com alguma situação apenas quando solicitado for, nunca por vontade própria. Ele não questiona acontecimentos, decisões, vontades, apenas aceita e convive com tudo isso, aparentemente, numa boa. Um falecimento, um emprego, um relacionamento, um caso de violência doméstica, um adoecimento, uma perseguição, um assassinato. Tudo passa com uma naturalidade que não transpassa a superfície das emoções, fica só ali, como algo que aconteceu. Nesse terreno infértil, talvez a reação impensada seja a única resposta que possa desenvolver.
É óbvio que existe um certo exagero, mas não duvido que existam pessoas assim, completamente superficiais, que apenas vivem o que deve ser vivido. Existe um curso da vida que a gente segue cegamente, sem ser afetado pelas margens? Tenho minhas dúvidas.

***

Acho que vale a pena mencionar a influência desta obra no último episódio da sitcom Seinfeld. A espetacularização do julgamento e da sentença, baseada na falta de sentimentos dos réus, em um resgate histórico de atitudes apáticas, reacionárias e talvez até desrespeitosas. Nem a prisão consegue afetar esses sujeitos de forma mais profunda. É apenas uma aceitação de que isso ocorreu e, portanto, devemos aceitar. A arte imita a arte.